Taxa de reinvestimento: o que é e qual a sua importância?  - TC

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 Taxa de reinvestimento: o que é e qual a sua importância? 

06/07/2021 às 16:09

Vitor Marques

O crescimento das companhias é um ponto primordial e buscado pelos administradores e investidores. Nesse sentido, um importante fator que contribui significativamente para esse processo é a taxa de reinvestimento

Para facilitar a leitura, separei o artigo da seguinte forma:

  • Crescimento das empresas
  • Lucro: qual o seu destino? 
  • O que é a taxa de reinvestimento?
  • Como calcular a taxa de reinvestimento?
  • Taxa de reinvestimento e payout na prática
  • A taxa de reinvestimento à luz da ciência
  • Reflexão para os investidores

Boa leitura!

taxa de reinvestimento

Crescimento das empresas

O processo de crescimento das atividades das empresas passa pelos investimentos nas mais diversas áreas que compõem cada organização, além da melhoria de sua rentabilidade.

Dessa forma, como foi debatido no texto “O que é economia?”, o dinheiro é um recurso escasso, ou seja, as companhias não têm todo o dinheiro disponível para realizar a expansão do parque fabril ou a contratação de novos colaboradores, por exemplo. 

Diante desse cenário, as empresas possuem algumas formas de se financiar. Ou seja, as companhias podem adquirir empréstimos junto às instituições financeiras ou no mercado de capitais (debêntures, por exemplo).

Além disso, também podem usar parte dos seus lucros para tal objetivo (que é o foco deste texto), além de vender parte da companhia para investidores, que pode ocorrer via bolsa de valores ou não. 

Cada modalidade de financiamento possui suas vantagens e desvantagens, mas os detalhes sobre os pontos positivos e negativos para as modalidades de financiamento ficam para um próximo texto

Lucro: qual o seu destino?

Como foi discutido no tópico anterior, a maioria das empresas (senão todas) buscam investimentos ou financiamento, geralmente, com o foco na expansão.

E o processo de expansão das empresas, bem como o objetivo de qualquer empresa independentemente do tamanho, é o lucro. Ou seja, o objetivo das empresas é prestar serviços ou comercializar produtos, e tudo é feito com o objetivo de possuir despesas em um nível menor que as receitas para se alcançar um saldo positivo. 

Nesse sentido, a companhia, dado o seu resultado positivo (lucro), tem em mãos alguns caminhos para destinar esse recurso. O lucro pode ser destinado aos investidores, que são os dividendos, mas também podem ser destinados ao reinvestimento na companhia, que é o ponto central deste texto, ou ainda para a reserva de lucros

Quando as empresas fazem reinvestimento, geralmente isso é destinado para aquisições ou para a compra de máquinas e equipamentos relacionados à operação da companhia.

Tal reinvestimento tem impacto no lucro potencial da companhia. Ou seja, a empresa investe em melhorias/ampliação das atividades e, consequentemente, isso impacta na possibilidade de um lucro maior no futuro. 

O que é a taxa de reinvestimento? 

Conforme supracitado, os lucros das empresas podem ser destinados ao reinvestimento: a organização canaliza o lucro para projetos de expansão da companhia ou investimento em novas pesquisas, por exemplo.

Enfim, para qual finalidade o lucro reinvestido será destinado vai variar de empresa para empresa porque são levados em consideração diversos aspectos relacionados ao plano de negócio

De forma simplificada, a taxa de reinvestimento pode ser entendida como sendo a parcela do lucro líquido que não foi destinada aos acionistas na forma de dividendos. Logo, foi redirecionada para a própria organização. 

Entretanto, mesmo essa parcela do lucro não distribuída na forma de dividendos pode ser destinada para diferentes caminhos, como por exemplo a reserva de lucro. 

Diante desse cenário, a taxa de reinvestimento se apresenta como sendo um ponto importantíssimo no processo de avaliação de uma empresa. É importante lembrar que as instalações físicas das empresas (máquinas, equipamentos etc.) sofrem depreciação. Sendo assim, há a necessidade de repor esse capital depreciado. 

Entretanto, caso o nível de reinvestimento em máquinas e equipamentos, ativos físicos no geral (CAPEX), ocorra em um nível menor do que o da depreciação, isso implica em um impacto insustentável na geração do fluxo de caixa da companhia ao longo dos anos, dado que o investimento líquido será negativo, ou seja, o investimento em CAPEX ocorre em um nível menor do que a depreciação. 

Além da questão do reinvestimento em ativos físicos, outro ponto importante a ser destacado é sobre a necessidade de capital de giro.  O lucro não distribuído na forma de dividendos também pode ser utilizado para o capital de giro da companhia, ou seja, o recurso é utilizado para manter o bom funcionamento das atividades operacionais. 

É importante destacar também que é uma característica mais marcante um maior nível de reinvestimento dos lucros nas empresas em fase de crescimento. Por outro lado, empresas mais maduras, geralmente, possuem uma menor taxa de reinvestimento e uma maior parcela de distribuição de dividendos

Ainda é importante destacar que o setor no qual a empresa está inserida também é uma variável que afeta para uma maior ou menor taxa de reinvestimento ou de distribuição de dividendos.

Empresas inseridas em setores com muita competitividade, por exemplo, exigem uma maior taxa de reinvestimento. Entretanto, empresas situadas em setores com um menor nível de concorrência, tendem a elevar a distribuição de dividendos. 

Taxa de reinvestimento e o crescimento do lucro operacional 

Nesse sentido, a taxa de crescimento do lucro operacional (EBIT) é função da taxa de reinvestimento e da rentabilidade. Ou seja, o crescimento ocorre por meio de um volume maior destinado aos ativos físicos ou capital de giro, ou melhorando a margem e obtendo um retorno maior sobre o capital investido. Logo, a empresa possui estas situações para aumenta o crescimento do lucro operacional:

  1. Mantém o nível de investimento líquido e melhora o retorno via margem o ou giro;
  2.  Mantém o nível de retorno e aumenta o nível de investimento líquido;
  3. Aumenta o investimento líquido e melhora o retorno (margem ou giro). 

Como calcular a taxa de reinvestimento? 

Bem, para chegar na taxa de reinvestimento, precisamos dar um passo atrás.

Dado que o lucro líquido pode ser destinado ao reinvestimento e aos sócios (dividendos), precisamos saber primeiramente qual a parcela do lucro destinada aos sócios. Essa parcela destinada aos sócios é denominada de payout. E o cálculo do payout é dado por:

 

Logo, a razão entre o valor distribuído na forma de dividendos pelo lucro líquido resulta no payout.

Encontrado o payout, temos que a taxa de reinvestimento é:

Taxa de Reinvestimento=1-payout

Portanto, a taxa de reinvestimento é resultado da subtração de 1 menos o payout. Vamos a um exemplo prático?

Entendido o cálculo da taxa de reinvestimento e do payout, agora é possível calcular a taxa de crescimento apresentada no tópico anterior. Ou seja, a taxa de crescimento é função da taxa de reinvestimento e do retorno. Logo, temos: 

taxa de crescimento

Taxa de reinvestimento e payout na prática

O TC Matrix é a ferramenta de análise fundamentalista do TC. Lá há diversos índices macro, além de diversas informações sobre as empresas listadas na B3.

Dentre as informações que são disponibilizadas no Matrix, está o payout. Para este exemplo prático, vamos utilizar duas empresas, uma presente no índice de small cap e uma companhia de um setor perene e com alta previsibilidade de receita, que são elas: Trisul (TRIS3) e Engie (EGIE3). 

Ah, lembrando que essas empresas foram escolhidas apenas para fins de exemplo. Não constituindo, dessa forma, nenhuma recomendação de investimento. 

O caso da Trisul (TRIS3)

A Trisul é uma companhia do setor da construção civil focada na construção de empreendimentos de médio e alto padrão. 

Fonte: TC Matrix

Quando observamos o histórico do payout da Trisul, é possível observar que fica em torno da janela entre os 10% e os 25% ao longo dos anos.

Nesse sentido, vamos utilizar os dados dos últimos três anos para chegarmos a taxa de reinvestimento. 

Payout – Trisul 
201820192020
22,19%22,03%22%

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do TC Matrix. 

De posse do payout dos últimos três anos da Trisul, conseguimos calcular a taxa de reinvestimento da companhia para esses mesmos três anos. 

  • Taxa de Reinvestimento2018=1-0,2219=0,7781=77,81%
  • Taxa de Reinvestimento2019=1-0,2203=0,7797=77,97%
  • Taxa de Reinvestimento2020=1-0,22=0,78=78%

Como é possível observar, a Trisul (TRIS3) apresenta uma taxa de reinvestimento relativamente elevada. Dentre a série de fatores que corroboram para isso, há as questões relacionadas ao setor onde a companhia está inserida, que é um setor cíclico. Além de questões relacionadas à própria necessidade e perspectiva da companhia de expansão acelerada e sustentável

O caso da Engie (EGIE3)

A Engie (EGIE3) é uma companhia do setor elétrico e foca principalmente na geração e comercialização de energia.

Dadas as características do setor, que se configura como sendo perene e com uma boa previsibilidade de receitas, como vamos observar abaixo, a Engie possui um maior nível de distribuição de dividendo quando comparada a Trisul, por exemplo. Implicando, dessa forma, em uma menor taxa de reinvestimento

Fonte: TC Matrix

A partir do gráfico, podemos observar que, com exceção aos anos de 2014 e 2018, o payout da companhia ficou entre os 40% e os 80%, com destaque para o ano de 2019, onde o payout foi de 95,07%. 

Da mesma forma que foi realizado com a Trisul, vamos utilizar as informações dos últimos três anos da Engie para calcularmos a taxa de reinvestimento para os respectivos anos. 

Payout – Engie
201820192020
20,46%95,07%72,1%

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do TC Matrix. 

Partimos então para a taxa de reinvestimento da Engie para os respectivos anos. 

  • Taxa de Reinvestimento2018=1-0,2046=0,7954=79,54%
  • Taxa de Reinvestimento2019=1-0,9507=0,0493=4,93%
  • Taxa de Reinvestimento2020=1-0,721=0,279=27,9%

A taxa de reinvestimento da Engie se situa em uma faixa menor quando comparada à Trisul.

Com exceção ao ano de 2018, onde a taxa de reinvestimento foi de 79,54%, nos demais anos houve uma taxa de reinvestimento muito inferior comparativamente. Chamando atenção o ano de 2019, onde a taxa de reinvestimento foi de 4,93%. 

Taxa de Crescimento Sustentável 

De posse das informações sobre a taxa de reinvestimento, podemos partir para uma análise da taxa de crescimento sustentável das empresas usadas como exemplo.

Vale lembrar que há algumas taxas de crescimento que diferem uma das outras em relação às premissas.

A taxa de crescimento sustentável é a taxa máxima de crescimento que a companhia consegue sem a ocorrência de novos aportes dos acionistas ao passo que mantém um índice de dívida/capital próprio constante. 

ROE
Empresa201820192020
Engie35,2%34,7%38%
Trisul13,4%17,8%15,9%

Fonte: Elaboração própria com dados do Economática

Aplicando a fórmula descrita anteriormente, temos:

Taxa de Crescimento Sustentável
Empresa201820192020
Engie38,89%1,74%11,86%
Trisul11,64%16,12%14,16%

Fonte: Elaboração própria com dados do Economática e TC Matrix. 

Analisando a taxa de crescimento sustentável, é possível observar que a Engie apresentou uma variação maior ao longo do período analisado quando comparada com a Trisul. Para fins de análise, se observarmos o ano de 2020, a taxa de crescimento sustentável da Engie e da Trisul ficaram próximas. 

Esse fato decorre porque mesmo a Engie apresentando uma menor taxa de reinvestimento, a companhia possui ROE maior quando comparado a Trisul.  

A taxa de reinvestimento à luz da ciência 

Ao longo deste texto discorremos sobre o que é, como é calculada e alguns exemplos práticos da taxa de reinvestimento. Entretanto, é importante também entender como ocorre o debate em torno da taxa de reinvestimento no contexto das pesquisas científicas. 

Martins et al. (2009) investigaram a relação entre o reinvestimento e a rentabilidade na agregação de valor às empresas. O problema da pesquisa consistiu em analisar se as empresas do setor bancário brasileiro caracterizadas por uma política de reinvestimento maior, agregando mais valor na perpetuidade, é mais rentável do que uma empresa que foca na distribuição de dividendos.

Dentre os resultados da pesquisa, chama atenção o fato de que as taxas de reinvestimentos dos dois bancos analisados no artigo possuírem uma forte correlação com as taxas de rentabilidade de cada um.

Reflexão para os investidores

Neste texto foi apresentado o conceito, bem como alguns exemplos sobre a taxa de reinvestimento. Portanto, a taxa de reinvestimento é mais um fator que pode ser utilizado na análise de empresas com o objetivo de embasar as decisões de investimento em renda variável.  

Referências

Assaf Neto, A. (2015). Estrutura e Análise de Balanços: um enfoque econômico-financeiro. (10a ed). São Paulo, SP: Editora Atlas.

Martins, O. S., Ferreira Dantas, R., Carlos Campos Rezende, I., & Do Monte, P. A. (2010). Uma Investigação Sobre a Relação entre Reinvestimento e Rentabilidade na Agregação de Valor Às Empresas: Um Estudo Comparativo no Setor Bancário Brasileiro (An Investigation About the Relationship between Reinvestment and Profitability in the Aggregation of Value to the Companies: A Comparative Study with Two Brazilian Banks). Journal of Accounting Information (Revista de Informação Contábil), Forthcoming.

POVOA, Alexandre. Valuation. Elsevier Brasil, 2012.

ROSS, Stephen A. et al. Administração financeira. AMGH Editora, 2015.

Vitor Marques

Estagiário do TC Matrix. Graduando em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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