O efeito do rodízio de auditoria na consistência dos relatórios financeiros

TC School / Governança corporativa

O efeito do rodízio de auditoria na consistência dos relatórios financeiros

21/10/2021 às 16:33

TC School

O escândalo corporativo que chocou o mundo no caso da Enron nos deu uma amostra dos problemas de independência que existem na relação entre auditor e auditada.

Fatos como estes podem ocasionar uma grave queda de reputação e até mesmo na extinção da participação no mercado. Ou seja, é possível até decretar a falência de grandes empresas de auditoria como aconteceu com a Arthur Andersen.

Dessa forma, órgãos reguladores se debruçaram sobre esse conflito buscando soluções. Entre as saídas encontradas para aumentar a independência dessa relação está o rodízio obrigatório de firmas e de sócios de auditoria. É esse o tema que iremos discorrer no artigo de hoje.

Para facilitar a compreensão, desmembrei o texto nos seguintes assuntos: 

  • O papel da auditoria externa
  • Objetivo do rodízio de auditoria
  • Tipos de rodízio
  • Estudos sobre o rodízio de auditoria
  • Conclusão

Boa leitura!

O papel da auditoria externa

O principal papel do auditor externo está em trazer credibilidade às informações prestadas pelas companhias listadas em bolsa sobre o seu desempenho econômico e financeiro, aumentando o grau de confiança por parte dos seus usuários. 

Dessa forma, é possível reduzir o risco informacional (Lu & Sivaramakrishnan, 2009) e contribuir para uma melhor tomada de decisão na alocação de capital em economias de mercado.

Contudo, é importante ressaltar que, segundo a NBC TA 200, a opinião do auditor não assegura, por exemplo, a viabilidade futura da companhia e nem sua eficiência ou eficácia com a qual a administração tem conduzido os negócios da entidade. 

Um dos aspectos que está diretamente relacionado com a qualidade dos serviços prestados pelos auditores externos é a sua independência em relação à companhia auditada (DeAngelo, 1981).

Raiborn, Schorg e Massoud (2006) ainda ressaltam que não existindo independência na relação auditor e empresa auditada, a finalidade da auditoria seria comprometida e a função do auditor se tornaria irrelevante para o mercado.

Objetivo do rodízio de auditoria

O rodízio obrigatório das empresas de auditoria tem como objetivo garantir a independência do auditor. Assim, reduzindo a pressão dos clientes em relacionamentos de longo prazo.

Segundo a SEC (Securities and Exchange Commission), a obrigação do rodízio de auditores poderia gerar uma melhor análise das demonstrações financeiras. Isso aumenta a independência da auditoria e ainda a qualidade dos serviços prestados para os agentes interessados.

Dessa forma, para manter a objetividade e a independência necessárias para o exercício da profissão, a atuação do auditor externo sofre algumas restrições conforme normas em vigor (Instrução CVM 308/99). Destas, podemos destacar o rodízio de auditorias.

A Instrução CVM 509/11 alterou alguns artigos da Instrução 308/99 relativos à rotatividade das empresas de auditoria. Portanto, para permanecer com a mesma empresa de auditoria por um prazo de dez anos – antes o prazo era de cinco anos consecutivos – a empresa auditada deve dispor de um Comitê de Auditoria Estatutária (CAE).

Tipos de rodízio de auditoria

Existem dois tipos de rodízio:

  1. Rodízio de firmas de auditorias; e
  2. Rodízio de sócios auditores. 

O rodízio de firmas de auditoria é caracterizado pela ruptura do relacionamento comercial e profissional de uma firma de auditoria com a empresa auditada.

Já o rodízio de sócios auditores visa diversificar os profissionais que desenvolvem as atividades de auditoria sem, entretanto, romper o relacionamento comercial com a empresa de auditoria. 

A premissa básica do rodízio é de que os relacionamentos de longo prazo entre auditor e auditada colocam em risco a objetividade no processo de auditoria. O argumento é que um relacionamento muito próximo entre auditores e empresas auditadas pode tornar os resultados da auditoria confortáveis e viciados.

Dessa forma, limitando-se a estabilidade do auditor a um número fixo de anos. Estes, teriam maiores incentivos a resistir às pressões dos administradores (OLIVEIRA, 2005).

Estudos sobre o rodízio na auditoria

Esse é um assunto que possui muitas discussões no mercado e diversas ramificações de pesquisas.

Geralmente, os resultados dessas pesquisas são conflitantes e não são unânimes em sustentar a necessidade do rodízio obrigatório. Principalmente quando se trata da qualidade da informação financeira e a tenure da firma e dos auditores.

Johnson et al. (2002) coletaram dados de dez anos em companhias dos Estados Unidos e encontraram que a maior tenure não prejudica a qualidade dos relatórios financeiros de auditoria, medida pelos accruals passíveis de serem gerenciados e pela persistência do lucro.

Os autores dividiram a tenure por ano, considerando o período curto de 2 a 3 anos, o médio de 4 a 8 anos e o longo acima de 9 anos.

Resultados do rodízio de auditoria

As duas medidas de qualidade encontradas foram maiores para o período médio em relação ao curto. Entretanto, no longo não foi significativo. Ou seja, quando a relação é muito curta, a qualidade do lucro tende a decrescer comparado a uma relação mais longa.

Entretanto, uma relação muito longa entre auditor e empresa auditada também não acrescenta qualidade no lucro em relação ao período médio.

Myers et al. (2003), utilizaram como medida de qualidade do lucro o gerenciamento de resultados calculado pelo modelo de Jones e os accruals absolutos correntes. 

Eles apontaram que relacionamentos mais longos com os auditores aumentam as restrições das firmas por práticas extremas de gestão. Dessa forma, diminui a utilização de accruals discricionários, principalmente nos extremos da distribuição.

Já a pesquisa de Li (2010) vai no sentido contrário. Ele evidenciou uma relação positiva para grandes firmas que são monitoradas constantemente. Contudo, para empresas pequenas e sem monitoramento no mercado, houve uma relação negativa entre a tenure do sócio de auditoria e o conservadorismo contábil.

Por outro lado, Chi et al. (2011) encontraram uma relação positiva entre a permanência do auditor sócio e o gerenciamento de resultados por operações, além da relação negativa entre a permanência do sócio de auditoria com o gerenciamento por accruals.

Os autores constataram que os gestores recorrem ao gerenciamento operacional diante da impossibilidade de gerenciar resultados por accruals.

Gerenciamento por operações

Ainda é importante destacar que essa situação pode se tornar um problema para os agentes da informação financeira. Isso porque o gerenciamento por operações costuma ser mais persistente do que a manipulação por accruals, podendo afetar a performance operacional da empresa.

Contudo, três estudos se destacam dos demais por analisarem diretamente essa característica qualitativa de melhoria.

O primeiro deles mostrou que, quando as empresa são auditadas por firmas do grupo Big 4 (EY, Deloitte, PWC e KPMG), elas apresentam demonstrações contábeis mais comparáveis em relação as empresas que são auditadas por firmas menor porte.

Já o segundo estudo, de Li et al. (2017), colaborou na compreensão de que sócios podem fazer a diferença na forma como as empresas reconhecem e mensuram seus eventos econômicos, mesmo em firmas de auditoria com opiniões institucionalizadas.

Por fim, o terceiro estudo, de Zhang (2018), mostrou que a comparabilidade está associada à menor probabilidade de erro de opinião do auditor, assim como ao menor esforço por parte do auditor no êxito do seu trabalho.

Portanto, diante dos três trabalhos, é possível concluir que a comparabilidade pode apresentar uma relação significativa com o porte da firma de auditoria e com o engajamento do sócio no trabalho. Isso pode influenciar no risco de auditoria, além do planejamento dos trabalhos do sócio de auditoria (Francis et al., 2014; Li et al., 2017; Zhang, 2018). 

Conclusão

Portanto, o rodízio obrigatório e a troca voluntária das firmas de auditoria não estão, necessariamente, relacionados com o nível de comparabilidade e de consistência dos relatórios financeiros. Mesmo quando acontece a troca no usuário que verifica a autenticidade, não existe uma mudança na interpretação do processo contábil.

Podemos afirmar que o rodízio obrigatório das firmas de auditoria até pode ser necessário e benéfico para os investidores.

Contudo, os resultados sugerem que o rodízio não está relacionado com a comparabilidade e com a consistência dos relatórios financeiros.

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Referências

SOUSA, A. M. DE; RIBEIRO, A. M.; VICENTE, E. F. R. The impact of audit rotation on the comparability of financial reports,. Revista Contabilidade & Finanças, v. 32, n. 87, p. 413–428, dez. 2021.

‌LINS, LUIZ DOS SANTOS. Auditoria: uma abordagem prática com ênfase na auditoria externa. 4ª ed. São Paulo. Atlas, 2017.

Lincoln Silva
Lincoln Silva, CRC
Investidor em renda variável e analista de conteúdo do TC School.
Bacharel em Ciências Contábeis na UFRJ.

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