TC School / Contabilidade financeira

Goodwill: A contabilidade do ágio

22/04/2021 às 16:30

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Como investidores, nos deparamos bastante com a seguinte pergunta: “Quanto essa ação vale?”, ou com a expressão: “Essa ação está barata (ou cara) demais!”. Muitas vezes, há uma enorme dificuldade de encontrar o valor determinado de um ativo, pois, além da complexidade, encontrar o valor de algo pode levar em consideração diversas premissas muito pessoais, difíceis de se colocar no papel.

Dessa forma, eu posso atribuir um valor X para algo, enquanto você pode atribuir um valor X/2, de maneira que seja refletida em diferentes preços. Logo, o objetivo do artigo a seguir é demonstrar como esse conceito de valor é interpretado pela linguagem da contabilidade, através da mensuração e reconhecimento nas demonstrações financeiras das companhias, expondo exemplos práticos sobre o assunto.

Para guiar melhor o leitor, dividimos o texto nos seguintes tópicos:

  • O que é Ágio – Expectativa de Rentabilidade Futura
  • Contabilização do Goodwill
  • Despesas com Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)
  • Exemplo Prático de Impairment: Cogna
  • Outros Tipos de Ágio e Deságio

Boa Leitura!

O que é Ágio

Expectativa de Rentabilidade Futura

O cenário competitivo é composto por diferentes empresas com suas determinadas especialidades, as quais formam suas principais vantagens competitivas e diferenças entre suas competidoras, refletindo em diferentes níveis de market share, rentabilidade, lucratividade, etc.

Dessa forma, os valores dessas empresas estão não apenas nos ativos operacionais, mas nos seus ativos intangíveis (know-how, marcas, processos, capital intelectual, etc.), os quais refletem num fluxo de caixa futuro ou numa margem maior.

Nesse sentido, o goodwill (ágio) é a forma que a contabilidade encontrou de identificar o valor desse ativo não material, no balanço patrimonial dessas companhias. A seguir, falaremos como o goodwill é contabilizado no balanço e suas principais características.

Contabilização do Goodwill

A contabilização do Goodwill (ou ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura) se dá na aquisição de investimentos em coligadas ou controladas (combinação de negócios), não podendo ser reconhecido no ativo da companhia, quando gerado internamente.

Dessa forma, a mensuração do ágio se torna mais fácil, pois, presume-se que o preço pago por um ativo, acima do seu valor contábil, seja o preço que justifique a expectativa de rentabilidade futura a qual o ativo proporcionará.

Um ativo gerado internamente é aquele desenvolvido através de pesquisas dentro da companhia. A justificativa do goodwill gerado internamente não ser reconhecido no ativo deve-se ao fato de não ser um recurso identificável ou separável controlado pela entidade, além de não poder ser mensurado com segurança.

Ágio fundamentado em rentabilidade futura

Nesse sentido, o ágio fundamentado em rentabilidade futura deve ser incluído no valor contábil do investimento, no balanço patrimonial da investidora, numa subconta de Investimentos – goodwill.

Vale ressaltar que o ágio não pode ser amortizado – como era antigamente, mas deve passar por um processo de impairment (trataremos a seguir, com exemplo da empresa Cogna), caso seja comprovado que a expectativa futura que se tinha do ativo não existe mais.

Além disso, o goodwill pode ser baixado quando da perda do controle ou influência, alienação parcial ou total do investimento, pela investidora.

A amortização do ativo intangível só acontece quando há vida útil definida. Ou seja, ele tem um dia já sabido de que seus benefícios cessarão. Por exemplo, um contrato de concessão de uso de imagem com data pré-estabelecida.

Nesse caso, a amortização acontecerá de forma sistemática. Tal processo pode cessar em três casos:

  1. Data em que o ativo é classificado como mantido para venda;
  2. Data que o ativo é incluído em grupo de ativos classificados para venda; e
  3. Data em que o ativo for baixado.

Por outro lado, na visão da investida, tal ágio deve ser reconhecido na conta do Patrimônio Líquido, Reserva de Capital – como veremos mais adiante, na subconta de “Ágio na Emissão de Novas Ações”.

Despesas com Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)

Vale lembrar que muitas companhias possuem intrinsecamente um gasto muito elevado com pesquisa e desenvolvimento. Em algumas organizações do setor farmacêutico, por exemplo, muito capital é alocado no desenvolvimento e pesquisa de novos medicamentos potencialmente revolucionários, os quais podem deter grande parcela da indústria, convertendo essas despesas atuais em futuros fluxos de caixa.

Porém, apesar de ter a expectativa de rentabilidade futura no momento de se investir em pesquisa, desenvolvimento e até marketing, não há confiabilidade de que esses gastos irão gerar retornos futuros.

No CPC 04 – Ativos Intangíveis, diz quando um gasto pode ser “ativado”:

“21.Um ativo intangível deve ser reconhecido apenas se:

(a) for provável que os benefícios econômicos futuros esperados atribuíveis ao ativo serão gerados em favor da entidade; e

(b) o custo do ativo possa ser mensurado com confiabilidade.”

Reforçando aqui que a “ativação” dos gastos com P&D só podem ser reconhecidos como ativo intangível, no caso da Combinação de Negócios, quando o ativo corresponder às definições de ativo e for identificável.

Processo de Aquisições e Fusões

Exemplo prático:

Um dos exemplos mais comuns no dia a dia do mercado financeiro é o processo de aquisições e fusões (M&A). Ou seja, uma empresa adquirindo (ou se fundindo à) outra, a fim de expandir seus negócios inorganicamente, e consequentemente, aumentando seu valor.

E muito provavelmente, você já deve ter escutado o termo sinergia. De modo resumido, a sinergia é quando a soma de R$ 1 + R$ 1 é diferente de R$ 2. Pode ser R$ 3, R$ 4, etc.. Por que? Algum dos fatores que podem gerar sinergia:

  • Redução de overhead;
  • Otimização e centralização das atividades operacionais;
  • Redução de custos financeiros;
  • Melhor capacidade de gestão de portfólio; e
  • Redução de custos com administração.

Nesse sentido, o goodwill pode ser representado pelo valor que você paga além do preço óbvio de R$ 2. A seguir, vamos citar o exemplo da Bemobi (BMOB3):

Figura 1: Nota Explicativa 9 – Ativo Intangível

Fonte: ITR da companhia 4T20.

Como podemos ver, o ágio da companhia representava 74,3% do saldo do Ativo Intangível. Se formos olhar o item (ii) da Nota Explicativa, tal ágio representa a expectativa de rentabilidade futura da aquisição da sua antiga controladora, Opera:

“ii) Ágio por expectativa de rentabilidade futura gerado em 2015, no processo de aquisição da Companhia pela sua antiga controladora, Opera, que foi incorporada pela Companhia em 31 de janeiro de 2018.”

Análise de Cogna

Exemplo prático de Impairment

Na norma atual do ativo intangível, não é permitido a amortização do seu valor contábil, apenas o impairment, quando se é provado a não existência daquela expectativa futura.

A principal crítica a respeito disso é que a empresa estaria amortizando sistematicamente como despesa, antes mesmo de obter os lucros daquele investimento, havendo assim, um descasamento contábil.

O processo de impairment nada mais é do que uma reversão da expectativa de rentabilidade futura, ou seja, quando se é comprovado com um bom grau de certeza, que aquela expectativa de rentabilidade futura, a qual era ativada no balanço, não existe mais, é necessário fazer uma reversão. Tal reversão é feita a partir de um lançamento contábil simples:

  • D – Despesa de Impairment
  • C – Investimentos (Goodwill)

Demonstração de Resultados da Cogna – 4T2020

A seguir, podemos observar a Demonstração de Resultados da Cogna no 4T2020, a qual reconheceu uma perda por redução de valor recuperável dos ativos (impairment) de R$ 2.050,4 milhões, apenas nas operações continuadas, derivada do seu investimento na Kroton e mais R$ 2.075,7 milhões como impairment no investimento da Saber, em operações descontinuadas da DRE.

Figura 2: Reconhecimento da Despesa por Impairment

Fonte: Cogna RI 4T20

Nesse sentido, vale ressaltar que o que passa pelo Resultado da companhia segue o regime de competência, assim, tais perdas com impairment não são caixa, ou seja, não representam uma saída financeira da companhia.

No entanto, vale ressaltar que a única diferença entre o regime de caixa e o regime de competência é a diferença temporal. Nesse sentido, a empresa está reconhecendo agora, uma possível saída de caixa futura!

Tipos de Ágio e Deságio

Ágio na Emissão de Novas Ações

Em alguns casos, é comum surgir diferenças entre o preço pago pelo investimento e o valor da cota patrimonial.

Imaginemos uma companhia aberta por dois sócios em 2010, a qual tinha R$100.000 de capital social (capital subscrito pelos sócios) e gerava R$100.000 de fluxo de caixa livre (o valor é apenas para fins de representação). 10 anos depois, em 2020, mais um amigo da dupla decide investir no negócio com ⅓ nas participações dos lucros, aumentando o capital social para R$150.000.

Porém, em 2020, a companhia já gerava R$1.000.000 de fluxo de caixa livre. Não seria lógico o novo sócio investir R$50.000 e obter R$333.333,33 de retorno logo no primeiro ano. Ele deve integralizar um capital compatível com o valor justo da participação da empresa!

Dessa forma, digamos que a ação patrimonial é dividida em 100.000 ações de R$1 cada. Para a companhia, o valor do capital investido pelo novo sócio de R$333.333 irão tanto para o Capital Social quanto para a Reserva de Capital.

Por outro lado, na visão do novo sócio (admitindo que ele é uma empresa), no seu Balanço Patrimonial constará uma conta Investimentos, registrada pelo custo do investimento – ou seja, os R$333.333.

Entretanto, como a empresa não possui todo esse capital no capital social da empresa investida, o novo sócio deve decompor a conta Investimentos em até 3 subgrupos:

  1. Um com o valor patrimonial da participação, os R$50.000;
  2. A mais-valia; e
  3. Goodwill – ou Ágio! Lembremos aqui que quem recebe o ágio é a investida. Essa divisão de contas na investidora é apenas para fins de controle interno.

Vejamos o exemplo a seguir, a evolução do Patrimônio Líquido da Investida:

Figura 3: Alteração do Patrimônio Líquido na subscrição de ações

Fonte: Elaborado pelo autor. Baseado no Manual de Contabilidade Societária.

Com a subscrição do novo capital por R$333.333 (R$ 6,66/ ação = R$333.333/50.000 ações), o Patrimônio Líquido da investida aumenta em R$333.333, R$ 50.000 de capital social e R$ 283.333 para a Reserva de Capital, numa subconta chamada Ágio na Emissão de Ações.

Tal ágio é derivado da diferença entre o preço de aquisição e o valor nominal das ações.

Mercado de Títulos Públicos

No mercado de títulos públicos, a precificação do ágio/deságio é mais simples, haja visto que o investidor já sabe, mais ou menos, desde a hora da compra do título, seu rendimento – ou, sua “rentabilidade futura”.

Isso porque existem títulos que são pré-fixados, como as LTNs e títulos que são indexados a taxas, como o caso das LFTs. Neste último caso, não sabemos exatamente o quanto de rentabilidade teremos ao final do vencimento, mas sabemos a qual taxa estaremos expostos – nesse caso, a taxa Selic.

Como exemplo prático do cotidiano, vale a leitura da notícia publicada no Mover acerca dos efeitos da pandemia sobre piora das projeções dos bancos para déficit e varejo.

Quando um título público é “lançado” ao mercado (sua data base), ele negocia a 0% de ágio ou deságio, ou seja, ele está no seu valor “par” (par value).

No entanto, a partir da data que ele é negociado em mercado, a demanda e a oferta por esses títulos podem alterar, fazendo com que vendedores exigem um valor acima do par value (ágio), ou com que os compradores exigem um “desconto” (deságio) para comprá-los, como foi o caso de outubro de 2020, o qual o deságio das LFTs chegaram a quase 0,5% – ou seja, os compradores estavam “pedindo” 0,5% + Selic pelo título.

Se formos ao site do Tesouro Direto, podemos consultar o deságio que o título está negociando. No caso abaixo, podemos ver que o título negocia a um deságio de 0,2093% (13/04/2021). Porém, para encontrarmos seu Preço, devemos ajustar as taxas pelos dias úteis através da fórmula “=DIATRABALHOTOTAL()” no Excel® e consultando os feriados bancários pelo site da ANBIMA.

Figura 4: Preços de Títulos Públicos

Fonte: Tesouro Direto

Para encontrarmos a Cotação (%), seguimos essa fórmula, disponibilizada pelo site do Tesouro Direto:

Dessa forma, encontramos a taxa de: 99,2964%. Consultando o Valor Nominal Atualizado (Preço unitário par) do título pelo site da Anbima, encontramos 10.820,827266. Assim, podemos calcular o VNA Projetado e o Preço do título com deságio, assim:

VNA projetado = VNA em 13/04/2021 x 1 (1 + Taxa Selic Meta)^(du/252)

Dessa forma, podemos ver que a LFT está sendo negociada a um deságio de R$ 83,43 (VNA projetado menos o preço calculado). Tal processo é bem detalhado pelo documento disponibilizado pelo Tesouro Direito.

TC School no Youtube

A gente comunica com clareza para motivar a confiança de vocês! Olha só este vídeo interessante sobre o o Modelo CAPM de Precificação de Ativos:

Para se aprofundar nos estudos sobre o mercado de ações, navegue pelo site e aprenda, por exemplo, “A natureza das contas e os conceitos básicos de contabilidade“.

Referências

COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS – PRONUNCIAMENTO TÉCNICO CPC 04 Ativo Intangível. Disponível em www.cpc.org.br.

COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS – PRONUNCIAMENTO TÉCNICO CPC 15 Combinação de Negócios. Disponível em www.cpc.org.br.

COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS – PRONUNCIAMENTO TÉCNICO CPC 18 – Investimento em Coligada, em Controlada e em Empreendimento Controlado em Conjunto. Disponível em www.cpc.org.br.

GELBCKE, Ernesto Rubens. Et al. Manual de Contabilidade Societária: Aplicável a Todas as Sociedade de Acordo com as Normas Internacionais e do CPC. 3º. Ed. São Paulo: Atlas, 2018.

Tesouro Direito. Precificação das Letras Financeiras do Tesouro. Disponível em: <https://www.tesourodireto.com.br/data/files/91/60/D8/C9/73B2D610393A62D6894D49A8/Calculo_Rentabilidade_TesouroSelic.pdf>. Acesso em: 13/04/2021.

Daniel Santos
Daniel Santos
Estagiário do TradersClub
Graduando em Ciências Contábeis pela UFRN. Ex-membro da Liga de Finanças e vencedor do 1º Campeonato de Análise Fundamentalista do TC.

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