Como os gráficos financeiros afetam a decisão dos analistas - TC

TC School / Análise Fundamentalista

Gerenciamento de impressão: como os gráficos financeiros afetam a decisão dos analistas

30/09/2021 às 15:00

TC School

Hoje iremos discorrer sobre como os gráficos financeiros afetam a decisão dos analistas. Isso porque algumas características intrínsecas de cada um de nós podem influenciar várias de nossas decisões financeiras.

Em recente estudo, pesquisadores da FGV examinaram como o jeito que as informações numéricas eram mostradas em gráficos financeiros e influenciavam na decisão dos analistas financeiros.

Já falamos brevemente sobre gerenciamento de impressão aqui no TC School. E no texto de hoje, revisaremos o artigo e entenderemos como simples gráficos podem interferir em todo o processo decisório.

  • Como as informações são mostradas em relatórios financeiros?
  • Os resultados positivos e os gráficos
  • Gráficos financeiros e o processo decisório de um analista financeiro
  • O excesso de confiança prejudica a análise?
  • Conclusão

Boa leitura!

gráficos financeiros

Como as informações são mostradas em relatórios financeiros?

Em  relatórios financeiros, as informações são apresentadas através de quatro principais formas: textos, gráficos de barra, gráficos de linhas e tabelas.

Alguns desses tipos são normalmente mais fáceis de serem lidos e demandam menos tempo, outros podem exigir mais tempo e atenção do analista.

Disclosure em texto

Obviamente, é sabido que todas as informações financeiras relevantes são divulgadas em forma de texto.

Vejamos o texto abaixo retirado do press release da Taurus do 2T21:

gráfico tasa4

Fonte: R.I. Taurus Armas – Press Release 2T21

Nele, observamos uma breve passagem que contém dados sobre o desempenho da companhia no período. Para fins de comparação, veremos como a mesma informação é disponibilizada em forma de gráfico de barras.

Gráficos de Barras

Um gráfico de barras possui barras retangulares e comprimento proporcional aos valores que ele apresenta. É uma forma comum de mostrar informações em relatórios financeiros.

Vejamos dois gráfico de barras que representam os dados apresentados no texto acima:

produção de armas no Brasil

Fonte: R.I. Taurus Armas – Press Release 2T21

É diferente, não é?! Há evidências de que cada um dos quatro modos de disclosure de informação citados acima, possuem diferentes impactos no processo decisório de analistas financeiros (Cardoso RL, Leite RO, de Aquino ACB, 2016).  

Tabelas

Uma tabela é um arranjo de dados e informações em linhas e colunas. É outra forma comum de representação de informações.

Vejamos outro exemplo no mesmo relatório da Taurus:

gráficos financeiros tc

Fonte: R.I. Taurus Armas – Press Release 2T21

No exemplo supracitado, há a representação do desempenho das ações ordinárias e preferenciais da Taurus (TASA3 e TASA4) listadas na B3. Há evidências de que a representação de informação por tabelas melhora a acurácia dos analistas em relação às informações textuais.

Veremos abaixo, então, como é essa mesma representação em um gráfico de linhas.

Gráfico de linhas

Um gráfico de linha exibe uma informação de uma série de pontos ligados por um segmento de reta. É normalmente composto por um eixo x e um eixo y.

Veja o exemplo de um gráfico de linhas contendo o desempenho das ações da Taurus:

gráficos financeiros linhas

Fonte: R.I. Taurus Armas – Press Release 2T21

Há, obviamente, diferenças entre o gráfico e a tabela, pois o gráfico contém também as séries temporais do índice Ibovespa e do índice de Small Caps.

O ponto aqui é que, para informações espaciais, há também evidências de que os gráficos de linhas contribuem mais positivamente do que as tabelas para as análises acuradas por parte dos analistas (Cardoso RL, Leite RO, de Aquino ACB, 2016).  

Gráficos financeiros e resultados positivos

Em estudo feito no Reino Unido, foram observados resultados anuais de 240 empresas listadas e foi identificado que 79% delas utilizavam gráficos.

Além disso, também observou-se que quando haviam gráficos no resultado estava relacionado com um padrão positivo na performance da companhia.

Há, também, outras formas de disponibilização de informações financeiras, como por exemplo através de vídeos. Como ainda não possuímos evidências empíricas sobre seu impacto, focaremos apenas nos gráficos.

Vimos acima que os gráficos de linhas podem ajudar os analistas financeiros a analisar os dados de forma correta, mas, será que os gráficos também não podem atrapalhar?

Será que as empresas não utilizam certos gráficos para dar uma certa impressão para o analista?

Gráficos financeiros e o gerenciamento de impressão

O conceito de gerenciamento de impressão na contabilidade se refere à hipótese dos administradores gerenciarem a impressão transmitida aos agentes por meio da forma que as informações são divulgadas.

A literatura mostra que os gráficos financeiros são mais vulneráveis a manipulações porque não são auditados e nem prescritos (Beattie and Jones, 1992, 2000a; Jones, 2011). Gráficos podem sim atrapalhar e gerar uma impressão errônea no analista.

Existem três tipos de gerenciamento de impressão por gráficos bastante comuns:

Seletividade

Ocorre quando a companhia escolhe os dados que mostram uma impressão favorável da companhia. É uma prática ainda comum, principalmente nos releases de resultados de algumas companhias.

Distorção de medida

Ocorre quando a companhia escolhe figuras gráficas que não representam com fidelidade os dados financeiros. Veja o exemplo abaixo.

Sabemos que os gráficos de barras precisam estar na mesma base, e não é o que ocorre, pois uma barra de 28,7 é levemente maior que a outra:

distorção de gráficos

Fonte: PCAR3: Power Point Éxito (ou Assaí) – 2020

Foco na aparência da apresentação

Ocorre quando a companhia foca mais em design de gráficos financeiros estonteantes e em uma apresentação bonita do que nos dados financeiros em si.

Gráficos financeiros e o processo decisório do analista

Você pode achar um tanto estranho o fato de que os gráficos financeiros e tabelas podem ajudar na acurácia de uma análise de um profissional financeiro, já que vários outros fatores internos também podem influenciar no processo decisório de um analista.

Dentre os mais recorrentes vieses comportamentais temos: o viés da ancoragem, o viés de familiaridade, a ilusão de controle, a aversão à perda e o excesso de confiança.

O fator interno mais relevante destacado pelo estudo é o excesso de confiança. Primeiro, você sabe o que é o excesso de confiança?

O Excesso de confiança

O excesso de confiança é um viés cognitivo no qual a confiança de um indivíduo em seus julgamentos é maior do que a precisão objetiva desses julgamentos. A literatura define o excesso de confiança em três subtipos  (Mannes and Moore, 2013a,b):

(1) Overestimation: É a tendência de superestimar suas próprias habilidades, performance e chance de sucesso na análise de determinado objeto ou realização de tarefas.

(2) Overplacement: É a forma mais comum de manifestação de excesso de confiança. É a crença (errônea) que alguns indivíduos possuem de que são melhores do que os outros, ou acima da média.

(3) Overprecision:  É o excesso de confiança de que se sabe a verdade sobre determinado assunto.

O excesso de confiança prejudica a análise?

O subtipo em foco do estudo é o overplacement. E sim, quando os analistas acham que sabem mais que a média, acabam por interpretar errado informações numéricas.

Já existiam evidências empíricas de que indivíduos com excesso de confiança cometem mais erros (Tang et al., 2013; Mannes and Moore, 2013a; Bengtsson et al., 2005), e, mais uma vez, o excesso de confiança mostrou sim prejudicar a acurácia na interpretação de dados numéricos dos analistas (Cardoso RL, Leite RO, de Aquino ACB, 2016).

Conclusão

Gráficos financeiros têm de fato um impacto positivo na acurácia dos analistas financeiros, em média, os ajudando a analisar corretamente as informações. Com gráficos de barras e linhas torna-se mais fácil visualizar mudanças nos dados do que em textos. Principalmente se tratando de variáveis contínuas como tempo.

Pelo fato do excesso de confiança e da divulgação de gráficos numéricos influenciarem na acurácia de analistas financeiros, é necessário que se treine quem faz os relatórios financeiros para que os dados sejam mostrados graficamente de forma fidedigna.

Também é necessário que os analistas financeiros estejam atentos às táticas de gerenciamento de impressão que buscam explorar seus vieses comportamentais. 

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Referências

Cardoso, R. L., Leite, R. de O., & Aquino, A. C. B. de. (2018). The effect of cognitive reflection on the efficacy of impression management: an experimental analysis with financial analysts. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 31( 6), 1668-1690. doi:10.1108/aaaj-10-2016-2731

Tang, F., Hess, T. J., Valacich, J. S., and Sweeney, J. T. (2013). The effects of visualization and interactivity on calibration in financial decision-making. Behavioral Research in Accounting, 26(1):25–58.

Beattie, V. and Jones, M. J. (1992). The use and abuse of graphs in annual reports: theoretical framework and empirical study. Accounting and business research, 22(88):291–303.

Mannes, A. and Moore, D. (2013a). I know i’m right! a behavioural view of overconfidence.Significance, 10(4):10–14.

Lucca Carlini
Lucca Carlini
Estudante de Economia na UFPE

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