TC School / Análise Fundamentalista

Gerenciamento de resultados: O que é e como ele está presente nas divulgações financeiras

29/06/2021 às 10:33

TC School

As informações financeiras têm como objetivo principal a utilidade para a tomada de decisão do seu usuário. Em função disso, é esperado pelos usuários que as informações relatadas sejam munidas de características que evidenciam que há uma retratação fidedigna da realidade nos números contábeis.

Dentre estes números, é possível destacar aqueles que estão diretamente relacionados ao resultado obtido pela empresa durante o período a que se refere a demonstração. Baseado neste aspecto, é esperado que existam características que qualificam o resultado reportado na demonstração em termos de acurácia, confiabilidade.

As acadêmicas Patricia Dechow, Weili Ge e Catherine Schrand elaboraram uma revisão, em 2010, sobre a qualidade dos resultados de maneira geral, suas representações, determinantes e consequências, sendo evidenciado que os resultados de maior qualidade são aqueles que contém mais informações relevantes para o tomador uma decisão específica.

Neste sentido, a literatura acadêmica discute que há certa comunalidade entre a qualidade dos resultados e o gerenciamento destes resultados pelos gestores, no sentido de que alto gerenciamento tende a diminuir a qualidade do resultado reportado (e.g., Kin Lo, 2008).

Neste texto você entenderá que existe muito mais informações sobre o resultado e sua composição, além dos números que são divulgados pelas empresas!

  • Conceito: O que é o gerenciamento de resultados?
  • Como ele está presente nas divulgações financeiras?
  • Como é possível mensurar?

Boa leitura!

gerenciamento de resultados

O que é o gerenciamento de resultados?

Os stakeholders dispendem atenção especial aos resultados reportados pelas empresas. Em função da importância informacional dos resultados, é verificado empiricamente que os gestores tomam decisões que refletem e influenciam nos resultados que são reportados.

O gerenciamento de resultados ocorre tanto quando os gestores fazem escolhas contábeis no sentido de melhorar a ‘informatividade’ e fidedignidade do desempenho relatado pela empresa, bem como também quando as decisões tem por intuito evidenciar de forma distorcida qual seria o desempenho real da empresa durante o período.

As evidências de que há gerenciamento não são recentes, em 1953, no artigo “Smoothing Periodic Income”, Samuel Hepworth elenca diversas formas utilizadas com o intuito de suavizar os resultados divulgados, que vão desde a manipulação da receita bruta, envolvia contabilização de ativos intangíveis, avaliação dos estoques, ativos imobilizados e os critérios para a depreciação.

Numa abordagem posterior, o gerenciamento foi conceituado como aquelas intervenções intencionais feitas nas divulgações financeiras cujo intuito é relacionado a obtenção de um objetivo privado do gestor/empresa.

Adiante, Healy e Wahlen, em 1999, trazem uma definição do que é gerenciamento, e não mais um conceito. Na definição dos autores, o gerenciamento de resultados “ocorre quando os gerentes usam o julgamento em relatórios financeiros e na estruturação de transações para alterar relatórios financeiros para enganar algumas partes interessadas sobre o desempenho econômico subjacente da empresa ou para influenciar resultados contratuais que dependem dos números contábeis divulgados pela empresa”.

Mais recentemente, em 2013, Martin Walker apresenta o gerenciamento de uma forma mais ampla, e ao meu ver, mais coerente. Walker aborda que o gerenciamento compreende as definições anteriores, mas não é possível presumir que todo gerenciamento de resultados seja ruim. Em função disso, a nova definição é que o gerenciamento está relacionado as decisões contábeis e econômicas tomadas pelos gestores, desde que não violem a legalidade (e o GAAP, quando for o caso).

Sendo assim, há uma distinção entre o que é gerenciamento e aquelas manipulações que ultrapassam os limites e são consideradas como fraudes, e o termo “gerenciamento de resultados” inclui práticas amplas, que vão além da suavização ao longo do tempo.

Sendo assim, faz-se necessário compreender que o gerenciamento dos resultados existe, naturalmente, e portanto, pode ser acompanhado por quem utiliza as informações financeiras para tomar decisões, em especial as de investimento.

Numa revisão recente, de 2020, Elisa Menicucci aborda o relacionamento, e, por vezes, a confusão existente entre a qualidade dos lucros reportados e o gerenciamento de resultados, destacando que o tópico continua desafiador para investidores, analistas, gestores, reguladores e pesquisadores.

Como ele está presente nas divulgações financeiras?

Na maioria dos casos, não é possível identificar diretamente com toda a certeza se houve ou não gerenciamento em uma informação reportada, e qual a sua dimensionalidade e naturalidade quanto à ocorrência. A ideia central é que os gestores podem (e utilizam) de decisões, tanto no âmbito operacional quanto no âmbito contábil, que implicam em gerenciamento do número que está sendo reportado como resultado.

E isto pode ser resumido em dois conceitos provenientes da definição mais ampla de gerenciamento de resultados que mostramos acima. São eles, o gerenciamento das atividades reais e o gerenciamento por meio dos accruals.

O gerenciamento parte da composição do resultado em si (fluxo de caixa e os accruals totais) e os accruals são provenientes da utilização do regime de competência (Accrual-basis). No gerenciamento por meio dos accruals há interferência no timing de reconhecimento do resultado (lucro/prejuízo).

Neste caso, é considerado que parte das decisões contábeis são passíveis de discricionariedade, isto é, exige julgamento quanto ao reconhecimento e, portanto, podem ser adiantadas ou postergadas suas implicações no resultado. Por exemplo, algumas contas como as contas a receber dos clientes, o reconhecimento de ativos imobilizados e a depreciação, os instrumentos de dívida de caráter contratual que a empresa possui, etc.

Já o gerenciamento das atividades reais é aquele que os gestores tomam decisões cujo objetivo é uma implicação no resultado, mas não por meio de escolhas contábeis que exigem julgamento.

Neste gerenciamento, os gestores tomam decisões que fogem das “práticas normais” com o objetivo de atingir um determinado resultado. Por exemplo, os gestores decidem gastar mais ou menos em atividades de investimento, descontos para aumentar as vendas, elevação da produção para reduzir custos, dentre outros.

Como é possível mensurar?

Por sua característica de difícil mensuração e impossibilidade prática de determinação quanto ao volume do resultado que foi gerenciado pela mera observação, os acadêmicos e práticos têm investido bastante esforço em como medir o gerenciamento de resultados.

E em função disto, existem diversas maneiras de mensurar o gerenciamento de resultado por meio de proxies (“medida de substituição” em virtude do gerenciamento ser não observável ou mensurável diretamente).

Aqui, listo vinte e um deles, sem exaurir as possibilidades:

Eckel (1981); Ronen e Sadan (1981), Healy (1985), DeAngelo (1986 e 1988), Dechow e Sloan (1991); Jones (1991); ”Jones modificado” (1995); K-S (1995); Kasznik (1999); “Cash Flow” (2002); “Forward-looking” (2003); Pae, (2005); “Performance Matched” (2005); “Atividades reais de Roychowdhury” (2006); Jianming Ye (2007); Paulo (2007); Stubben (2010); “Atividades reais de Gunny” (2010); Zang (2012); Dechow et al (2012); Collins, Pungaliya e Vijh (2017).

É pouco provável que individualmente o investidor mensure o gerenciamento por todos os modelos existentes (e pode causar muito mais confusão do que esclarecimento pelas divergências entre eles).

Contudo, conhecer a dimensionalidade do gerenciamento realizado pelas empresas pode contribuir para a avaliação deste investimento, isso tem como fundamentação a própria utilização do resultado nos modelos de avaliação e a “informatividade” dos resultados, passados e presente, para a tomada de decisão.

Conclusão

Baseado nisso, o usuário da informação divulgada em conjunto com esta possibilidade de avaliação quantitativa, tem que dedicar-se a acompanhar os incentivos a resultados reportados pelas empresas com qualidade aquém da esperada, em especial no que se refere à governança corporativa e incentivos legais. E, além disso, possíveis indicações por meio de mudanças ocorridas nas políticas contábeis adotadas pela empresa de forma “anormal”.

Estas situações podem trazer indícios, mas não uma afirmação permanente de que houve manipulação dos números com intuito específico.

Referências

DECHOW, P.; GE, W.; SCHRAND, C. Understanding earnings quality: A review of the proxies, their determinants and their consequences. Journal of Accounting and Economics, v. 50, n. 2-3, p. 344–401, dez. 2010.

HEPWORTH, S. R. Smoothing Periodic Income. The Accounting Review, v. 28, n. 1, p. 32–39, 1953.‌

HEALY, P. M.; WAHLEN, J. M. A Review of the Earnings Management Literature and Its Implications for Standard Setting. Accounting Horizons, v. 13, n. 4, p. 365–383, 1 dez. 1999.

How far can we trust earnings numbers? What research tells us about earnings management. Disponível em: <https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00014788.2013.785823>. Acesso em: 23 jun. 2021.

EARNINGS QUALITY. Earnings Quality – Definitions, Measures, and Financial Reporting | Elisa Menicucci | Palgrave Macmillan. Disponível em: <https://www.palgrave.com/gp/book/9783030367978>. Acesso em: 23 jun. 2021.

José Mauro Madeiros Velôso Soares
José Mauro Madeiros Velôso Soares
Professor de Contabilidade, Contador e Doutorando em Ciências Contábeis pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

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