Gerenciamento de resultado dos bancos brasileiros - TC

TC School / Análise Fundamentalista

Gerenciamento de resultado dos bancos brasileiros

29/06/2021 às 16:28

TC School

Já falamos aqui no blog do TC sobre o gerenciamento de resultados nas divulgações financeiras das empresas listadas em bolsa. Para completar a discussão, no texto a seguir, vamos elencar outros pontos, em especial quanto ao gerenciamento de resultados dos bancos e instituições financeiras.

O texto está dividido nos seguintes tópicos:

  • O que é gerenciamento de resultados
  • Os bancos e a pandemia
  • Como o gerenciamento é feito na prática?
  • Verificando os pressupostos do modelo de MQO
  • Conclusão

Boa leitura!

gerenciamento dos bancos

O que é gerenciamento de resultados?

A Contabilidade, ao contrário do que muitos pensam, não é uma ciência exata, existem muitas tarefas que estão sujeitas à subjetividade dos agentes, como por exemplo a constituição de provisões. Dessa forma, a subjetividade deixa margem para a prática de gerenciamento de resultados.

O gerenciamento de resultados é a utilização de ações discricionárias por parte dos administradores para influenciar a interpretação da realidade econômica e financeira da empresa, através das atividades operacionais ou das escolhas contábeis (PAULO, 2007).

É importante ressaltar a diferença entre a fraude contábil e o gerenciamento de resultados; o primeiro é uma atitude ilícita, enquanto o segundo está dentro do permitido pelas normas contábeis. Ou seja, o gerenciamento de resultados não é uma prática ilegal, ao contrário do que alguns podem imaginar. Para entender melhor a diferença entre esses conceitos, temos este texto no TC School diferenciando os conceitos deste tema.

Entretanto, apesar de ser uma prática que se encaixa dentro do escopo legal, o gerenciamento pode afetar o desempenho da sua estratégia de investimentos.

No vídeo abaixo, disponível no canal do TC no YouTube, o Professor Orleans explica e levanta algumas discussões sobre o gerenciamento de resultados das companhias listadas em bolsa.

Gerenciamento de resultados dos bancos na crise do COVID-19

Neste texto, mais especificamente, vamos nos ater ao gerenciamento de resultados nas instituições financeiras analisando o período da crise provocada pelo novo coronavírus, momento no qual as provisões atingiram números elevados e o lucro líquido dos bancos sofreu uma redução considerável, como é possível ver no gráfico abaixo.

Para entender por que os bancos foram tão afetados com a crise do COVID-19, precisamos entender sobre o modelo de negócio dessas empresas. Como é conhecimento de todos, as instituições financeiras em geral se distinguem das outras empresas da bolsa por uma série de questões, como a natureza das suas atividades, estrutura de capital e padronização contábil.

O modelo de negócios dos bancos consiste principalmente na obtenção de receitas financeiras através da captação de recursos a uma taxa menor e o empréstimo a uma taxa superior, sendo esse spread o resultado bruto de intermediação financeira do banco.

Esse empréstimo fica registrado contabilmente como Contas a Receber do banco, porém acontece que nem sempre essa operação é bem-sucedida e o banco, utilizando o jargão popular, acaba levando o calote. Como a informação contábil deve refletir de melhor maneira a realidade da empresa, os ativos não podem estar registrados no balanço por um valor superior ao valor efetivo que ele será realizado, por isso os bancos constituem a Provisão para Perda Esperada.

Para entender melhor sobre o comportamento da provisão dos bancos, recomendo a leitura deste texto.

É notável o impacto da Provisão no Lucro Líquido do período, no caso do Itaú, o resultado final do banco chegou a cair mais do que 40%. O banco justifica o porquê do provisionamento, alegando mudança nas condições macroeconômicas. É possível também encontrar mais detalhes nas notas explicativas dos demonstrativos contábeis da empresa.

Fonte: Relatório gerencial 1t20 Itaú

Como o gerenciamento é feito na prática?

Você pode estar se perguntando, “ok, mas o que a Provisão para Perda Estimada tem a ver com o gerenciamento de resultados?”

Existem diversas formas de gerenciar os resultados dentro do escopo da norma, algumas são mais comuns como as citadas por Burgstahler e Dichev (1997), que segregaram o processo de gerenciamento em diferentes modalidades como:

  1. Bump Up (quando os gestores possuem incentivo para bater alguma meta e utilizam os resultados para melhorar seu desempenho);
  2. Cookie-Jar Accounting (quando o resultado “extra” em um período é reduzido e utilizado para compensar um resultado fraco em outro momento);
  3. Big Bath Accounting (melhorar o resultado futuro reconhecendo despesas que não precisam ser reconhecidas no presente); e
  4. Income Smoothing (prática que visa reduzir a dispersão dos resultados).

Dentre as citadas, a mais comum nas instituições financeiras é a última – Income Smoothing.

Ou seja, os bancos se utilizam de um critério subjetivo (constituição de provisões) para reduzir a volatilidade dos seus resultados, já que na visão deles isso é ruim.

Nem toda provisão é feita com intuito de gerenciar o resultado, mas é possível encontrar evidências científicas de que os bancos utilizam a Provisão para Créditos de Liquidação Duvidosa para gerenciar o lucro.

Como saber se houve ou não gerenciamento por parte dos bancos?

Para identificar a presença ou não de gerenciamento utilizaremos modelos expostos na literatura a acadêmica.

O modelo foi estimado com base no proposto por Martins Silva et al (2018), tendo como proxy de gerenciamento a relação positiva e estatisticamente significante entre as despesas com PCLD e o resultado ajustado com as despesas para provisão de créditos de liquidação duvidosa.

〖LLP〗_(i,t) – Despesas com PCLD (Provisão para Créditos de Liquidação Duvidosa) do banco i, no período t, escalonado pelos ativos totais no início do período;
〖LLaj〗_it – Lucro Líquido ajustado com as despesas com PCLD do banco i, no período t, escalonado pelos ativos totais do início do período;
〖ΔLOAN〗_(i,t) – Variação no valor do saldo da carteira de crédito no período t, do banco i, escalonado pelo total de ativos do início do período;
〖NPL〗_(it-1) – Saldo dos créditos vencidos e não pagos, no período t-1, do banco i, escalonado pelo total de ativos do início do período;
〖ΔNPL〗_it – Variação no valor dos empréstimos vencidos e não pagos, no período t, do banco i, escalonado pelo total de ativos no início do período;
〖LLaj〗_(it-1) – Saldo acumulado da PCLD do banco i, no período t-1, escalonado pelo total de ativos do início do período;
〖INT〗_it – Taxa de juros implícita média da carteira de crédito, do banco i, no período t;
〖GDP〗_t – Taxa de variação do PIB do país no período t;
〖LnAt〗_it – Logaritmo natural dos ativos totais do banco i, no período t.

Amostra

Foram utilizados dados trimestrais de sete bancos brasileiros listados na bolsa (Banco ABC, Banco Pan, Banrisul, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander) no período correspondente ao 3t19 até o 1t21. As informações foram coletadas na plataforma Economática® e nos sites de relações com investidores de cada empresa:

Verificando os pressupostos do modelo de MQO

Todas as séries foram testadas para verificar a obediência aos pressupostos inerentes ao método de Mínimos Quadrados Ordinários. Para verificar a existência de Heterocedasticidade utilizamos o teste de Breusch-Pagan, não identificando a presença de Heterocedasticidade no modelo.

Para testar a presença de multicolinearidade utilizamos o Fator de Incremento da Variância (VIF), também não identificando a presença de multicolinearidade no modelo.

Os resíduos estão normalmente distribuídos, de acordo com o teste de Shapiro-Wilk de normalidade.

Resultados

Os resultados apontam que o único fator estatisticamente significante é o resultado ajustado, o qual impacta positivamente a provisão dos bancos.

De acordo com Burgstahler e Dichev (1997), a prática do income smoothing ocorre com objetivo de reduzir a volatilidade dos resultados, partindo da premissa que a dispersão dos resultados é uma medida de risco. Assim, os gestores têm incentivos para gerenciar os resultados de forma a suavizar o comportamento da série. É a prática mais comum identificada em pesquisas empíricas de acordo com Silva et al (2019).

Dessa forma, é possível identificar que os bancos brasileiros se utilizaram da prática conhecida como income smoothing, ou seja, houve gerenciamento de resultados por parte dos bancos brasileiros nesse período.

Conclusão

Apesar de não ser uma prática ilegal, é importante o investidor se atentar ao gerenciamento por parte das instituições financeiras, já que o indício de gerenciamento de resultados não é algo positivo. O ideal é que a informação contábil seja imparcial. Detectamos a presença de gerenciamento de resultados por meio de modelos testados na literatura acadêmica para o período analisado.

Essa presença estatisticamente significante pode levantar uma série de hipóteses a respeito da informação contábil das instituições financeiras, até a de que os bancos exageraram nas provisões, e podemos ver a reversão delas em um cenário de estabilização econômica.

Dessa forma, é importante o investidor aprender a diferenciar conceitos como fraude, gerenciamento e entender que toda informação deve ser analisada sob um olhar crítico, inclusive a contábil divulgada pelas empresas e revisada pelos auditores.

Referências

BURGSTAHLER, D., DICHEV I. Earnings management to avoid earnings decrease and losses. Journal of Accounting and Economics, v. 24, n. 1, p. 99-126, dez. 1997. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/S0165-4101(97)00017-7

Martins Silva, C. A., Niyama, J. K., Rodrigues, J. M., & Costa Lourenço, I. M. E. (2018). Gerenciamento de resultados por meio da perda estimada de créditos em bancos brasileiros e luso-espanhóis. Revista Contemporânea De Contabilidade15(37), 139-157. https://doi.org/10.5007/2175-8069.2018v15n37p139

PAULO, Edilson. Manipulação das informações contábeis: uma análise teórica e empírica sobre os modelos operacionais de detecção de gerenciamento de resultados. 2007. Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade–Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

SILVA, K. O.; ROBLES JUNIOR, A. (2018) Provisão para créditos de liquidação duvidosa (PCLD) calculada conforme as normas do BACEN e IFRS: comparação. Cafi, v. 1 n. 1, p. 4- 21. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/CAFI/article/download/36949/25173. Acesso em: 17 mar. 2019.

Lucas Costa
Lucas Costa, CGA
Analista TC Matrix. Graduando em Economia pela UFPB
Membro do Projeto Quantum e vencedor do Prêmio Calouro Destaque em 2018

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