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Atualizado há cerca de 1 mês

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Brasília, 14 de dezembro – A ata do Copom, que trouxe justificativas para o aumento da taxa Selic em 1,5 ponto agora, e de outro igual no começo de 2022, expressou o primeiro choque entre o duplo mandato recebido pelo Banco Central após a aprovação da Lei que lhe deu autonomia: prioritariamente controlar a inflação, mas, secundariamente, fomentar o pleno emprego.

De acordo com a ata do Copom, “sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”. Para bom entendedor, a recuperação da atividade e dos empregos fica em segundo plano.

No primeiro trimestre de 2022, a Selic poderá passar de 9,25% para 11,75% em duas reuniões, contrastando com o crescimento do PIB de 2,1% em 2022, segundo o governo, ou de 0,50% conforme previsão média dos economistas ouvidos pelo boletim Focus, do BC.

Como o Scoop by Mover tem alertado, a contradição entre Selic versus PIB deve marcar as próximas escolhas políticas, pressionando o governo, que está em modo reeleição, a elevar o esforço das contas públicas. De posse do duplo mandato, o BC não pode mais ignorar o impacto da Selic sobre a atividade econômica, pois, ao atuar de forma contrária ao restante do Executivo, tira eficiência dos programas econômicos e aumenta a incerteza do mercado financeiro.

O patamar da Selic, por exemplo, já começa a comprometer até mesmo estímulos concedidos na pandemia para preservar empregos e empresas, e ajudar na retomada. Segundo o Valor Econômico de ontem, as parcelas atreladas à Selic do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte, Pronampe, vêm subindo junto com a taxa, comprometendo a eficiência do benefício.

Se a desancoragem da inflação em “todo o horizonte relevante” esteve no cerne da escolha, por que é ignorado o IGP-M, que está em campo deflacionário, e o hiato do produto, que cresce trimestre a trimestre?

A sinalização mais recente do Copom ainda deve impactar negativamente setores dependentes de crédito, como varejo e construtores, além de ganhar contornos políticos, ao ameaçar a competitividade da aliança entre o presidente Jair Bolsonaro e o Centrão. Sem falar na resiliência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no topo das pesquisas.

Autonomia do BC

Não se descarta, mesmo com menor probabilidade, que surjam conflitos entre as prioridades governistas e o BC autônomo — como o próprio presidente Jair Bolsonaro já deixou claro, a interlocutores, seu descontentamento com Roberto Campos Neto, presidente da autoridade monetária.

Quando aprovada a lei da autonomia, em fevereiro, articuladores governistas diziam que o Congresso estaria vigilante e, havendo problemas, poderia afastar diretores. Isso não é um risco imediato, contudo aponta disposições latentes a depender da pressão da opinião pública em 2022.

Há duas semanas, Lula se reuniu com o seu eventual vice de chapa, o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, na casa do ex-secretário Gabriel Chalita, segundo o Correio Braziliense. Sinal dos tempos é que o ex-presidente, entre críticas ao governo Jair Bolsonaro, poupou o presidente do BC, Roberto Campos Neto, por quem teria simpatia – e com quem terá de conviver, caso vença em 2022.

Dessa forma, sobretudo com o aparente esgotamento das reformas, não será surpreendente que agentes econômicos passem a endossar eleitoralmente maior apoio a empresas e aportes robustos em estímulos sociais e em infraestrutura como agendas necessárias a partir de 2023. Principalmente se o BC, de forma autônoma, não buscar um equilíbrio para seu duplo mandato.

Texto: Leopoldo Vieira e Machado da Costa
Edição: Allan Ravagnani
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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