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Economia, finanças e contabilidade comportamental: Afinal, do que se trata?

25/08/2021 às 10:14

TC School

Neste texto você entenderá o que é economia comportamental, finanças comportamentais e contabilidade comportamental.

Ao analisarmos como as pessoas tomam decisões, é possível identificar como os fatores comportamentais influenciam em tomadas de decisões. Ou seja, nossas escolhas são pautadas em fazer escolhas entre alternativas que sejam consideradas como plausíveis ou desejáveis para cumprir com a utilidade daquela escolha.

Nesse sentido, a tomada de decisão é complexa e multidisciplinar quanto à sua investigação de como ocorre, partido de uma perspectiva mais matemática até uma abordagem de caráter mais psicológico e cognitivo.

Embora ainda não se tenha definido perfeitamente como as decisões são tomadas e o que afeta a decisão, o estudo deste tópico não é tão recente. Para facilitar os estudos, dividimos o artigo nos seguintes tópicos:

  • A subjetividade nas escolhas
  • O que é Economia Comportamental
  • O que são Finanças Comportamentais
  • O que é Contabilidade comportamental
  • Qual a diferença prática e delimitação entre elas

Boa leitura!

A subjetividade nas escolhas

Em uma das tantas revisões disponíveis sobre como as pessoas tomam suas decisões, Edwards (1954) aborda que a partir do desenvolvimento de teorias baseadas em modelos matemáticos sobre como os indivíduos tomam decisões, o ponto central já trazia consigo uma discussão sobre como a subjetividade dos valores e utilidades afetavam a escolha de cada pessoa.

Inicialmente, a modelagem das escolhas era feita como se quem as tomasse fossem indivíduos plenamente racionais do ponto de vista de escolher, diante de um cenário em que suas preferências são transitórias, aquela decisão que maximiza a utilidade ou atinge a utilidade esperada.

Contudo, o desenvolvimento das teorias da decisão convergiram para uma crítica sobre a discussão inicial de uma maneira puramente racional, e passou a evidenciar como a realidade por trás das decisões é repleta de atalhos cognitivos, migrando para disposições em que há pelo menos dois sistemas que direcionam para a tomada de decisão racional ou baseada na intuição para o processamento das informações e consequente escolha/decisão, ou ainda baseado em limites (CURLEY et al., 2019).

De toda forma, há de se considerar que uma vez que decisões sejam tomadas por indivíduos que não tem racionalidade ilimitada (diferente de irracionalidade) sobre todos os eventos que são inerentes a sua decisão.

Portanto, compreender o comportamento no aspecto sociológico, biológico, cultural, antropológico, psicológico e neurológico, dos processos inerentes ao fazer escolhas pode esclarecer a sua influência na decisão tomada.

Economia comportamental

Ao estabelecer que há uma “economia comportamental” procura-se segregar o pensamento econômico. Para descrever o que seria a vertente comportamental da economia, Jhon Tomer (2012) efetua comparações entre o que seriam características relacionadas ao pensamento comportamental e ao pensamento da ‘economia mainstream’.

O autor utiliza algumas dimensões para caracterizar o que seria o pensamento ‘mainstream’ mais restritivo, e a partir disso estabelecer o que seria diferente para a economia comportamental.

De forma geral, é possível identificar que a perspectiva comportamental da economia possui algumas bases sólidas. Inicialmente, é possível destacar Herbert Simon, que difundiu a ideia, muito criticada inicialmente, de que os indivíduos detêm racionalidade limitada.

Aspectos psicológicos

Recebendo contribuições posteriores, as limitações de racionalidade incorporaram-se a outros aspectos psicológicos que tinham como reflexo a ocorrência de desvios ao comportamento que seguiria a decisão economicamente racional. Amos Tversky, Daniel Kahneman, Dan Ariely e Richard Thaler são exemplo de autores que defendem esta perspectiva mais psicológica que tem sido reconhecida e premiada desde Herbert Simon.

Sendo assim, a conceituação discutida por Colin Camerer e George Lowenstein (2003) torna possível uma descrição conceitual da economia comportamental como um tratamento metodologicamente eclético para incorporar fundamentos psicológicos mais realísticos. O intuito é melhorar o poder explicativo da economia, partindo do campo da pesquisa sobre o comportamento das decisões, como um sub tópico da psicologia. Dessa forma, classificam que as decisões são tomadas baseadas em julgamento e escolha.

Esta visão tem prevalecido, de forma que Erick Angner (2019), no trabalho intitulado “Somos todos economistas comportamentais agora”, aborda que as críticas anteriores (assim como relatadas por Herbert Simon) tem sido superadas, não havendo mais tanta dissonância e ficando cada vez mais incorporados à teoria ‘mainstream’.

Thaler (2016) reafirma até mesmo que Economia Comportamental chega a ser um pleonasmo, em especial após as experimentações de Amos Tversky e Daniel Kahneman indicarem que os julgamentos humanos são sistematicamente viesados.

Os vieses cognitivos

Nesta perspectiva psicológica, muito se tem sido investigado, e há uma lista enorme de, pelo menos, 188 vieses cognitivos, organizadas por John Manoogian III que resumem quatro características inerentes a decisão:

  1. A quantidade de informação que direciona a decisão baseada em coisas já presentes na memória dos indivíduos ou que acontecem frequentemente, violando a racionalidade para decidir independentemente;
  2. A tendência de buscar por aspectos relevantes e informações que fundamente a decisão quando se olha para um conjunto de informações soltas;
  3. A necessidade de agir rápido para decidir que direciona para opções que pareçam simplificadas ao mesmo tempo que contenham informações suficientes em vez de avaliar o conjunto de opções em função da complexidade e ambiguidade que pode ocorrer; e, por fim
  4. As vivências do indivíduo fazem com que as memórias sejam armazenadas de formas diferentes, de acordo como cada situação vivenciada.

Sendo que estas perspectivas tem desdobrado novos tópicos de estudo na medida em que são aplicados os aspectos psicológicos com as decisões tomadas, como é o caso das finanças comportamentais e contabilidade comportamental.

Finanças Comportamentais

Pode não ser muito prático estabelecer uma definição para Finanças comportamentais e segrega-la da economia comportamental. De modo geral, as finanças comportamentais compreendem aplicações de características do comportamento do indivíduo diante de tomada de decisão de caráter financeiro, ou no mercado financeiro.

Portanto, as finanças comportamentais compreendem aspectos relacionados a eficiência de mercado (a ausência dela de forma perfeita), as escolhas de investimento, as decisões em relação ao risco e incerteza dos investimentos, escolhas correlatas ao planejamento da aposentadoria, e até mesmo decisões gerenciais que envolvem aspectos financeiros nas empresas.

Contudo, as finanças comportamentais são mais restritas que a economia comportamental propriamente. Costa, Carvalho e Moreira (2019) analisam 2.617 pesquisas e demonstram o quanto estes tópicos têm sido explorados ao longo do tempo. E dentro do rol de pesquisas envolvendo aspectos financeiros estão as pesquisas que envolvem aspectos contábeis, denominando muitas vezes de contabilidade comportamental.

Contabilidade Comportamental

Andreas Hellman (2016) argumenta um claro elo entre comportamento, finanças e contabilidade baseando-se na utilidade das informações contábeis para as decisões pelos relatórios serem a fonte de informações sobre as atividades desempenhadas, definindo o papel da contabilidade nas finanças comportamentais em três tópicos:

  1. O papel de quem define os padrões contábeis a serem utilizados;
  2. O papel de quem prepara as demonstrações e informações contábeis a serem disponibilizadas aos usuários; e
  3. O papel de auditores e órgãos fiscalizadores.

Os aspectos de definições de padrão compreendem o lobby realizado por players afetados por mudanças nos padrões adotados, presença de assuntos potencialmente controversos e até mesmo problemas relacionados a tradução do inglês para o idioma nativo de cada país.

Já o caso dos preparadores inclui a necessidade de julgamento para diversos itens que serão divulgados e interpretados por usuários, inclui também julgamento relacionados a subjetividade de probabilidade, mudanças de forma em relação a como a informação é divulgada visualmente, estimativas relacionadas ao resultado e questões relacionadas ao design e cores escolhidas para as divulgações.

Por fim, os auditores e órgão de fiscalização tem no próprio exercício da tarefa a realização de julgamentos que podem ser influenciados pela experiência, monitoramento, cultura, enforcement, pressão para decidir e iminente uso de heurísticas para tomar decisão.

Qual a diferença prática e delimitação entre elas?

É difícil elencar pontos delimitadores entre os três conceitos tendo em vista que sua aplicabilidade é concomitante, onipresente até quando não considerados, e se tratam de tópicos e sub tópicos derivados da inclusão de perspectivas das ciências do comportamento para entender como as pessoas tomam decisões, nesse sentido outras conceptualizações como Neuro-behavioral Economics também são possíveis para se referir a aspectos comportamentais em cada um destes tópicos.

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Referências

ANGNER, Erik. We’re all behavioral economists now. Journal of Economic Methodology, v. 26, n. 3, p. 195-207, 2019.

CAMERER, Colin F.; LOEWENSTEIN, George. Behavioral economics: past, present, future. In: Advances in Behavioral Economics, Princeton, Princeton University Press. Chang, H.(2000).‘A Liberal Theory of Social Welfare: Fairness, Utility, and the Pareto Principle’, Yale Law Review. 2003.

COSTA, D. F.; CARVALHO, F. de M.; MOREIRA, B. C. de M. Behavioral economics and behavioral finance: a bibliometric analysis of the scientific fields. Journal of Economic Surveys, v. 33, n. 1, p. 3-24, 2019.

CURLEY, Lee J. et al. Decision science: a new hope. Psychological reports, v. 122, n. 6, p. 2417-2439, 2019.

EDWARDS, Ward. The theory of decision making. Psychological bulletin, v. 51, n. 4, p. 380, 1954.

THALER, Richard H. Behavioral economics: Past, present, and future. American Economic Review, v. 106, n. 7, p. 1577-1600, 2016.

TOMER, John F. What is behavioral economics?. The Journal of Socio-Economics, v. 36, n. 3, p. 463-479, 2007.

José Mauro Madeiros Velôso Soares
José Mauro Madeiros Velôso Soares
Professor de Contabilidade, Contador e Doutorando em Ciências Contábeis pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

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