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A contabilização das aplicações financeiras

29/04/2021 às 15:28

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Uma gestão bem feita da liquidez de uma empresa é crucial para manter o capital de giro necessário para suas atividades operacionais de forma a melhor rentabilizar o capital investido. Para isso, os gestores devem equilibrar dois pilares principais, de tal forma que a empresa não seja prejudicada, escolhendo entre liquidez e rentabilidade – não podendo maximizar ambas.

Nesse sentido, para minimizar o efeito do caixa parado, assim, destruindo seu valor no tempo, uma alternativa que as empresas encontram é a de investir em ativos financeiros de alta liquidez, os quais rendem, pelo menos, o DI diário. Assim, o objetivo do texto de hoje é mostrar como as empresas fazem a contabilização desses ativos financeiros e o impacto que eles podem causar nos resultados da companhia.

Para facilitar a leitura, separamos o texto nos seguintes tópicos:

  • As aplicações financeiras
  • O tratamento contábil segundo o CPC 48
  • Casos práticos – Analisando a Via Varejo (VVAR3)
  • Rentabilidade x Liquidez

Boa leitura!

As aplicações financeiras

Hoje, falaremos sobre o tratamento contábil dos instrumentos financeiros e suas classificações. Haja visto a extensão desse assunto (CPC 48). Portanto, nosso foco nesse texto serão as aplicações financeiras, ou seja, um capital líquido, de curto prazo, que são prontamente conversíveis em dinheiro, os quais seus rendimentos não são considerados como receita operacional, mas receita financeira.

Apesar desses rendimentos não serem extraordinários, a empresa busca diminuir o impacto que o custo do dinheiro tem no tempo, através desses instrumentos. Assim, tais aplicações financeiras representam os excessos de disponibilidades das empresas, ou seja, dinheiro que ela não está precisando no curto prazo.

Alguns exemplos de aplicações financeiras são:

  • Títulos do Tesouro Nacional (LFT, LTN, NTN-B);
  • Certificado de depósito bancário (CDB);
  • Notas promissórias;
  • Debêntures; e
  • Fundos de investimentos.

O tratamento contábil segundo o CPC 48

Segundo o CPC 48, os instrumentos financeiros são reconhecidos no balanço patrimonial das companhias mediante a avaliação de dois pontos primordiais:

  1. O modelo de negócios da entidade; e
  2. As características contratuais dos fluxos de caixa desse ativo financeiro adquirido.

Nesse sentido, tais ativos podem ser reconhecidos como custo amortizado, valor justo no resultado ou valor justo no patrimônio líquido. Veremos em detalhes cada um deles:

Custo amortizado

Reconhecidos inicialmente pelo custo e atualizados por apropriações de juros e variações monetárias, ajustados ao valor de realização, se este for inferior. Em sua maioria, os ativos financeiros mensurados pelo custo amortizados são aqueles que possuem uma data de vencimento, haja vista que são amortizados por uma taxa específica, como exemplo temos os títulos públicos, as debêntures, entre outros.

Como o objetivo desses ativos é de manter na carteira da companhia, a fim de receber o pagamento do principal e de juros, apenas é reconhecida sua receita de juros no Resultado. No caso em que o ativo seja liquidado com uma perda, deve ser reconhecida uma despesa de impairment, pois os mesmos estão sujeitos a teste de recuperabilidade.

Sua contabilização será da seguinte forma:

D – Aplicações Financeiras (Ativo)

C – Receita Financeira (DRE)

Simples assim! Conforme a receita referente aos juros do título entrar no caixa, é reconhecido no Resultado o mesmo valor. Tal aplicação financeira não é reconhecida a valor justo, pois a relevância dessa informação (do preço a mercado) é praticamente nenhuma para a empresa, haja visto que ela não espera negociar tal ativo.

Valor justo no resultado

Por outro lado, nos casos em que o valor justo dos ativos financeiros são facilmente observáveis, podem ou não ser mantidos para receber fluxo de caixa ou vendido e possuem a opção de vender a valor justo ao invés do custo, eliminando essa diferença contábil de mensuração, os ativos devem ser mensurados a valor justo, como por exemplo as ações negociadas em Bolsa de Valores e alguns títulos de renda fixa.

Nesse caso, os ativos devem ser mensurados a valor justo, com o reconhecimento da receita de juros (em caso de títulos de renda fixa) e marcação a mercado (MtM). O reconhecimento contábil ficaria assim:

D – Aplicações Financeiras (Ativo)

C – Receita Financeira (DRE)

D – Aplicações Financeiras (Ativo)

C – Marcação a Mercado (DRE)

Observe que no exemplo acima, está sendo considerado uma valorização do ativo financeiro, o qual resulta numa Receita na DRE, justificada pelo aumento da conta de Aplicações Financeiras.

Valor justo no patrimônio líquido

Outro caso de mensuração a valor justo, ocorre quando a empresa possui o ativo financeiro disponível para a venda, porém, não é seu objetivo vendê-lo. Nesse caso, ao invés de reconhecer a variação MtM do ativo no resultado, a companhia reconhece diretamente no Patrimônio Líquido, através de “Outros Resultados Abrangentes” (a empresa deve reconhecer no Resultado, apenas na liquidação final do ativo).

D – Aplicações Financeiras (Ativo)

C – Marcação a Mercado (PL)

Esses três grupos de ativos eram antes chamados de “mantido até o vencimento”, “mantido para negociação” e “disponível para venda”, respectivamente. Porém, atualmente, a classificação do ativo financeiro deixa de ser uma mera “escolha” feita pela empresa e passou a ser um modelo de classificação baseado não apenas nas características da entidade mas nas características do contrato em si.

Casos práticos

A seguir, podemos ver as aplicações financeiras da Via Varejo, reconhecidas na conta de “Caixa e Equivalentes de Caixa” no Ativo Circulante e a política contábil que a empresa utiliza de reconhecimento.

Fonte: RI da Via Varejo

Fonte: RI da Via Varejo

Como podemos observar, a Via Varejo (VVAR3) possui aplicações financeiras de alta liquidez, que apesar de render pouco, minimizam a perda de valor se o dinheiro estivesse “parado” em caixa.

Rentabilidade x Liquidez

Assim, ter bastante Caixa não necessariamente implica ser uma boa empresa para se investir, pois as empresas devem sempre optar por uma liquidez maior e consequentemente, numa rentabilidade menor, ou vice-versa (PIMENTEL, 2005), haja visto que a rentabilidade advém do investimento desse capital, em operações da empresa. Uma empresa que possui um resultado financeiro igual, ou até às vezes, superior do que o resultado operacional, deve ser analisada.

Referências

COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS – PRONUNCIAMENTO TÉCNICO CPC 48 Instrumentos Financeiros. Disponível em www.cpc.org.br.

PIMENTEL, Renê; BRAGA, Roberto; CASA NOVA, Silvia. Interação entre Rentabilidade e Liquidez: Um Estudo Exploratório. 2005.

Daniel Santos
Daniel Santos
Estagiário do TradersClub
Graduando em Ciências Contábeis pela UFRN. Ex-membro da Liga de Finanças e vencedor do 1º Campeonato de Análise Fundamentalista do TC.

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