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Efeito janeiro: o que é?

09/02/2021 às 13:04

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Você sabe o que é o efeito janeiro e como ele influencia os preços das ações ao longo do tempo? Para responder a essa pergunta, revisamos alguns artigos sobre o assunto. Dessa forma, para explorar esse tema, abordaremos os seguintes tópicos:

  • O que é o efeito janeiro?
  • Possíveis motivos que explicam o efeito janeiro
  • Evidências internacional
  • E no Brasil?
  • O que as pesquisas mostram?
  • Considerações finais

Boa leitura!

O que é o efeito janeiro?

O “efeito janeiro” é entendido como um movimento sazonal de mercado que vem sendo estudado há várias décadas e acabou sendo conhecido por ser um mês que historicamente apresenta rentabilidade anormal positiva quando comparado com outros meses do ano.

Diversos estudos já foram feitos em diferentes mercados de ações e ativos ao longo do tempo, onde se comprovou essa anomalia. No entanto, os resultados têm divergido nos últimos anos dependendo do mercado analisado e do período de análise.

Nesse sentido, o efeito janeiro, assim como outras discrepâncias do mercado de capitais, se alicerça junto aos que são a favor dos que acreditam que os mercados são ineficientes, dado que, com a eficiência de mercado, isso não poderia ocorrer.

Possíveis motivos para o efeito janeiro

Segundo Perez, Gerardo (2018), existem quatro principais explicações utilizadas pelos pesquisadores para justificar o efeito janeiro:

Razão fiscal

Uma das justificativas aceitáveis frequentemente mencionadas para o fenômeno nos Estados Unidos é o efeito do imposto de renda federal (Jones, 1989), com a literatura acadêmica existente sustentando que não houve o tal do efeito janeiro antes da introdução do imposto de renda federal.

Deve-se notar que há menos concordância sobre a existência do efeito janeiro para alguns dos anos logo após a introdução do imposto de renda federal. Relacionados a questões fiscais, outros autores descobriram que não houve impacto óbvio no efeito janeiro por algumas grandes reformas tributárias, como por exemplo a Lei de Reforma de 1986 (Haug, 2006). Por outro lado, motivos fiscais (Honghui, 2004) estão entre as mais recorrentes explicações para o efeito janeiro.

Viés comportamental

Fatores psicológicos também são frequentemente utilizados com o intuito de explicar o efeito janeiro (Anderson, 2007). Alguns autores, como Ciccone (2011), trazem como justificativa o fato do ano novo ser um período de renovação do otimismo e que esse estado emocional provavelmente também se espalha para o mercado de ações. Esta é claramente uma explicação não relacionada a fundamentos do mercado, mas sim à área de finanças comportamentais.

Ciccone (2011) fornece alguns dados quantitativos para este ponto de análise. Por exemplo, os autores mencionaram que o Índice de Confiança do Consumidor da Universidade de Michigan tende a atingir o pico em janeiro, que é usado neste artigo como um proxy para o otimismo dos investidores.

Decoração de janela

Já outros autores defendem o window dressing effect, como uma das explicações para justificar o efeito janeiro (Haugen, 1988), (Klock, 2014). Nesse contexto, explicam que os gestores de fundos tentarão fazer com que as suas carteiras de ativos tenham a melhor aparência possível até o final do ano.

Dessa forma, fazem vendas das ações perdedoras no final do ano, mantendo aquelas que tiveram um forte desempenho. Os fundos que foram obtidos com essas ações são então reinvestidos em janeiro em ações mais especulativas na tentativa de obter performances fortes. Essa entrada de recursos em janeiro vai empurrar os preços para cima, gerando retornos no mês de janeiro maior que o convencional.

Presentes

Outra explicação para o efeito janeiro, postulada por (Gamble, 1993), sugere que o fenômeno é causado por presentes, tipicamente para investidores mais jovens, durante o final de ano e as festas de Natal. A ideia é que alguns dos presentes em dinheiro sejam investidos no mercado de ações. O autor ainda sugere que os investidores mais velhos tendem a possuir empresas estáveis ​​e bem capitalizadas (value) e vendem uma fração dessas participações no final do ano para liberar fundos para presentes.

Segundo o autor, essas grandes empresas estáveis ​​são apenas moderadamente impactadas por essa venda já que são bem mais líquidas e com capitalização de mercado grande o suficiente para que não sejam impactadas de forma acentuada. No entanto, os jovens investidores tendem a ter viés mais especulativos, favorecendo empresas menores. As compras desses nomes provavelmente empurram os preços para cima devido à sua liquidez relativamente menor, levando o mercado para cima.

Como isso é medido?

Basicamente, esses estudos utilizam de técnicas de econometria e estatísticas para verificar se existe diferença estatística nos retornos das ações no decorrer dos meses em relação a janeiro. Ou seja, os pesquisadores buscam medir a diferença estatística entre os retornos dos ativos em janeiro usando uma amostra histórica como parâmetro, por exemplo. No entanto, vários métodos econométricos distintos foram usados para tentar identificar esse fenômeno com mais robustez.

Efeito janeiro: evidências internacionais

Ainda em Perez, Gerardo (2017), foi feito uma análise abordando o comportamento do efeito janeiro de forma sistemática e global ao longo do tempo. A análise é feita em diversas bolsas mundiais, utilizando-se 106 índices internacionais em 86 países e jurisdições.

Observou-se que embora esse efeito de fim de ano ainda possa ser observado em alguns mercados, parece que está diminuindo globalmente ao longo do tempo. Também foi descoberto que parece haver um efeito de janeiro invertido em vários mercados com os retornos em janeiro sendo menores do que os retornos em alguns outros meses. Esta análise foi realizada com testes não paramétricos. A hipótese de que os retornos dos índices não seguem, em geral, uma normalidade da distribuição também foi confirmada com vários outros estudos.

Nesse contexto, foi constatado que a um nível de confiança de 5% e de acordo com os resultados do teste de Kruskal-Wallis 85,8% dos índices, utilizando todo o conjunto de dados disponíveis, os retornos para todos os 12 meses do ano vieram da mesma distribuição.

Quando todo o comprimento da série temporal é usada, mas aqueles índices com menos de 15 anos de dados são excluídos, então em 85,6% dos casos os dados vêm da mesma distribuição. Já quando apenas os dados dos últimos 15 anos são usados ​​e índices com menos do que aqueles 15 anos de retornos são incluídos na análise, então 93,3% dos casos parecem vir da mesma distribuição, apoiando a ideia de que o efeito janeiro está aparentemente se dissipando com o tempo.

O autor também chama a atenção pelo fato do teste não comparar especificamente o desempenho em janeiro com o desempenho nos demais meses do ano. O teste analisa os retornos em todos aqueles meses em sua totalidade. Por fim, o autor também chama atenção para um efeito janeiro “inverso”, como é o caso da Estônia, onde se percebeu uma queda na cotação das ações nos meses de janeiro.

Efeito janeiro no Brasil

Os resultados encontrados no país por Potin, Silas Adolfo (2015) evidenciam a existência do efeito janeiro nas ações de empresas brasileiras da Bovespa e, com maior intensidade quando o retorno negativo em dezembro era maior, consistentemente com a hipótese de gestão tributária dos ganhos de capital.

Em contraponto, os resultados também sugerem a não ocorrência do efeito janeiro nas ADR’s brasileiras da Bolsa de Nova York (NYSE). Nesse contexto, estas empresas apresentam, em geral, maior valor de mercado. A única evidência relatada sobre o “efeito janeiro” no mercado de ações brasileiro por Torres, Bonomo e Fernandes (2002), é contraditória. Os autores lidam com um fato estilizado dessa anomalia, que é a sua incidência em ações de pequeno valor de mercado, conforme inicialmente apontado por Keim (1983) e confirmado em outros estudos contemporâneos e posteriores.

Uma possível explicação para o resultado de Torres, Bonomo e Fernandes (2002) decorreria de o mercado de capitais brasileiro ser pequeno e aberto, tornando possível que o efeito janeiro em ações de empresas maiores se desse por gerenciamento tributário de agentes estrangeiros.

No entanto, o resultado obtido neste trabalho de que o efeito janeiro não está associado a empresas que possuem ADR (empresas de maior tamanho) está alinhado com essa evidência internacional e é incompatível com a gestão tributária de agentes estrangeiros. Já quando são tomadas empresas comparáveis à aquelas com ADR, pelo setor e pelo tamanho, também não se observa o efeito janeiro, confirmando sua relação com ações de empresas de menor valor.

Considerações finais

Consideramos o assunto bastante relevante, em especial para quem está iniciando no mundo da renda variável. É importante deixar claro que o artigo não teve a pretensão de esgotar o debate sobre o tema, e que existem outras dezenas de artigos tratando o assunto com outras métricas e perspectivas.

Além disso, existem outras nuances que também não foram amplamente abordadas no texto, como o fato do efeito janeiro ocorrer em alguns países e outros não, a capitalização de mercado afetar o efeito janeiro e existirem outros meses em que vemos retornos estatisticamente relevantes, como setembro. Dessa forma, o objetivo era informar do que o efeito janeiro se trata e como a academia pode nos ensinar e esclarecer sobre o tema.

Para aprofundar-se sobre o assunto, recomendamos a leitura de nossos artigos sobre análise fundamentalista, economia e investimentos.

Referências

THALER, Richard H. Anomalies: the January effect. Journal of economic perspectives, v. 1, n. 1, p. 197-201, 1987.
HAUG, Mark; HIRSCHEY, Mark. The january effect. Financial Analysts Journal, v. 62, n. 5, p. 78-88, 2006.
PEREZ, Gerardo et al. Does the January Effect Still Exists?. International Journal of Financial Research, v. 9, n. 1, p. 50-73, 2018.
FOLLIOTT, Tyler. The January effect: a global perspective. 2007. Tese de Doutorado. Faculty of Business Administration-Simon Fraser University.
POTIN, Silas Adolfo et al. Efeito janeiro nas ações e ADRs de empresas brasileiras após o início da tributação de ganhos de capital. REAd. Revista Eletrônica de Administração (Porto Alegre), v. 21, n. 2, p. 320-347, 2015.

Natanael Liberalino
Natanael Liberalino
Certificado de Especialista em Investimentos – CEA/ANBIMA
Estudante de Economia

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