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Relatórios contábeis e o ciclo de vida das empresas

10/02/2021 às 17:00

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Olá investidor, tudo certo? Hoje vamos falar de ciclo de vida. Não da vida humana ou de algum animal, mas sim do ciclo de vida das empresas. Você sabia que as organizações têm distintas fases ao longo da sua história?

O tema é discutido há décadas, e para enriquecer a discussão, abaixo elencamos alguns pontos sobre a qualidade dos relatórios contábeis de acordo com o estágio do ciclo de vida destas. O texto está dividido nos seguintes tópicos:

  • Ciclo de Vida Organizacional (CVO)
  • CVO: qual a importância?
  • Ciclo de Vida Organizacional à luz da ciência
  • A qualidade dos relatórios contábeis
  • Resultados interessantes
  • Conclusão da pesquisa

Boa leitura!

Ciclo de Vida Organizacional (CVO)

Como qualquer animal (humano ou não!), as empresas nascem, crescem, ficam maduras, passam por fases “turbulentas” e declinam. Na vida humana, esse ciclo é mais ou menos previsível, principalmente pelo avançar da idade, existindo uma certa “ordem” nesses ciclos.

Entretanto, nas empresas essas etapas não são necessariamente lineares, visto que uma empresa pode passar, por exemplo, da introdução ao declínio sem passar pelas outras fases, bem como pode sair da turbulência para a introdução/nascimento.

Fonte: PerformLaw.

CVO: qual a importância?

“Mas qual a importância de saber o ciclo de vida da empresa?”, alguém pode perguntar. Ora, é importante por uma série de motivos. Por exemplo, se você é investidor, é importante conhecer em qual fase do ciclo de vida a empresa na qual investe na Bolsa de Valores encontra-se. Afinal, a depender da fase do ciclo, ela terá necessidades diferentes, velocidades de crescimento diferentes, e você pode estimar com maior facilidade onde ela poderá chegar em termos de receitas, lucros, etc.

Se você é um consultor contratado por uma empresa para solucionar algum problema que ela apresenta, conhecer a fase do ciclo de vida é importante para saber qual o melhor “remédio” aplicar para sanar o problema que acomete a organização.

Empresas na fase inicial demandarão um determinado remédio, enquanto que empresas em declínio deverão tomar outro. Suas necessidades de caixa e investimentos são diferentes, seu perfil de endividamento também. Enfim, são bichos distintos, e conhecer em qual fase ela se encontra te ajuda a encontrar o tratamento certo.

Ciclo de Vida Organizacional à luz da ciência

Estudos sobre ciclo de vida, como dito, não são recentes. Temos pesquisas sólidas datando da década de 1980. Entretanto, acreditamos que a forma mais simples e direta de definir o ciclo de vida de uma empresa foi proposta por Dickinson, apenas em 2011, que identifica a fase do ciclo de vida da empresa pelos sinais dos seus fluxos de caixa. Em suma, essa identificação segue o quadro abaixo, que retirei da tese do professor Felipe Pontes:

Esses diferentes estágios do ciclo de vida das empresas são induzidos por fatores internos (como escolhas estratégicas, recursos e capacidade gerencial) e externos (como ambiente competitivo e fatores macroeconômicos). Portanto, uma série de fatores definem qual a fase do ciclo de vida a empresa se encontra, e não é objetivo, aqui, discutir esses determinantes. Para isso, sugiro a leitura do artigo da Dickinson (2011).

Relatórios contábeis

Dessa forma, já sabemos que a fase do ciclo de vida é importante, que muitos fatores determinam em qual fase do ciclo a empresa se acha, que a fase do ciclo é útil para melhor compreensão de diversas métricas contábeis e financeiras da empresa. Agora, qual a relação disso com a qualidade dos relatórios contábeis da firma?

Será que a qualidade desses relatórios varia de acordo com a fase do estágio de ciclo de vida da empresa? E este foi exatamente esse o questionamento que levou Krishnan, Myllymäk e Nagar (2020) a publicarem um paper no Journal of Business Finance & Accounting recentemente.

A qualidade dos relatórios contábeis

Analisando uma grande amostra de empresas dos EUA, os principais e mais interessantes achados dos autores foram que a qualidade do relatório contábil é inferior para empresas nos estágios de introdução, crescimento e declínio em relação às empresas maduras.

A discricionariedade gerencial para atrasar o reconhecimento de despesas pode ser mais provável em alguns estágios do ciclo de vida, oferecendo incentivos e oportunidades para uma contabilidade mais agressiva.

Nesse sentido, os autores reportaram que há um reconhecimento de despesas mais agressivo por empresas na fase de introdução, o que pode ser explicado pelo fato de que a baixa geração de caixa e a maior incerteza sobre os lucros futuros nessa fase do ciclo de vida induzem as empresas a atrasar o reconhecimento das despesas, subestimando a depreciação ou subdimensionando despesas com devedores duvidosos, por exemplo, o que impacta na qualidade do relatório reportado.

De acordo com a análise dos autores, o estágio de introdução parece ser o mais problemático, com evidências de probabilidade significativamente maior de fraquezas materiais nos controles internos sobre os relatórios financeiros, com maiores índices de incidências das distorções intencionais mais graves nesses reportes.

Isso ocorre no estágio inicial do ciclo de vida porque as empresas, muito provavelmente, carecem de recursos necessários para investir e manter fortes controles internos, e na tentativa de sobreviver no mercado, tem maiores motivações a se envolver em relatórios com agressivo gerenciamento de resultados (flertando até mesmo com a fraude).

Empresas em crescimento também apresentam significativamente mais probabilidade de distorções nos seus reportes financeiros, o que é, segundo os autores, resultado da crescente complexidade das empresas em crescimento, o que torna difícil manter controles internos eficazes.

Por sua vez, empresas no estágio de maturidade tem maior persistência de lucros, bem como os lucros têm alto valor preditivo sobre os fluxos de caixa futuros, o que evidencia uma maior qualidade dos relatórios financeiros (evidentemente que, aqui, não estou entrando no mérito se há ou não gerenciamento de resultados por empresas maduras).

As empresas na fase de declínio têm o incentivo para se envolver na manipulação de lucros para ocultar sua dificuldade financeira, o que foi confirmado pelos resultados dos autores, que indicaram que há uma probabilidade significativamente maior de reformulações nos relatórios contábeis dessas empresas do que comparadas, por exemplo, com empresas maduras.

Resultados interessantes

Vamos a mais alguns achados interessantes:

Fonte: Krishnan, Myllymäk e Nagar (2020)

Analisando o “matching” entre receitas e despesas, os autores identificaram que o coeficiente em EXPENSES t (despesas contemporâneas – 0,902) é significativo ao nível de 0,01. Além disso, EXPENSES em t-1 e EXPENSES em t+1 têm coeficientes não significantes (ambos 0,003), sugerindo que para empresas maduras, a qualidade do matching é muito alto. Ou seja, as despesas correntes estão fortemente associadas às receitas correntes, enquanto as despesas passadas e futuras não estão relacionadas às receitas atuais.

Fazendo interações das despesas correntes (EXPENSES t) com as fases do ciclo de vida (INTRO, GRO e DEC), respectivamente -0,418 (significativo no nível 0,01), -0,025 (significativo no nível 0,05) e -0,371 (significativo no nível 0,01), os resultados sugerem uma correspondência significativamente mais pobre de despesas e receitas correntes entre empresas de introdução, crescimento e declínio em comparação com as empresas maduras.

A principal conclusão dos resultados até agora é que a qualidade do matching é mais baixa nos estágios de introdução e declínio e mais alta durante o estágio de maturidade. Por fim, o coeficiente de EXPENSES t+1 × INTRO é de 0,052 (significativo no nível 0,01), indicando que as despesas futuras são mais informativas sobre as receitas correntes na fase de introdução em relação à maturidade. Isso sugere possível sub provisionamento de despesas correntes por empresas na fase de introdução.

Vamos a mais uma e última tabela!

Fonte: Krishnan, Myllymäk e Nagar (2020)

Aqui os autores também analisaram os controles internos das companhias da amostra. De maneira geral, os resultados na coluna 1 indicam que o coeficiente em INTRO é marginalmente significativamente positivo, sugerindo uma probabilidade um pouco maior de fraquezas do controle interno no estágio de introdução do que no estágio maduro. Os efeitos marginais indicam que a probabilidade de uma fraqueza nos controles internos aumenta em cerca de um ponto percentual quando a empresa está no estágio de introdução.

Uma vez que a avaliação do auditor é exigida apenas das empresas maiores (arquivadores acelerados), os autores também examinaram os controles internos avaliados pela própria administração das companhias, sendo que os resultados são relatados na coluna 2.

Em suma, indicam que os coeficientes de INTRO e GRO são positivos e estatisticamente significativos em 0,01 e 0,05, respectivamente, indicando que a probabilidade de uma fraqueza nos controles internos aumenta em cerca de 3,5 e 1,1 pontos percentuais quando a empresa está nos estágios de introdução e crescimento, respectivamente.

Essas descobertas implicam que as empresas no estágio de introdução muito provavelmente podem não ter recursos suficientes para construir sistemas de controle interno eficazes, e as empresas em crescimento têm dificuldade em manter controles internos adequados dada sua complexidade. No entanto, não há evidências de que as empresas no estágio de declínio tenham probabilidade significativamente maior ou menor de um controle interno fraco em relação às empresas maduras.

Já em termos de variáveis de controle na coluna (1), a probabilidade de uma fraqueza nos controles internos está negativamente relacionada ao tamanho da empresa (LN_MVE) e idade da empresa (LN_AGE) e positivamente relacionada ao número de segmentos de negócios (NSEG), operações estrangeiras (FCT) , M&A, crescimento de vendas (SALEGRW), perda (LOSS) e classificação de pontuação Z (RZSCORE).

Conclusão da pesquisa

Quanta coisa, não? E olha que só fiz um brevíssimo resumo do paper. Este ensaio já ficou grande. Em termos gerais, a conclusão da pesquisa é que a qualidade dos relatórios financeiros é a mais alta entre as empresas maduras, o que é devido a controles internos e governança corporativa mais eficazes e menor risco e incerteza sobre o futuro, quando comparadas com empresas em outros estágios do ciclo de vida. Isso resulta em uma menor probabilidade de distorções materiais graves em relatórios de empresas maduras.

Ou seja, há um padrão em forma de U invertido da qualidade dos relatórios financeiros das empresas analisadas, com uma qualidade inferior durante os estágios de introdução, crescimento e declínio, e superior na fase de maturidade.

Com isso, a fase do ciclo de vida em que a empresa se encontra é determinante para a qualidade da informação contábil reportada. Os autores fizeram muitas outras análises no paper. Acreditamos ser mais oportuno discutir em um outro artigo.

Referência

Krishnan, G. V., Myllymäki, E. R., & Nagar, N. (2020). Does financial reporting quality vary across firm life cycle?. Journal of Business Finance & Accounting.

André Sekunda
André Sekunda
Professor Universitário com Mestrado em Contabilidade
Contribui com textos educativos para o TC School.

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