TC School / Economia & investimentos

Relação entre Taxa de Juros, Inflação e Câmbio

08/04/2021 às 12:23

TC School

Inflação, câmbio e taxa de juros são conceitos que todo investidor deve estar familiarizado, afinal eles influenciam nossas tomadas de decisões em investimentos. No entanto, para um investidor iniciante na Bolsa de Valores, que começou a investir recentemente, a enxurrada de informações e variáveis que são publicadas diariamente parecem ser massivas e complexas.

Parece – e de fato é – impossível acompanhar todas as matérias e artigos que circulam nas mídias. E mais importante disso tudo, é entender como essas variáveis afetam o desempenho de alguns ativos em uma carteira de ações.

O TC School tem um material simples e descomplicado para te ajudar a estudar e aprender sobre economia e investimentos. Queremos o desenvolvimento de cada um, do seu jeito, com responsabilidade e segurança.

Portanto, no artigo a seguir, explicamos de forma resumida, como as três variáveis: Taxa de Juros, Taxa de Inflação e Taxa de Câmbio estão relacionadas e como elas afetam o dia a dia do investidor brasileiro. Dividimos o texto nos seguintes tópicos:

  • Taxa de Juros
  • Taxa de Inflação
  • Taxa de Câmbio
  • Juntando as três variáveis

Boa leitura!

Taxa de Juros

Antes de adentrarmos a parte mais prática do dia a dia do mercado financeiro, vamos abordar dois pontos fundamentais determinantes da taxa de juros:

  1. A oferta e demanda do dinheiro; e
  2. A preferência pela liquidez e o impacto da taxa de juros ao longo do tempo.

A taxa de juros pode ser simplificada como o “preço do dinheiro” ao longo do tempo. Primeiramente, essa ideia surge quando discutida por John Maynard Keynes em seu livro The General Theory of Employment, Interest and Money. Ou seja, o que determinaria o quão propensos os indivíduos estavam a consumir ou a poupar era a taxa de juros.

Curva da Oferta

Dessa forma, a taxa de juros de equilíbrio seria determinada quando houvesse o equilíbrio entre a demanda agregada e a oferta agregada de dinheiro. Quanto maior (menor) a oferta de dinheiro, menor (maior) será a taxa de juros. Fazendo uma relação com qualquer outro produto elástico, quanto mais procurado um bem é, maior tende a ser seu preço, de forma que tal a encontrar o equilíbrio.

Comportamento da Taxa de Juros e a Oferta de Dinheiro

Figura 1: Curva da Oferta e Demanda

Fonte: “Liquidity preference, Interest and Money”, (1944)

Podemos observar no gráfico acima, que quando a Curva da Oferta (S) é deslocada para a direita (aumento da oferta), uma nova taxa de juros (i) mais baixa é estabelecida.

Outro fator determinante da taxa de juros é a preferência dos indivíduos pela liquidez, ou seja, o quão propenso você está a consumir agora, em detrimento de não consumir no futuro.

Assim, quanto mais propensos os indivíduos estão a consumir no presente, consequentemente, maior a demanda pelo dinheiro e consequentemente, maior tende a ser o “preço” (juros) do dinheiro – tomando a oferta do dinheiro como constante.

É dessa forma que o “Governo” (Banco Central – BC) determina a taxa Selic (Selic Meta), buscando equilibrar a oferta/demanda de dinheiro no médio e longo prazo.

Operações Compromissadas

Em casos de pequenos desequilíbrios diários de oferta e demanda, o BC (Bacen) age através da compra e venda de títulos públicos (LTFs) em troca de Reservas Bancárias, as chamadas Operações Compromissadas. Dessa forma, o Bacen atua diariamente a fim de manter a Selic o mais próximo da meta.

Para se aprofundar no tema, recomendamos a leitura do artigo que trata especificamente sobre a Taxa Selic:

Já para se aprofundar sobre a Independência do Banco Central e o Sistema Monetário do Brasil, vale a pena ler o artigo abaixo:

Além disso, se o preço do dinheiro não se alterasse conforme o tempo, as pessoas tomariam um empréstimo de 50 anos, ao invés de um de 12 meses, visto que seu custo não mudaria. Aqui entramos em um aspecto mais prático que talvez você já tenha ouvido falar, a Estrutura a Termo da Curva de Juros.

Calma, o nome pode parecer algo bastante complexo mas o que devemos entender é sua essência. A curva nada mais é do que o preço do dinheiro para períodos de tempo (maturidade) diferentes. No gráfico abaixo, mostramos a curva pré-fixada dos títulos públicos do Brasil (Ex: Letra do Tesouro Nacional).

Estrutura a Termo da Curva de Juros

Figura 2: ETTJ – Estrutura a Termo da Taxa de Juros

Fonte: ANBIMA (22/03/2021)

Conforme podemos observar, através dela, é possível ver quanto o mercado está pedindo em termos de rentabilidade, para diferentes vértices da curva, e é aí que fica interessante.

Como é o Banco Central que determina a taxa de juros básica da economia (Selic), podemos ver as “distorções” através da curva, e consequentemente, ver quanto o mercado está embutindo de alta ou baixa nos períodos seguintes.

Além disso, a Curva de juros também pode ser utilizada para títulos de crédito privado (basta adicionar o spread referente ao risco do título) e para cálculo da Taxa Livre de Risco em processos de valuation.

Taxa de Inflação

Assim como a taxa de juros representa o preço do dinheiro ao longo do tempo, a taxa de inflação representa a desvalorização de uma determinada moeda.

No Brasil, há diversos índices de preço responsáveis por representar um aumento/diminuição de preços em determinados ativos. Os mais comuns são o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) e o IGP-M (Índice Geral de Preços).

Índices de preço

  • IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo

O IPCA busca identificar o aumento/diminuição média de preços em uma cesta de consumo que está presente na vida de todos os indivíduos, como: alimentação, habitação, vestuário, transporte, etc.

  • IGP-M – Índice Geral de Preços

O IGP-M, por sua vez, atribui mais peso para produtos mais relacionados à indústria, como commodities. Por isso, o IGP-M é mais sensível à alta do dólar.

Em 1999, o Brasil adotou o Sistema de metas de inflação para nortear a política monetária, a qual tem objetivo principal de manter níveis de inflação baixos. Desde então, o Banco Central atua através de ferramentas de política monetária, a fim de manter o poder de compra da moeda.

Para se aprofundar mais a respeito dos instrumentos de controle e gestão da política monetária, fizemos um texto a respeito do tema:

Vale a pena ler também tudo o que já escrevemos na categoria Economia & Investimentos. Você é capaz de aprender a investir. Se liga só, por exemplo, nesse artigo que fala sobre rendimento negativo em renda fixa.

Teoria Quantitativa da Moeda (QTM)

Economistas do século 19 desenvolveram a Teoria Quantitativa da Moeda (QTM), a qual buscava explicar os aumentos dos níveis de preços através de 4 variáveis:

  1. Velocidade de circulação (V);
  2. Oferta de moeda (M);
  3. Produto produzido (Y); e
  4. Preço (P)

Vale ressaltar que na QTM, Irving Fisher não considerava que o juros influenciasse a taxa de inflação.

Logo, assumindo que a velocidade de circulação e o produto fossem constantes, se a oferta de moeda (M) dobrasse, o preço (P) teria de dobrar também!

“Um fenômeno monetário”

Dessa forma, podemos assumir que a porcentagem de inflação é igual a taxa de crescimento monetário, menos a taxa de crescimento da produção agregada. Como a frase de Milton Friedman, “inflação é sempre e em qualquer lugar, um fenômeno monetário”.

Taxa de Câmbio

No Brasil, o Banco Central (Bacen) adota o regime cambial quase flutuante. Ou seja, a taxa de câmbio do Real com outras moedas flutuam de acordo com a oferta e demanda do mercado, porém, se o Bacen percebe alguma disfunção, pode agir, com o objetivo de manter a paridade da moeda.

Balanço de Pagamentos

Podemos acompanhar essa oferta e demanda através da estrutura da Balanço de Pagamentos. Ela dividirá em:

  1. Conta Corrente, formada principalmente pelas transações de exportações, importações e serviços (como o Brasil exporta mais do que importa, é beneficiada quando a taxa de câmbio sobe);
  2. Conta Capital, formada pelas transações de transferência de bens; e
  3. Conta Financeira, formada principalmente por investimentos no país (ações, investimento em participações, derivativos, etc.)

Vale salientar que a estrutura da Balanço de Pagamentos funciona como uma soma zero, ou seja, se a Conta Corrente está positiva, a Conta Capital e Conta Financeira estarão negativas e vice-versa.

Balanço de Pagamentos

Figura 3: Balanço da Pagamentos

balança de pagamentos

Fonte: Banco Central (Bacen)

Em casos em que há forte saída de dólares do País (venda de Real e compra de Dólar), seja por investidores estrangeiros ou até mesmo empresas nacionais, o Banco Central atua disponibilizando contratos de swaps.

Nessa hora, o BC atua vendendo contratos futuros de dólar na própria Bovespa. Nessa hora, o BC está comprometido a pagar a variação da taxa cambial ao investidor/empresa em troca de uma taxa qualquer (normalmente atrelada à Selic). Para saber mais sobre contratos de swaps:

Caso o BC tenha prejuízo na operação, seu saldo de Reservas Internacionais é penalizado, conforme a tabela da posição cambial líquida abaixa, a qual mostra a diminuição da sua Conta de Reservas Internacionais desde Janeiro de 2020 até Março de 2021, em função do descontrole da taxa de câmbio, o que obrigou o BC a abrir contratos de swap cambial.

Posição Cambial Líquida do BC

Figura 4: Posição Cambial Líquida

banco central indicadores

Fonte: Banco Central

Juntando as três variáveis

Inflação, Taxa de Juros e Câmbio

Agora que fizemos uma breve revisão em cima nos principais tópicos de cada assunto – Inflação, Taxa de Juros e Câmbio, podemos começar a entender a relação entre eles.

Primeiramente, na economia, não podemos atribuir direta causalidade entre um indicador e outro, pois, apesar de se utilizar muitas fórmulas, a fim de facilitar o entendimento, a economia não é uma ciência exata. Contudo, podemos inferir uma relação esperada.

Considerando toda a teoria discutida até agora, podemos dizer que a taxa de juros se comporta de forma inversa à inflação e a taxa de câmbio. Ou seja, quando a taxa de juros sobe, por exemplo com aumento da Taxa Selic, a inflação do País tende a diminuir, bem como a taxa cambial, valorizando a moeda nacional.

inflação, taxa de juros e câmbio

Elencamos a seguir o que pode estar acontecendo em cada variável, utilizando o exemplo acima.

  • Impacto na Inflação

Uma alta na taxa de juros, significa que o Banco Central está aumentando o “preço” do dinheiro, dessa forma, as pessoas que antes consumiam numa velocidade maior, agora consideram poupar para consumir no futuro. Essa alta da taxa de juros pode estar sendo uma resposta a uma alta generalizada dos preços (inflação);

Visão do Investidor: Em busca de não ser prejudicado pela alta da taxa de juros, o que tende a diminuir o consumo agregado no curto prazo, desaloca o capital investido em empresas de varejo, por exemplo, pois tendem a ser mais impactadas pela destruição de poder de compra da classe consumidora, impactando negativamente seus resultados, e passa a alocar capital em empresas que possuam suas Receita indexada a índices de preços (IPCA, IGP-M), como transmissoras de energia, seguradoras e banco.

  • Impacto na Taxa de Câmbio

Um ciclo de alta de juros pode estar acontecendo em um cenário em que a taxa de câmbio esteja alta (moeda local desvalorizada). Nesse momento, a inflação deve estar alta também, pois, como vimos anteriormente, uma inflação alta significa uma desvalorização da moeda, o que implica numa taxa cambial tão alta quanto.

Nenhum investidor estrangeiro quer se posicionar em uma moeda instável. Dessa forma, a expectativa com a alta de juros é de desinflacionar a moeda e de atrair investimento estrangeiro, valorizando o câmbio.

Visão do Investidor: Nesse momento, o investidor pode estar percebendo desempenho inferior nas ações do mercado local, principalmente àquelas empresas que possuem custos dolarizados e receitas em moeda local.

Na tentativa de se proteger da alta da taxa de câmbio, o investidor pode investir em empresas exportadoras, as quais têm sua Receita dolarizada e custo também – às vezes o custo é em moeda local, o que é ainda melhor!

Referências

MODIGLIANI, Franco. “Liquidity Preference and the Theory of Interest and Money”. The Econometric Society, Vol. 12, No. 1, pp. 45-88, (Jan., 1944).

MANKIW, Gregory. Macroeconomia. Editora LTC. 8ª EDIÇÃO, 2014.

MISHKIN, Frederic S. The Economics of Money, Banking and Financial Markets. Pearson, 2019.

Daniel Santos
Daniel Santos
Estagiário do TC School
Graduando em Ciências Contábeis pela UFRN. Ex-membro da Liga de Finanças e vencedor do 1º Campeonato de Análise Fundamentalista do TC.

TC School

A sua escola como investidor.

Disclaimer: Este material é produzido e distribuído somente com os propósitos de informar e educar, e representa o estado do mercado na data da publicação, sendo que as informações estão sujeitas a mudanças sem aviso prévio. Este material não constitui declaração de fato ou recomendação de investimento ou para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários. O usuário não deve utilizar as informações disponibilizadas como substitutas de suas habilidades, julgamento e experiência ao tomar decisões de investimento ou negócio. Essas informações não devem ser interpretadas como análise ou recomendação de investimentos e não há garantia de que o conteúdo apresentado será uma estratégia efetiva para os seus investimentos e, tampouco, que as informações poderão ser aplicadas em quaisquer condições de mercados. Investidores não devem substituir esses materiais por serviços de aconselhamento, acompanhamento ou recomendação de profissionais certificados e habilitados para tal função. Antes de investir, por favor considere cuidadosamente a sua tolerância ou a sua habilidade para riscos. A administradora não conduz auditoria nem assume qualquer responsabilidade de diligência (due diligence) ou de verificação independente de qualquer informação disponibilizada neste espaço. Administradora: TradersNews Informação & Educação Ltda. Todos os direitos reservados.

TradersClub

O app essencial para investidores do mercado financeiro brasileiro.

Uma comunidade com milhares de investidores, ferramentas e serviços que vão ajudar você a investir melhor!

TradersClub