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Reflação: a nova palavra da moda na economia

18/05/2021 às 12:20

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O cenário de pandemia levou o mundo a uma situação inédita, já que com a globalização, os países estão mais interligados do que nunca e a contaminação do novo coronavírus levou o mundo ao lockdown global.

Nesse cenário de menor atividade econômica, restou aos governos e bancos centrais salvar a economia com ações de política monetária e política fiscal. Com isso, há um excesso de liquidez no mundo, atrelado ao aumento da dívida dos países e crises na cadeia de produção no mundo inteiro.

Esse excesso de dinheiro no mundo trouxe à tona a velha discussão dos economistas: “Vamos crescer com ou sem inflação?”. Essa pergunta é importante por dois grandes motivos. O primeiro é que uma inflação descontrolada pode levar a uma nova crise econômica. O segundo é que quando analisamos crescimento econômico, é necessário olhar o crescimento real, ou seja, quanto o país cresceu descontando a inflação.

Isso é importante já que o crescimento real leva a um aumento do emprego e do poder de compra da população e, como sabemos, o crescimento econômico leva à prosperidade econômica e avanços tecnológicos. Desse modo, hoje é avaliado por bancos centrais se haverá uma reflação.

Para entender o que é reflação teremos que entender o que é inflação e o que é crescimento. Neste texto entenderemos também o que é estagflação e deflação. A seguir, você irá encontrar:

  • Definição de inflação
  • Como acontece a inflação?
  • O que é crescimento?
  • O que é crescimento real?
  • Entendendo reflação e estagflação
  • Como pode ter reflação?
  • Riscos da reflação
  • Reflação para emergentes

Boa leitura!

reflação texto

Definição de inflação

O jeito mais simples de entender a inflação é saber que inflação é a mudança de preços em determinado período. Digamos que você tem um lápis hoje que custa R$2,00. Passado um ano, esse lápis custa agora R$2,10.

Neste caso, o aumento de preço de custo do lápis é de 10 centavos. Na economia diríamos que esse seu lápis teve uma inflação de 5%. Isso foi calculado pela diferença entre o preço de amanhã e o preço de hoje, dividido pelo preço de hoje.

A pergunta ao ver isso é: “inflação é ruim?”. A resposta disso é não necessariamente. Uma inflação baixa e controlada é algo saudável na economia, já que o indivíduo ao saber que o preço vai subir no futuro, não adia indefinidamente o consumo.

O maior problema da inflação é não saber qual será seu valor no futuro, uma inflação muito alta e deflação, que é um cenário em que a inflação é negativa, ou seja, os preços diminuem ao longo do tempo na economia.

Ao saber que os preços vão diminuir ao longo do tempo, faz com que indivíduos não consumam e haja menor produção e emprego. É normal haver deflação em alguns produtos com o avanço tecnológico ao longo do tempo, mas a economia consistentemente ter a diminuição de todos os seus preços é algo perigoso.

Inflação = ( Pt/Pt-1) -1

Como acontece a inflação?

A inflação pode vir de algumas maneiras na economia:

Diminuição de oferta

O primeiro jeito é pela diminuição de oferta, com uma menor oferta, há menor produção, e com menor produção há menos produtos no mercado, com isso cada produto vale mais, fazendo com que haja inflação.

Aumento de custos

O segundo jeito pela oferta é o aumento de custos. Quando a economia cresce mais rápido que sua capacidade de produção, há uma necessidade mais rápida de novos recursos, como máquinas e equipamentos e novos funcionários. Com o aumento de custo, o produtor aumenta os preços, já que precisa deixar o preço em um nível no qual ele pode continuar produzindo.

Aumento de consumo

O terceiro modo é pela demanda. Nesse caso, há um aumento de consumo de determinado produto muito rápido, e os produtores, a fim de aumentar a produção para suprir essa nova demanda, acabam aumentando os preços. É bom lembrar em microeconomia que, com uma oferta constante, um choque de aumento de demanda torna o bem mais escasso, aumentando seu preço.

Aumento de liquidez

Por fim, podemos citar o aumento de liquidez, que com o aumento de dinheiro no mundo, cada dinheiro vale menos, aumentando o valor dos produtos. Esse último caso parece mais confuso, então como exemplo pense que você está em uma sala de aula com outras dez pessoas e você sabe que cada pessoa tem R$10,00 com elas, tornando o dinheiro total da economia de R$100,00.

Agora pense que você tem um chiclete, neste caso você pode vendê-lo por R$0,20. Agora pense que por algum motivo todo mundo tem R$100,00. Neste caso, como todos tiveram um aumento de renda, seu chiclete pode ser vendido por R$2,00, isso é inflação por aumento de liquidez.

Elaboração própria.

O que é crescimento?

Agora que o conceito de inflação e suas causas estão explicados, vamos entender o que é crescimento. O crescimento na economia pode ser entendido pelo aumento da produção.

Por exemplo, na economia do seu país vocês produzem lápis, e cada lápis é vendido por R$10,00. No final do ano seu país produziu e vendeu 1.000 lápis. Neste caso, a produção total do seu país (PIB) é o preço vezes o produto (10 reais*1000 lápis), que seria R$10.000,00.

Existem ainda dois jeitos de cálculo de PIB, o primeiro é pela demanda, ou seja, calculando a soma do consumo das famílias, investimentos, gastos do governo, importações e exportações.

O segundo jeito é pelo aumento de renda, ou soma-se o salário dos funcionários, renda do aluguel, renda sobre capital (ganho dos juros), renda das empresas, impostos e depreciação. O jeito mais usado pelos economistas é o valor de produção.

O que é crescimento real?

Com esses conceitos em mente, agora vamos entender o que é o crescimento real. Esse é o crescimento econômico menos a inflação, ou seja, o que teve de fato de aumento de produção.

No mesmo exemplo do lápis, se agora o lápis é vendido por R$11,00 e o país continua vendendo 1.000 lápis, agora o crescimento do país foi de 10%, já que o PIB do país é de R$11.000,00.

No entanto, como não houve aumento de produção, o crescimento real é zero. Caso esse país continuasse vendendo o lápis por R$10,00 e aumentasse a produção para 1.100 lápis, o PIB continuaria o mesmo do caso anterior, de R$11.000,00, no entanto o crescimento real é de 10%, já que houve uma produção maior com o mesmo preço.

Para calcular o PIB real, economistas fixam o preço em determinado ponto do tempo e multiplicam esse preço fixo pela produção desse país. Em um último exemplo, se o país agora vende seus lápis por R$11,00 e produz agora 1.100 lápis, o produto dele agora é maior, de R$12.100,00. Com crescimento bruto de 21%, o crescimento real é de 10% e inflação de 10%.

Elaboração própria.

Entendendo reflação e estagflação

Agora vamos explicar o significado dos termos de reflação e estagflação.

Estagflação é quando não há um crescimento econômico e há inflação. Este cenário é bastante perigoso, pois é muito difícil trazer estímulos econômicos tanto fiscal quanto monetário. O estímulo fiscal é dado por medidas feitas pelo governo, como diminuição de impostos ou distribuição de renda básica. O estímulo monetário é dado pela diminuição da taxa de juros, que é feita pelo Banco Central.

A mudança de taxa de juros é um estímulo na economia, pois um indivíduo ao ter dinheiro tem duas opções: guardar ou investir. Quando o indivíduo guarda dinheiro, ele coloca em investimentos e é remunerado por juros, por isso, quando a taxa de juros é mais baixa, há maior incentivo do indivíduo não poupar esse dinheiro e gastar ele. Pelo lado das empresas, menos juros leva ao aumento da capacidade de investimento de uma empresa, estimulando a economia.

Já o cenário de reflação, é o cenário que muitos acham que está acontecendo neste momento pós-pandemia. Esse é um cenário onde há crescimento econômico após um período de recessão, onde há inflação pelo aumento da demanda em um país.

Como pode ter reflação?

A pergunta a ser respondida agora é “Qual o motivo de poder ter reflação no mundo hoje?”. A primeira resposta é fácil, estamos saindo de uma recessão, que embora tenha sido curta, aconteceu durante a pandemia.

Com uma forte recessão no mundo, governos e bancos centrais começaram a fazer estímulos fiscais e monetários na economia. O estímulo fiscal foi feito com programas de renda básica tal como o Corona Voucher ou Relieve Act nos Estados Unidos.

Já o estímulo monetário foi feito com a redução da taxa de juros, que no Brasil chegou a 2% ao ano e nos Estados Unidos está em 0,25% ao ano. Nesse cenário, com tanto dinheiro sendo impresso no mundo (20% dos dólares no mundo foram impressos em 2020), e vários estímulos monetários, houve um aumento de demanda por produtos.

Esse aumento de demanda por produtos não foi acompanhado pelo aumento de oferta, já que várias pessoas pararam de trabalhar com as restrições da pandemia. Assim, ficamos em um cenário com um aumento pequeno da oferta, e um aumento grande da demanda.

Atualmente vemos um aumento do preço das commodities, já que há uma maior demanda por produtos e uma quantidade de oferta que é menor que essa demanda. Não é apenas nas commodities que o preço está mais alto, vemos uma recente valorização de imóveis e outros ativos, tal como aplicações financeiras, obras de arte, artigos de luxo, carros, e diversas outras coisas.

Nesse cenário, podemos ver um aumento da taxa de juros longa, que é mais atrelada ao risco, como inflação, crises e outros aspectos, já que investidores exigem maior retorno no juros para deixar de investir em outros tipos de ativos.

Riscos da reflação

Com o entendimento de reflação, agora é necessário avaliar quais os riscos para o mundo. O principal risco é a necessidade de elevação da taxa de juros com inflação e desemprego. Como visto anteriormente, todo esse cenário de pandemia levou à inflação devido à escassez de produtos. Além disso, houve uma redução de empregos devido à falta de capacidade de trabalhar e falta de vontade de trabalhar.

O primeiro ponto é devido às restrições da pandemia e ao fechamento de várias empresas por falta de recursos. O segundo acontece principalmente nos Estados Unidos, onde o alto valor do auxílio ($1400), várias pessoas optam por parar de trabalhar para receber esse auxílio, elevando o salário e podendo aumentar a inflação.

Ou seja, no cenário de hoje há crescimento com alta inflação e alto desemprego, o que vem preocupando os economistas e investidores ao redor do mundo já que aumenta a probabilidade de aumento da taxa de juros mesmo sem ter uma economia saudável.

Ainda há outra preocupação com a taxa de juros, os governos, para financiar os estímulos monetários, precisaram contrair mais dívida, que com juros mais baixos é um problema menor, já que há maior capacidade de pagamento.

Com o aumento da taxa de juros, o valor da dívida do país aumenta, já que o custo de contrair novas dívidas é maior, colocando os países em uma situação complicada. Por fim, como diria Milton FriedmanNão há nada mais permanente que uma política temporária”. Com a população se acostumando a receber mais benefícios com a pandemia, será difícil convencer a população a abrir mão de mais auxílios e voltar ao mercado de trabalho.

Reflação para emergentes

Como vemos, há um problema global em relação a uma possível reflação, por isso é importante entender como isso pode afetar diferentemente países emergentes e países desenvolvidos.

Temos hoje países emergentes têm parte de sua dívida em dólar, em cenários de crise, há uma fuga de capitais para moedas mais seguras, como o próprio dólar, fazendo com que a moeda de países emergentes se desvalorize, com a desvalorização da moeda, a dívida aumenta.

Ainda, vemos que países emergentes costumam ter uma taxa de juros maior que países desenvolvidos, o que também aumenta o custo da dívida. Por fim, vemos que países emergentes têm situação fiscal mais complicada, o que dificulta a utilização de estímulos fiscais.

No Brasil, vimos a dificuldade em aprovar o orçamento deste ano devido a enorme quantidade de gastos pelo estado. No âmbito monetário, vimos como o Brasil deve aumentar o juros para não deixar o câmbio desregulado com um valor muito acima do equilíbrio, já que isso também pode trazer inflação.

Considerações finais

Deste modo, vemos que a reflação é um tema que deve ser recorrente ao longo deste ano, já que há risco do desemprego e inflação ficarem altos e com necessidade de aumento da taxa de juros. Além disso, é importante ficar de olho na política usada pelos países, observando como a inflação, dívida, crescimento e desemprego estarão ao longo do ano.

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Bruno Suslik
Bruno Suslik
Estagiário TC Matrix Macro.
Cursando Economia no Insper.

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