Qualidade dos Lucros: Como as empresas manipulam as contas - TC

TC School / Análise Fundamentalista

Qualidade dos Lucros: Como as empresas manipulam as contas para te enganar

22/09/2021 às 17:00

TC School

Hoje vamos falar sobre como as empresas manipulam as contas. É a sequência da série sobre a qualidade dos lucros na análise fundamentalista com a participação do professor Felipe Pontes na TC Rádio.

A série “Qualidade dos Lucros” é composta dos seguintes temas:

  1. O Método POC – como as empresas aumentam ou reduzem suas despesas
  2. Como manipular as operações para reduzir os custos?
  3. Como as empresas manipulam as contas
  4. Estudo de Caso: ABEV3, VALE3 e PETR4
  5. As distorções entre lucro e geração de caixa
  6. Gerenciamento de impressão

Boa leitura!

Como as empresas manipulam as contas

Existe um padrão em como as contas são classificadas? Ou cada empresa faz do jeito que quiser?

Sim, existe um padrão, onde temos basicamente as duas principais demonstrações contábeis: o Balanço Patrimonial (BP) e a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE).

O balanço demonstra o equilíbrio das origens dos recursos da empresa com as aplicações destes recursos. Então, as origens dos recursos vêm dos passivos e do patrimônio líquido. Já a aplicação fica no ativo: máquinas, equipamentos e investimentos no geral.

Já do lado do ativo existe um padrão de liquidez. Quanto maior for a chance de transformar um ativo em dinheiro ou equivalente de caixa, mais em cima ele vai ficar. Já no passivo, quanto maior for a chance de eu ter que desembolsar caixa ou outros recursos para pagar aquele passivo, mais em cima ele fica também.

Portanto, ativo se classifica por liquidez e passivo por exigibilidade.

Na Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), a gente parte da receita e vai subtraindo os custos até chegar no lucro. Então, esse é o padrão que tem de ser seguido.

Só que muitas vezes as empresas manipulam as contas, mexem em algumas delas. Principalmente na DRE, colocando uma mais em cima, quando deveria estar mais embaixo. Por exemplo, algumas empresas classificaram o “não recorrente” do ICMS na base de cálculo do PIS e Cofins deduzindo os custos das mercadorias vendidas, enquanto que outras classificaram como uma receita não recorrente, depois do Lucro Bruto. Isso passa uma visão distorcida dos números e atrapalha a comparabilidade entre empresas.

TC Rádio

Vídeo na íntegra:

Como ocorre a manipulação de resultados

Do mesmo modo que ocorre na manipulação dos accruals e das atividades reais, existem várias alternativas para a empresa manipular a informação pela classificação ou reclassificação das suas contas contábeis.

A empresa não usa apenas uma, mas uma mistura de várias formas de manipulação — acrruals, atividades reais etc. Principalmente as medidas não GAAP (general accepting accounting principles), que são as medidas que estão fora dos Princípios Contábeis Geralmente Aceitos.

Os não GAAP (ou non-GAAP), basicamente, é o número/dado que a empresa reporta que está fora desses princípios contábeis geralmente aceitos.

Por exemplo, o EBITDA é uma medida não GAAP, que todo mundo usa, mas não tem uma norma contábil que diz como calcular o EBITDA. Existem apenas instruções da CVM que mostram qual é a forma mais adequada de reportar, mas não um número contábil especificamente.

A empresa pode mexer nos números não GAAP. Por exemplo, GMV (Gross Merchandise Volume) também é uma medida não GAAP. A empresa pode mexer na forma como vai reportar GMV para passar uma informação que ela gostaria que fosse passada de uma forma melhor.

Via Varejo (VIIA3)

Podemos citar como exemplo a Via Varejo (VIIA3), que recentemente (final de 2019), mudou a forma como as vendas são classificadas no GMV da empresa.

As compras retiradas na loja que antes eram feitas como vendas online passaram a ser classificadas como venda da loja física. Se você comprar para retirar na loja no shopping X, a receita será de venda daquele Shopping. Também é possível mexer nos itens não recorrentes e notas explicativas – dá para mexer em muita coisa.

Nesse exemplo da Via Varejo, atualmente apenas Via, com essa mudança, a empresa está indicando que o seu Marketplace possui um faturamento excelente quando, na verdade, não é bem assim.

Essa mudança pode ser um prejuízo para quem investe na companhia apostando, por exemplo, nessa solução digital?!

No geral, as manipulações das contas podem trazer prejuízos nesse sentido para o investidor.

Contudo, essa mudança em específico da Via Varejo, em linhas gerais, foi adequada. Isso porque foi realizada uma venda na loja online, só que a retirada foi na loja física, então, tem o custo da loja e os gastos inerentes a essa retirada.

Mas, de toda forma, há uma distorção da informação em como ela é apresentada. É importante ficar de olho nos detalhes.

Classificação da receita não recorrente

Agora, sobre a classificação da receita não recorrente, o que podemos falar sobre isso?

As receitas e despesas não recorrentes compõem um mundo muito grande. Tudo que não for recorrente, é algo pontual, vai ficar como não recorrente.

Como, por exemplo, a questão do não recorrente do ICMS na base de cálculo de PIS e COFINS que eu comentei anteriormente. Nesse caso, existem empresas reconhecendo uma receita no topo da DRE, como sendo um tributo positivo, e tem empresa que colocava embaixo como uma receita não recorrente.

Nessa situação, as empresas que colocam em cima, passam uma imagem para o investidor de que a receita está crescendo muito mais forte do que estava, quando na verdade é um item não recorrente.

De toda forma, nessa situação, não há exatamente um certo e outro errado. Nesse caso, de fato está relacionado com receita não recorrente no ICMS sob base de cálculo PIS e COFINS. Mas a representação melhor para o investidor seria mais embaixo como uma receita não recorrente para não gerar a confusão de melhoria de margem bruta e crescimento da receita que não existiu de fato.

Como é que o investidor se protege dessas manipulações?

Basicamente, do mesmo jeito que os textos anteriores. É preciso olhar os detalhes, as notas explicativas, questionar a área de relações com investidores da empresa e participar do conference call.

Não dá para olhar somente o número que está na demonstração contábil. O número sozinho é só um número, não passa informação em si porque é apenas um dado. Você precisa de informação, tem que ter inteligência.

Uma dica de livro é o de Damodaran, “Narrative and numbers”. É uma obra bem legal sobre essas questões de manipulações, com narrativas e números.

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Professor Felipe Pontes
Felipe Pontes
Diretor Educacional do TradersClub
Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN. Professor de Contabilidade e Valuation. Gestor de Clube de Investimento.

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