TC School / Contabilidade financeira

CPC 46: Aprender a calcular o valor justo de uma empresa na B3

21/05/2020 às 16:52

TC School TC School

Você sabe o que é valor justo por meio do resultado? E mensurar o valor justo de um ativo na bolsa?

É um tema importante para quem está começando a investir em ações. Afinal, é a contabilidade da empresa em jogo, avaliando custo e valor para ajuste de preço alvo do ativo no longo prazo.

No texto a seguir você vai perceber que é fácil calcular e mensurar o valor justo. Vamos simplificar os conceitos técnicos para te ajudar a entender sobre a mensuração do valor justo das empresas.

Com exemplos práticos de valor justo na contabilidade, CPC 46 esquematizado e exercícios resolvidos, ao final do texto você será capaz de mensurar o valor justo de um ativo na bolsa.

Se liga nesse conteúdo que preparamos pra você!

  1. Mensuração dos elementos contábeis
  2. Custo x valor
  3. Pesquisas envolvendo o valor justo
  4. Exemplo prático
  5. Vantagens e desvantagens dessa forma de mensuração
  6. Reflexões para os investidores

Mensuração do valor justo

Elementos contábeis

Antes de tudo, você já parou para pensar como os valores que compõem os elementos das demonstrações financeiras (DFs) são mensurados pela contabilidade das empresas?

Todos os itens que fazem parte das DFs são mensurados, reconhecidos e divulgados de acordo com a normatização contábil vigente.

Estude e conheça, você vai ver que é simples!

Agora vamos fazer uma reflexão bem rápida sobre algumas formas de mensuração. Utilizaremos um exemplo prático de valor justo, a linha de estoques, no ativo da PETROBRAS.

contabilização valor justo

Fonte: DFP 2019

Olhando para o valor de R$ 33.009 no consolidado de 2019, posso questionar: Como interpreto este valor?

  • O estoque pode ser vendido ao preço de R$ 33.009?
  • Estes R$ 33.009 representam o preço para repor o estoque na data de fechamento do balanço?
  • R$ 33.009 é o custo de aquisição e de formação destes estoques?
  • R$ 33.009 é o valor presente dos custos futuros para repor o estoque na data do balanço…?

Viu como existem diferentes maneiras para mensurarmos qualquer ativo ou quaisquer outros elementos das DFs?

Para ter mais clareza você pode se aprofundar no assunto, como estudar a norma brasileira que instrui sobre a contabilização dos estoques, o CPC 16.

A CPC-16e m convergência às normas internacionais de contabilidade (IAS 2), determinam que as empresas mensurem e divulguem os estoques pelo custo de aquisição e de formação, ou seja, esta é a interpretação correta dos R$ 33.009.

O que queremos dizer com isso, é que, para analisarmos de forma correta a informação contábil, precisamos antes saber o que permeia e o que fundamenta esta informação.

E aí, gostou deste exemplo de valor justo na contabilidade?

Vamos continuar…

Valor justo na contabilidade

Custo x valor

Por muito tempo, o custo histórico (valor pago), foi a medida mais utilizada pela contabilidade para mensurar todos os elementos contábeis.

Para entender melhor, a realização de operações mais complexas, como por exemplo, o uso de derivativos, fez surgir novas preocupações quanto ao registro e a divulgação dos elementos contábeis (Coelho, Lins 2010).

Em outras palavras, o custo reflete o sacrifício para se obter determinado item, ao passo que o valor está relacionado com a expectativa de benefícios futuros.

Pessoas inteligentes, percebam isso – o custo histórico pode não representar de forma verdadeira e justa, a real situação a ser reportada (representação fidedigna).

Se liga no exemplo. Pense em um prédio adquirido para ganhos de capital (leia nosso texto sobre propriedades para investimento) há algumas décadas atrás, próximo ao centro de sua cidade natal.

Com as possíveis valorizações do mercado imobiliário, ocorridas com o tempo, o preço pago na data da compra, não nos diz muito sobre a realidade atual.

É aí que surge a figura do conceito de valor justo. Ficou mais fácil saber o que é valor justo?

O principal objetivo do valor justo é o de trazer os valores reconhecidos pela contabilidade para o mais próximo possível do valor de realização, seja através do uso pela empresa, ou pela sua venda no mercado.

Somos solucionadores, e para te ajudar a entender melhor, agora vamos falar das diferentes formas de mensuração do valor justo.

O custo também pode ser uma informação relevante para fins gerenciais da companhia, se esta quiser saber quanto se foi pago por determinado item.

Vale lembrar que para fins de utilização da informação contábil pelos investidores e credores (existentes e em potencial), a representação da realidade através do custo histórico pode ficar comprometida. É importante entender isso!

Afinal, qual o conceito de valor justo?

Após os exercícios de raciocínio acima, queremos esclarecer mais sobre o CPC-46, que define o valor justo como o preço que seria recebido pela venda de um ativo, ou pago pela transferência de um passivo, em uma transação não forçada, no mercado principal ou mais vantajoso.

Ficou mais fácil de entender?  Dá para observar que este conceito está intimamente ligado a concepção de valor, o qual representa as expectativas de benefícios futuros, diferentemente do custo, que nos remete ao valor pago.

Outra ligação entre os conceitos de valor justo e de ativo, de acordo com a estrutura conceitual da contabilidade (CPC 00), idealiza que os ativos são recursos econômicos que têm o potencial de produzir benefícios futuros. Quer dizer, é preciso pensar no potencial do negócio no longo prazo.

Mensuração do valor justo

Para mensurar o valor justo, é preciso diferentes pronunciamentos contábeis, podendo requerer que determinados itens das demonstrações sejam contabilizados.

Quer saber como acompanhar estas informações? Bem, a forma como as empresas mensuram seus elementos contábeis é divulgada em suas notas explicativas.

Formas de mensuração do valor justo

Agora para esclarecer. De uma forma bem simples e resumida, vejamos como as empresas mensuram o valor justo nos próximos parágrafos.

No Brasil, a norma que emana as diretrizes contábeis para a mensuração do valor justo é o CPC-46 (correlacionado a IFRS 13 – que é a norma internacional.

Assim, para mensurar o valor justo, seguindo a referida norma, as empresas devem seguir uma hierarquia. A hierarquia é composta pelos níveis de mensuração 1, 2 e 3, conforme CPC-46 esquematizado abaixo:

CPC 46 Esquematizado

Vamos entender como funciona esses níveis de mensuração logo abaixo deste esquema:

exercicio resolvido valor justo

Nível 1 – Informações diretamente observáveis

No nível 1 de mensuração, os preços estão cotados diretamente em mercados ativos. Ou seja, a empresa tem capacidade de os acessar imediatamente na data de mensuração.

Nível 2 – Indiretamente observáveis

Se não houver mercado ativo para o item em questão, a empresa deve estimar sua venda no mercado mais vantajoso, deduzindo-se os custos de transação existentes para que a operação hipotética ocorra.

Nível 3 – Estimativas da empresa

Enfim, no nível 3, quando não há mercado ativo para o item em questão, a empresa realiza a avaliação do ativo utilizando-se de técnicas de avaliação e informações que o próprio mercado utilizaria para avaliar um ativo semelhante.

Nesse sentido, o nível 3 reflete os pressupostos da própria administração. Aí você nos pergunta: – o valor justo melhora a qualidade da informação contábil divulgada?

Vejamos um resumo sobre o que aprendemos até aqui sobre o valor justo na contabilidade das empresas.

Algumas pesquisas científicas em contabilidade, mostram que a adoção do valor justo aumenta a relevância das informações contábeis reportadas (value relevance).

Value relevance

Value relevance é observado pelos pesquisadores a partir da possível resposta do mercado em relação a uma informação contábil divulgada.

Isto é, se o mercado responde a essa informação, ela é considerada relevante. Para isso, são utilizadas algumas técnicas estatísticas.

Um estudo utilizando empresas de vários países, Huff (2018) fez trabalho que aponta para uma melhora na informação contábil quando adotada a mensuração a valor justo para os ativos.

Já por aqui, no Brasil, temos bons professores e pesquisadores. Estude e conheça!

As evidências do estudo de Silva Filho, Martins e Machado (2013), por exemplo, mostram que os saldos apresentados de ativos biológicos eram subestimados quando mensurados pelo custo histórico.

Desta forma, calcular o valor justo foi benéfica, visto que indica valores mais próximos das estimações de mercado. Ficou claro a importância de saber o que é valor justo?

Valor justo

Exemplo prático do valor justo

Para aprendermos juntos, vamos verificar a mensuração do valor justo na prática.

A companhia Guararapes (GUAR3), por exemplo, é proprietária de um shopping center, o qual mantém para fins de renda, classificando-o no ativo como propriedade para investimento.

Abaixo, vejamos o valor registrado no balanço patrimonial, pelo custo histórico.

Nesse sentido, o CPC 28 permite que a empresa reconheça a propriedade para investimento tanto pelo custo histórico, quanto pelo valor justo, sendo que, cabe a administração da empresa esta escolha contábil.

Entretanto, se optar pelo reconhecimento através do custo, ela deve divulgar qual é o valor justo em nota explicativa. Vejamos, então, como a Guararapes mensurou o valor justo de sua propriedade para investimento, a partir de suas notas explicativas:

cpc 46 esquematizado

cpc-46

Fonte: DFP2019

Através das informações contidas nas notas explicativas, podemos ver que a mensuração foi realizada através do fluxo de caixa descontado, para o ativo em questão. Como essa avaliação, o estudo reflete premissas da própria empresa.

Estamos falando do nível 3 de mensuração, comentado anteriormente. Por outro lado, observamos também, a diferença entre os valores de custo e o valor justo:

como calcular valor justo

Se liga nesta curiosidade: Se no futuro, a empresa optar por remensurar esta propriedade para investimento através do seu valor justo, a diferença positiva entre o valor justo e o custo será lançada no resultado, gerando uma receita (ganho).

Nesse caso, o registro contábil ocorreria da seguinte forma:

Débito – Propriedade para investimento (Aumento no valor do ativo)

Crédito – Receita (Resultado, transitando na linha de outras receitas na DRE)

Da mesma forma, a empresa também deve acompanhar a situação do ativo em questão, para avaliar possíveis perdas por impairment.

Cursos no TC-School

Gostou do conteúdo?

Caso você queira conhecer mais sobre contabilidade financeira, confira nossos cursos.

Além disso, possuímos uma série de materiais gratuitos no canal do TC-School no YouTube para você que deseja se aprofundar no tema.

Vamos continuar com a aula sobre a mensuração do valor justo na contabilidade.

Valor justo: vantagens e desvantagens

Como nem tudo são flores, apesar da melhora informacional reportada pelas pesquisas, a mensuração a valor justo apresenta algumas desvantagens.

Para entendermos, uma empresa menor – empresas small caps, por exemplo, a adoção do valor justo pode ficar comprometida. Afinal será preciso avaliar o custo benefício na obtenção das informações que são necessárias à mensuração do valor justo.

Elencamos alguns prós e contras abaixo:

exemplo de valor justo na contabilidade

Com a tabela acima ficou mais fácil de entender?

Por fim, no contexto de avaliação de empresas, as necessidades informacionais dos investidores variam de acordo com a maneira a qual se espera que os ativos gerem valor para a empresa (Bostosan e Huffman, 2015).

Portanto, como investidores iniciantes ou não, é de fundamental importância conhecer como os elementos contábeis estão mensurados. Se liga na importância de estudar e aprender!

Somente assim, entendendo melhor, vamos poder extrair o máximo de informações sobre a empresa que pretendemos aportar nosso rico dinheirinho.

Percebeu como o correto entendimento desses elementos também é primordial para nos auxiliar na avaliação do potencial de geração de caixa das empresas?

Baixe grátis o nosso aplicativo!

Referências

BOTOSAN, Christine A.; HUFFMAN, Adrienna A. Decision-useful asset measurement from a business valuation perspective. Accounting Horizons, v. 29, n. 4, p. 757-776, 2015.

COELHO, Cláudio Ulysses Ferreira; LINS, Luiz dos Santos. Teoria da Contabilidade: abordagem contextual, histórica e gerencial. São Paulo: Atlas, 2010.

HUFFMAN, Adrienna. Asset use and the relevance of fair value measurement: evidence from IAS 41. Review of Accounting Studies, v. 23, n. 4, p. 1274-1314, 2018.

SILVA FILHO, A. C. DA C. ; MARTINS, V. G.; MACHADO, M. A. V. Adoção do valor justo para os ativos biológicos: análise de sua relevância em empresas brasileiras. Revista Universo Contábil, v. 9, n. 4, p. 110–127, 2013.

 

Arlindo Souza
Arlindo Souza
Analista de conteúdo | Mercado financeiro no TradersClub 
Contador, Mestre em Ciências Contábeis. Foi professor/pesquisador do departamento de contabilidade da UFRN e atuou em contabilidade de S.A. É investidor com base em análise fundamentalista.

TC School

TC School

Disclaimer: Este material é produzido e distribuído somente com os propósitos de informar e educar, e representa o estado do mercado na data da publicação, sendo que as informações estão sujeitas a mudanças sem aviso prévio. Este material não constitui declaração de fato ou recomendação de investimento ou para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários. O usuário não deve utilizar as informações disponibilizadas como substitutas de suas habilidades, julgamento e experiência ao tomar decisões de investimento ou negócio. Essas informações não devem ser interpretadas como análise ou recomendação de investimentos e não há garantia de que o conteúdo apresentado será uma estratégia efetiva para os seus investimentos e, tampouco, que as informações poderão ser aplicadas em quaisquer condições de mercados. Investidores não devem substituir esses materiais por serviços de aconselhamento, acompanhamento ou recomendação de profissionais certificados e habilitados para tal função. Antes de investir, por favor considere cuidadosamente a sua tolerância ou a sua habilidade para riscos. A administradora não conduz auditoria nem assume qualquer responsabilidade de diligência (due diligence) ou de verificação independente de qualquer informação disponibilizada neste espaço. Administradora: TradersNews Informação & Educação Ltda. Todos os direitos reservados.

TradersClub

O app essencial para investidores do mercado financeiro brasileiro.

Uma comunidade com milhares de investidores, ferramentas e serviços que vão ajudar você a investir melhor!

TradersClub