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Por que embalagens estão diminuindo?

28/09/2021 às 15:35

TC School

Você já teve a sensação de que com o tempo as embalagens dos produtos vão ficando menores? Hoje, vamos investigar o que está por trás da tática de “Package Downsizing”, também conhecida como reduflação.

  • A redução do tamanho dos pacotes
  • Entendendo por que as embalagens ficam menores
  • O lado da companhia
  • O lado do consumidor
  • Diminuir o tamanho das embalagens é ilegal?
  • Exemplos de reduflação
  • Conclusão
  • Referências

Boa leitura!

A redução do tamanho dos pacotes

A redução do tamanho dos pacotes, ou “package downsizing” ,é uma prática onde as embalagens dos produtos são reduzidas sem alterar o seu preço. Em mercados competitivos, a redução das embalagens é praticada por companhias que desejam ter um “efeito invisível” de aumento de preço em seus produtos.

O fenômeno de diminuição das embalagens também é conhecido como reduflação (shrinkflation).

Entendendo por que as embalagens ficam menores

As embalagens ficam menores por conta de um aumento no nível de preços geral da economia (inflação) ou por conta de um aumento no preço específico dos insumos de uma determinada firma. A diminuição das embalagens surge como estratégia útil para “esconder” o aumento dos preços.

O lado da companhia

Primeiro, é importante entender que reduzir as suas embalagens ou o tamanho do seu produto é uma decisão da companhia. A firma toma essa decisão com o objetivo de maximizar seu lucro.

Como é calculado seu lucro? Receita menos os custos. Vamos supor que uma companhia produza uma barra de chocolate contendo 200g, com um custo de produção de R$1 e consiga vender a mesma barra por R$2.

Vamos colocar isso em uma função lucro comum:

Onde: 

  • Π: Lucro da companhia
  • P: Preço do produto i a ser vendido
  • Y: Quantidade do produto i vendida
  • W: Preço do fator i de produção
  • X: Quantidade produzida

Assumindo que seria produzido apenas um produto (n) e teríamos apenas um insumo (m) temos que:

π = R$ 2,00 x 1 unidade – R$ 1,00 x 1 unidade

π = R$ 1,00

Um lucro de R$1 para cada barra de chocolate produzida. Agora, vamos supor que o custo do insumo aumentou de R$1 para R$ 1,20 para a produção de uma barra:

π = R$ 2,00 x 1 unidade – R$ 1,20 x 1 unidade

π = R$ 0,80

O lucro da firma diminuiu. Para retornar ao lucro anterior a firma tem duas possibilidades: Aumentar o preço do produto ou diminuir a quantidade ofertada em cada unidade. É aí que entra um pouco de economia comportamental.

Segundo Çakir e Balagtas (2014) os consumidores são quatro vezes mais sensíveis a variações de preço do que são a diminuição do tamanho do pacote. Logo, a diminuição do pacote pode manter ou até aumentar o lucro da companhia com aquele determinado produto.

Retomando o exemplo anterior, uma solução para o produtor seria produzir uma quantidade menor do que 200g por barra, como assumi que uma unidade teria 200g, ele produziria “0.8” unidade, com a barrinha diminuindo de 200g para 160g:

π = R$ 2,00 x 1 unidade – R$ 1,20 x 0,80 unidade

π = R$ 1,04

Note que no exemplo, a firma chegou até a ter um lucro maior com a redução da embalagem.

O lado do consumidor

Ainda usando o exemplo anterior, na primeira situação o consumidor paga R$2 para consumir uma unidade de 200g de uma barra de chocolate. Pagando um preço proporcional de R$ 0,0100/g.

Com a redução da embalagem, ele passa a pagar R$2 por uma barra de 160g. Pagando um preço proporcional maior de R$ 0,0125/g. Numericamente ele está em uma situação pior do que a anterior, mas será que ele de fato percebe?

Segundo Russo (1977) quando o preço unitário é explícito e tem desconto por quantidade, os consumidores tendem a ser racionais e comprar produtos com embalagens e quantidades maiores, não caindo em embalagens reduzidas.

Wansink (1996), por outro lado, afirmou que os consumidores também podem se enganar com o tamanho da embalagem, pois assumem que embalagens maiores viriam com maior quantidade. 

Diminuir o tamanho das embalagens é ilegal?

Criada em 23 de janeiro de 2002, a portaria 81 do Ministério da Justiça afirma que um produto pode sim mudar de tamanho, mas todas essas alterações devem estar contidas na embalagem, em letra e cor destacadas, informando, de forma clara, precisa e ostensiva”.

A lei ainda estabelece que a informação sobre as alterações permaneça na embalagem por um período de três meses. 

A questão da elasticidade

Em economia existe um conceito chamado de elasticidade, que nada mais é do que uma alteração em uma determinada variável, dada uma variação percentual em outra.

A elasticidade interessante para a questão da reduflação é a elasticidade-preço-demanda, que mede o quanto de uma alteração no nível de preços altera a quantidade demandada por um bem:

 

Um bem é denominado elástico, se uma pequena variação no preço altera de forma brusca sua quantidade demandada. Um bem é denominado inelástico se mesmo com uma variação brusca no preço sua quantidade demandada não diminui.

Bens que são inelásticos dificilmente sofrem com a reduflação, pois ao invés da firma diminuir a quantidade na embalagem, pode simplesmente subir o preço pois os consumidores não vão deixar de consumir.

Exemplo: Bens essenciais como arroz, feijão, peito de frango, carne.

É nos bens elásticos que vemos as embalagens diminuindo, pois seu consumo não é essencial, logo pequenas variações de preço poderiam fazer com que o consumidor diminuísse bruscamente o consumo do bem.

Exemplos de reduflação 

Reduflação na barra de chocolate

A barra de chocolate é talvez o exemplo mais clássico de redução no tamanho das embalagens, a maioria das barrinhas vinha antes com 200g, depois passaram para 150g, hoje a maioria é de 90g.

Nos Estados Unidos, a diminuição do tamanho do toblerone de 170g para 150g, aumentando o espaço entre os  seus triângulos chegou até a virar meme. 

Reduflação nas caixas de cereal

Fonte: NPR

Assim como citado no estudo de Wansink (1996), os consumidores podem assumir que embalagens maiores implicam em quantidades maiores, por esse viés as empresas apostam em caixas maiores e mais magras, muitas vezes com os cereais em só metade da embalagem. 

Reduflação em pratos mais caros

Com o aumento no nível geral dos preços, os alimentos que já eram caros ficam ainda mais caros, para tentar não aumentar demais os preços os restaurantes só possuem uma saída: diminuir a quantidade dos insumos mais caros.

Hoje, é cada vez mais comum vermos pratos com filé, camarão e outros frutos do mar, com menor quantidade de carne e maior quantidade de acompanhamentos. É uma forma do restaurante “esconder” a inflação do seu cliente.

Reduflação na Goiabinha

A goiabinha é um caso clássico de bem elástico, se você sempre gastou R$2,50 para comprar um pacote, dificilmente vai passar a gastar R$4,00-R$5,00.

A saída para os produtores foi reduzir o tamanho e a quantidade das goiabinhas. No pacote acima vemos uma redução de 25g (25%).

Conclusão

A diminuição do tamanho das embalagens sempre foi uma prática comum por parte das empresas, vimos com o tempo diversos itens ficarem menores e isso em épocas de inflação controlada.

Com o aumento da inflação, vai ser ainda mais comum vermos produtos menores ou com insumos de menor qualidade, pois as firmas buscam a todo custo manter ou aumentar seu nível atual de lucro. 

Como consumidores, é importante ficarmos atentos aos avisos presentes nas embalagens e sempre compararmos o tamanho e preço do produto com outro similar.

Para as firmas, fica o lembrete que a diminuição das embalagens pode irritar consumidores, prejudicando a imagem da companhia quando usada de forma desnecessária. 

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Referências

Varian HR. Intermediate microeconomics, 4th edition. Norton Publishing, New York, USA.

Çakır, Metin and Balagtas, Joseph V., (2014), Consumer Response to Package Downsizing: Evidence from the Chicago Ice Cream Market, Journal of Retailing, 90, issue 1, p. 1-12.

Wansink, Brian, Can Package Size Accelerate Usage Volume (September 30, 1995). Journal of Marketing, Vol. 60:3 (July 1996), 1-14, Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=2715054

Russo, J. E.. “The Value of Unit Price Information.” Journal of Marketing Research 14 (1977): 193 – 201.

Lucca Carlini
Lucca Carlini
Estudante de Economia na UFPE

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