Os analistas financeiros impulsivos e o gerenciamento de impressão - TC

TC School / Análise Fundamentalista

Gerenciamento de impressão: Como influencia na decisão de analistas financeiros impulsivos

11/10/2021 às 14:00

TC School

Dando continuidade a série de textos sobre gerenciamento de impressão, iremos falar sobre como a impulsividade dos analistas financeiros pode impactar na eficácia de técnicas de gerenciamento de impressão.

Para isso, foi revisada a dissertação de Rodrigo de Oliveira Leite: An essay on impression management: three randomized experiments with financial analysts.

Para facilitar a leitura, o texto foi dividido nos seguintes pontos:

  • O que é o gerenciamento de impressão?
  • A impulsividade dos analistas financeiros
  • O Teste Cognitivo Reflexivo
  • Disclosure de Informação
  • Conclusão

Boa leitura!

O que é o gerenciamento de impressão?

Em contabilidade, gerenciamento de impressão é a prática dos gestores de uma companhia manipularem ou controlarem a impressão transmitida ao mercado pela forma como as informações são divulgadas (Leary & Kowalski, 1990).

Cada uma destas práticas tem um impacto no processo decisório de analistas financeiros, o estudo aqui revisado, busca entender a efetividade das práticas de gerenciamento de impressão em analistas financeiros impulsivos e reflexivos.

A impulsividade dos analistas financeiros

Por muito tempo não se abordou as características individuais na literatura de gerenciamento de impressão, mesmo com a constatação que essas características têm uma forte influência na tomada de decisão financeira.

Para resolver esse problema, o autor utilizou o score CRT para classificar indivíduos em impulsivos ou reflexivos (Frederick, 2005).   

Cognitive Reflection Test ou Teste Cognitivo Reflexivo

O Cognitive Reflection Test ou “Teste Cognitivo Reflexivo” é um teste desenvolvido em 2005 pelo psicólogo Shane Frederick para identificar o quão impulsivo é um indivíduo. Realizado o teste, cada indivíduo recebe um score, de 0 a 3.

O Teste Cognitivo Reflexivo (CRT) utilizado no estudo tinha três questões: 

  1. Um taco e uma bola de baseball custam $110. O taco custa $10 a mais do que a bola. Quanto custa a bola?
  2. Em um lago, há um conjunto de vitórias-régias. Todo dia o conjunto dobra de tamanho. Se leva 48 dias para que o conjunto de vitórias-régias cubra todo o lago, quantos dias levaria para que o conjunto cobrisse metade do lago?
  3. Se 5 máquinas levam 5 minutos para fabricar 5 componentes, quanto tempo (em minutos) levará 100 máquinas para produzir 100 componentes.

Cada uma das questões tem uma resposta errada (geralmente mais intuitiva) e uma resposta correta (não intuitiva).

Na segunda questão, por exemplo, o entrevistado poderia responder (impulsivamente) que demoraria 24 dias (metade de 48) para o conjunto de vitórias-régias cobrir metade do lago. Mas, como estamos falando de uma progressão geométrica (razão 2) demoraria 47 dias para cobrir metade do lago.

Resultados dos testes

Já era sábido por Cokely & Kelley (2009) que a impulsividade prejudicava a tomada de decisão dos indivíduos. Oechssler et al. (2009) inclusive mostrou que a impulsividade impactava em alguns vieses cognitivos relevantes para a tomada de decisão econômica. O que faltava e foi mostrado no estudo, é como a impulsividade se relaciona com as práticas de gerenciamento de impressão.

Exemplos na prática

O professor Felipe Pontes discorre sobre o tema na TC Rádio, se liga!

Técnicas de gerenciamento de impressão

No estudo revisado no texto anterior, vimos algumas técnicas de gerenciamento de impressão através da disposição gráfica. Agora, vamos revisar como essas técnicas de gerenciamento de impressão podem prejudicar analistas financeiros impulsivos e reflexivos.

Seletividade

A seletividade consiste em uma companhia escolher dados que mostram uma impressão favorável da companhia. Já sabemos que a presença de gráficos em um relatório financeiro é um fator relevante.

Agora, quando as companhias geralmente usam gráficos? Beattie & Jones (1996) mostraram que companhias procuram representar informações positivas através de gráficos, numa tentativa de deixar as informações positivas mais evidentes. Nos gráficos, temos ainda mais técnicas de gerenciamento de impressão:

Manipulação de cores

analista financeiro

Sabemos que as cores influenciam na experiência de um usuário. Geralmente, a cor vermelha tem uma conotação negativa, no próprio mercado uma ação quando está em queda tem em seu gráfico uma barra vermelha (exceto na China).

A cor azul, por outro lado, está relacionada com uma performance positiva, logo, é comum que as companhias usem gráficos em azul para denotar uma boa performance e gráficos em vermelho para denotar uma má performance.

O ponto no gerenciamento de impressão é que as companhias podem usar gráficos em azul para ilustrar performances negativas, afetando o processo decisório de um analista  (Gnambs et al., 2010). A esse processo damos o nome de manipulação de cores.

Distorção de Medidas

gerenciamento de impressões

Estudos antigos como o de Beattie & Jones (1993) mostram que algumas companhias distorcem a base de gráficos para causar uma impressão positiva ao mercado.

Em um experimento com estudantes de graduação, Beattie & Jones (2002) mostraram que o público tinha uma percepção melhor de uma companhia cujo gráfico tinha recebido uma medida distorcida do que uma companhia que não tinha nenhuma distorção em seus gráficos. Os mesmos resultados foram corroborados por Lawrence & O’Connor (1993). 

Resultados do estudo

Com 530 analistas financeiros credenciados ao (Conselho Federal de Contabilidade), foram realizados testes reflexivos cognitivos (CRT) contendo as mesmas três perguntas mencionadas acima:

  1. Em um lago, há um conjunto de vitórias-régias. Todo dia o conjunto dobra de tamanho. Se leva 48 dias para que o conjunto de vitórias-régias cubra todo o lago, quantos dias levaria para que o conjunto cobrisse metade do lago?
  2. Se 5 máquinas levam 5 minutos para fabricar 5 componentes, quanto tempo (em minutos) levará 100 máquinas para produzir 100 componentes.
  3. Um taco e uma bola de baseball custam $110. O taco custa $10 a mais do que a bola. Quanto custa a bola?

Após o teste, foi atribuído a cada um dos analistas um score de impulsividade, sendo de 0 a 3. Após o score, foi testada cada uma das três técnicas de gerenciamento de impressão citadas anteriormente: seletividade, manipulação de cores e distorção de medidas. 

Ao avaliar a amostra, Cardoso RL, Leite RO e de Aquino ACB (2016) verificaram que:

  1. Analistas totalmente impulsivos eram prejudicados por mudanças nas cores dos gráficos (de vermelho para azul), o mesmo não aconteceu com analistas reflexivos.
  2. A mudança de escala dos gráficos afetou tanto os analistas impulsivos quanto os reflexivos.
  3. A seletividade de mostrar apenas informações positivas afetou a decisão dos dois tipos de analista, porém, o analista impulsivo rebaixou o rating da empresa quando recebeu informações positivas e negativas em conjunto.

Conclusão

As diferentes formas que gráficos são expostos em relatórios causam diferentes tipos de reação na percepção dos agentes do mercado em relação à companhia. A coloração diferente de um gráfico acaba por influenciar na análise de um analista financeiro impulsivo, apesar de não ter efeito em analistas normais.

A mudança de escala do gráfico afeta tanto os analistas impulsivos quanto os reflexivos. A seletividade do disclosure de informações afeta os dois tipos de analista, porém, ao receber informações positivas e negativas em conjunto, os analistas impulsivos diminuíram o rating da respectiva companhia em relação aos seus pares. 

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Referências

LEITE, Rodrigo de Oliveira. (2015). An essay on impression management: three randomized experiments with financial analysts. Dissertação (Mestrado em Administração) – Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas, Fundação Getúlio Vargas – FGV, Rio de Janeiro.

Cardoso, R. L., Leite, R. de O., & Aquino, A. C. B. de. (2016) The effect of cognitive reflection on the efficacy of impression management: an experimental analysis with financial analysts. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 31( 6), 1668-1690. doi:10.1108/aaaj-10-2016-2731, 2018.

Frederick, S. (2005). Cognitive Reflection and Decision Making. Journal of EconomicPerspectives, 19(4), 25–42.

Beattie, V. and Jones, M. J. (1992). The use and abuse of graphs in annual reports: theoretical framework and empirical study. Accounting and business research, 22(88):291–303.

Beattie, V. A. & Jones, M. J. (1993). Information design and manipulation: Financialgraphs in corporate annual reports. Information Design Journal, 7(3), 211–226.

Lawrence, M. & O’Connor, M. (1993). Scale, variability, and the calibration of judgmentalprediction intervals. Organizational behavior and human decision processes, 56(3), 441–458.

Lucca Carlini
Lucca Carlini
Estudante de Economia na UFPE

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