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Entenda o que é Núcleo de Inflação

25/06/2021 às 11:40

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O que é núcleo de inflação? Como a inflação é medida? Temos ouvido nos noticiários e jornais que a prévia da inflação tem acelerado. Nesse texto, você irá compreender como o conceito de núcleo de inflação pode ser útil para a sua jornada como investidor.

Para entendermos o assunto, é fundamental revisarmos alguns outros conceitos. Por isso, vamos por partes:

  • O que é inflação?
  • Como a inflação é medida?
  • Choques externos
  • Núcleo da inflação e inflação cheia
  • Conclusão

núcleos de inflação

O que é inflação?

A inflação nada mais é que a elevação contínua do nível geral de preços na economia (Blanchard, 2001). É um fenômeno marcante na história dos brasileiros pela hiperinflação da década de 1990, com a inflação mensal medida pelo IPCA superando 50% ao mês.

inflação mensal medida ipca

Fonte: Elaboração própria com base no código disponibilizado pelo análisemacro.com.br e nos dados disponibilizados pelo SIDRA/IBGE.

A inflação é indesejável, pois implica na diminuição do poder de compra da moeda e no efeito negativo sobre a renda daqueles que não podem se proteger do aumento generalizado dos preços. Além disso, também possui um efeito negativo sobre os investimentos, pois gera incerteza para os agentes.

Como a inflação é medida?

No Brasil, possuímos dois índices de referência para medir a inflação: o Índice Geral de Preços (IGP), calculado pela FGV, e o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE. Por ter sido escolhido pelo Banco Central para acompanhar os objetivos estabelecidos pelo sistema de metas, aqui vamos nos concentrar no IPCA.

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)

inflação mensal

Fonte: Elaboração própria com base no código disponibilizado pelo análisemacro.com.br e nos dados disponibilizados pelo SIDRA/IBGE.

Criado em 1979, o IPCA é considerado o indicador oficial de inflação do país. Foi criado com o objetivo de medir o indicador de um conjunto de produtos e serviços comercializados no varejo, referentes ao consumo das famílias. Com isso, abrange famílias com rendimentos de 1 a 40 salários mínimos, cobrindo cerca de 90% da área urbana.

O IPCA é medido mensalmente, tendo seu período de coleta do dia primeiro (1) até o último dia do mês (30) de referência. São coletados os dados referentes aos preços praticados para os consumidores finais de aproximadamente 465 subitens e 9 grupos.

peso dos grupos ipca

Fonte: Elaboração própria com base no código disponibilizado pelo análisemacro.com.br e nos dados disponibilizados pelo SIDRA/IBGE.

São considerados como grupos do IPCA:

  1. Alimentação e bebidas;
  2. Habitação;
  3. Artigos de residência;
  4. Vestuário;
  5. Transportes;
  6. Saúde e cuidados pessoais;
  7. Despesas Pessoais;
  8. Educação; e
  9. Comunicação

Choques externos e a Inflação

Os choques de oferta e de demanda no mercado, alteram toda a dinâmica econômica, podendo gerar efeitos em diversos indicadores, dentre eles, a inflação.

contribuição grupos ipca para inflação

Fonte: Elaboração com base no código do monitor de inflação do  análisemacro.com.br e nos dados disponibilizados pelo SIDRA/IBGE.

Em um país exportador como o Brasil, choques externos temporários ligados a fatores climáticos (comum em alimentos) e fatores sazonais (comum em carnes) influenciam o nível geral de preços momentaneamente.

Para expurgar esses choques, ajustar expectativas e formular de forma correta a política monetária, buscou-se definir medidas de núcleo de inflação.

Núcleo de Inflação

O termo núcleo de inflação, ou inflação subjacente, vem do inglês “Core Inflation”, que segundo Roger (1998) seria uma medida que busca capturar os componentes persistentes e generalizados do indicador.

Como dito, esses componentes são afetados por pressões de demanda sobre a capacidade produtiva, choques permanentes e mudanças na inflação. Se tornou uma medida relevante à medida que vários países passaram a adotar o regime de metas de inflação com o objetivo de estabilizar o nível geral de preços.

O núcleo de inflação é uma ferramenta importante para a política monetária, pois permite à autoridade monetária realizar medidas sem o viés dos choques temporários que afetam a inflação cheia. Além disso, tem como objetivo capturar a tendência de curto prazo, sendo em situações normais um bom preditor.

Na literatura, não existe um padrão consensual sobre o que constitui um núcleo de inflação ideal, de forma que, cada Banco Central apresenta uma medida diferente para calculá-lo:

País 

Medidas de Núcleo

Austrália

IPC menos juros habitacionais, preços administrados e energia 

Canadá

IPC menos impostos indiretos, alimentos e energia
Cingapura

IPC menos custo do transporte privado e de habitação

Bélgica

IPC menos juros habitacionais, preços administrados e energia

Espanha

Espanha

Estados Unidos

IPC menos alimentos e energia

Filipinas

Tendência linear da inflação
Finlândia

IPC menos manutenção residencial, impostos indiretos e subsídios

França

IPC menos mudanças nos impostos, energia, alimentos e preços regulados
Grécia

IPC excluindo-se alimentos e energia

Holanda

IPC menos leguminosas, frutas e energia

Israel

IPC menos bens públicos, manutenção de residência, frutas e leguminosas

Japão

IPC excluindo-se alimentos in natura

Nova Zelândia

IPC menos preços de commodities e preços administrados

Portugal

Média aparada de 10%

Reino Unido

Índice de preços no atacado menos juros imobiliários

Suécia

IPC menos juros imobiliários e efeitos de impostos e subsídios

IPC – Índice de Preço ao Consumidor

Fonte: Bryan, M & Cecchetti S. (1999), The monthly measurement of core inflation in Japan. Discussion Paper 99-E-4, Institute for Monetary and Economic Studies Bank of Japan

Medidas de Núcleo de Inflação do Banco Central do Brasil

Alguns países possuem medidas mais simples de inflação subjacente, possuindo apenas um “núcleo”.

Alguns teóricos, como Laflèche, acreditavam que deveria ser utilizado um conjunto diversificado de medidas de núcleo de inflação. Em linha, e obviamente por conta de toda nossa complexidade histórica, o Banco do Central do Brasil desenvolveu 7 medidas:

  • IPCA-EX0
  • IPCA-MS
  • IPCA-MA
  • IPCA-EX1
  • IPCA-DP
  • IPCA-EX2
  • IPCA-EX3

Cada uma contendo uma particularidade para o seu respectivo propósito.

núcleos de inflação

Fonte: Elaboração própria com base no código disponibilizado pelo análisemacro.com.br e nos dados disponibilizados pelo SIDRA/IBGE.

IPCA-EX0:

Uma das primeiras medidas do núcleo de inflação, criada em 2003, é considerada um índice de exclusão. Isso porque retira a variação de preços dos “alimentos a domicílio” e os preços administrados.

IPCA-MS:

É uma medida do núcleo por médias aparadas, onde são removidas 20% das variações de preço de cada cauda da distribuição, e onde são suavizadas algumas variações de grande magnitude.

IPCA-MA:

Também uma medida do núcleo por médias aparadas, onde igualmente são removidas 20% das variações de preço de cada cauda da distribuição, porém sem suavização.

IPCA-DP:

O índice é medido por dupla ponderação. Os pesos originais do IPCA são recalculados baseados na volatilidade relativa de 48 meses, não excluindo os itens mais voláteis, apenas rebalanceando seus pesos.

IPCA-EX2:

Um dos mais recentes índices de exclusão, foi adicionado junto ao IPCA-EX3 após demonstrar maior aderência ao hiato do produto do que os demais núcleos. Reúne componentes mais sensíveis ao ciclo econômico, para o seu cálculo são excluídos os itens cuja volatilidade relativa é superior a dois desvios-padrão em pelo menos dois dos três subperíodos da amostra.

IPCA-EX3:

O mais recente índice de exclusão, é conhecido como indicador subjacente de serviços industriais. Isso porque agrega apenas os itens selecionados de serviços e bens industriais, que correspondem a 52,1% dos preços livres e 38% da cesta do IPCA.

Núcleo de Inflação e Inflação Cheia

meta de inflação

Fonte: Código feito pelo análisemacro.com.br em seu monitor de inflação, com base nos dados disponibilizados pelo SIDRA/IBGE.

Os núcleos são fundamentais para os bancos centrais acompanharem a trajetória da inflação cheia. Os dados recentes, por exemplo, mostram que até os núcleos estão acima da meta, provavelmente por conta da soma do efeito da política monetária expansionista com a reabertura econômica.

Isso sinalizou para a autoridade monetária que o aumento da inflação cheia não poderia ser atribuído apenas a choques externos. Como resposta, o BCB teve que elevar a taxa básica de juros e mais recentemente sinalizar que buscará elevar a Selic até a taxa neutra.

Ao confrontar a média dos 7 núcleos do BCB com a inflação cheia temos o seguinte gráfico:

comportamento da inflação

Em períodos normais, vemos uma correlação entre a inflação cheia e a média dos 7 núcleos, sendo os núcleos de fato bons preditores para aquela no curto prazo.

Recentemente, verificamos um forte descolamento entre a média dos núcleos e a inflação de 12 meses, por conta da presença de vários choques externos, tais como o aumento do preço de commodities, a reabertura econômica e o aumento da incerteza no campo político.

Conclusão

Investidores precisam ficar atentos a variações no nível de inflação para se adaptarem aos mais diversos cenários. Os núcleos de inflação tornam mais clara a visualização por parte do investidor da real trajetória do indicador, pois como dito, elimina possíveis choques temporários, capturando apenas componentes persistentes.

Além disso, a observação dos núcleos de inflação permite inferir sobre uma futura atuação do Banco Central. Com uma leitura correta, o investidor conseguirá se antecipar ao mercado em relação ao cenário macroeconômico vindouro.

Referências

Smith, Julie K. “Weighted Median Inflation: Is This Core Inflation?” Journal of Money, Credit and Banking, vol. 36, no. 2, 2004, pp. 253–263. JSTOR, www.jstor.org/stable/3839019. Accessed 28 May 2021.

LITVAC, Basiliki Theophane Calochorios. Núcleos de inflação no Brasil e poder preditivo… Dissertação (Mestrado Profissional em Finanças e Economia) – FGV – Fundação Getúlio Vargas, São Paulo, 2013.
Olivier Blanchard (2001). Macroeconomia, tradução da 2a edição americana. Editora Campus.

WILHER, Vitor. Núcleos Vs Meta de Inflação. Análise Macro, 11, fevereiro de 2020. . Disponível em: <www.analisemacro.com.br>. Acesso em: 25, maio de 2021.

WILHER, Vitor. Raio-X da Inflação brasileira usando o R. Análise Macro, 09, fevereiro de 2021. . Disponível em: . Acesso em: 27, maio de 2021.

Lucca Carlini
Lucca Carlini
Estudante de Economia na UFPE

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