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Filme “Margin Call: O Dia Antes do Fim” – Resenha crítica

16/07/2021 às 14:01

TC School

O filme Margin Call: O Dia Antes do Fim (“chamada de margem”, na tradução livre), é um dos “clássicos” que buscaram explorar os acontecimentos da Grande Crise Financeira (GFC) de 2007-08. 

O grande diferencial desse filme, para mim, é que em comparação com os demais filmes dessa temática — a Grande Crise Financeira entre 2007 e 2008, ele busca passar uma visão detrás das colcheias – das pessoas que causaram a crise – ao invés de buscar explicar/demonstrar suas consequências.

Não é atoa que ele está entre as primeiras colocações de rankings espalhados por toda internet, além de possuir uma nota de 7.1/10 no IMDb. 

Para facilitar a leitura, separamos a resenha do filme nos seguintes tópicos:

  • Margin Call: sobre a obra
  • Pendrive
  • “The music, so to speak, it’s just slowing…”
  • “Be first, be smarter or cheat”
  • Vale a pena assistir?

margin call

Margin Call: O Dia Antes do Fim

Sobre a obra

O filme “Margin Call: O Dia Antes do Fim” possui aspectos fictícios (como personagens e o próprio banco), porém, o contexto é baseado no banco americano Lehman Brothers – o qual acabou sendo comprado pelo banco Barclays no mesmo ano.

A longa metragem acontece num período de 12h intensos, nos quais é descoberto pelo head de risk management, Eric Dale (Stanley Tucci), que o banco corre sérios riscos de solvência e que as próximas horas serão decisivas para o futuro de suas operações.

Como sabemos, 2007 e 2008 foram anos marcados por uma das maiores crises financeiras da história, causada principalmente por ativos lastreados ao mercado imobiliário.

Apesar do mundo inteiro ter sentido – e sente até hoje – suas consequências, seu foco foi no mercado americano.

No entanto, a obra vai em outra direção – ela explora o “behind the scenes” das pessoas que primeiro souberam do quão alavancados os bancos, de forma geral, estavam em ativos imobiliários (mortgage backed securities), e dos potenciais catastróficos à economia como um todo, aquilo poderia causar.

Assim, a obra busca focar nas pessoas da mais alta cúpula, envolvidas diretamente com a crise e seus respectivos pensamentos e decisões tomadas diante daquela situação.

Nesse momento, entram em cena – ou não – a ética, moral e os valores dessas pessoas. Assim, para mim, esse é o ponto forte do filme, pois se você for assistir pela primeira vez, sem ter noção do que foi e de como se desenrolou a GFC, muito provavelmente achará o filme “Margin Call: O Dia Antes do Fim” um pouco superficial em termos explicativos.

Pendrive

A situação dos bancos já não estava boa muito antes do fundo do poço da crise, em março de 2009. Assim, o filme começa com uma leva de funcionários sendo despedidos e um deles é o head de risk management do banco, Eric Dale, interpretado por Stanley Tucci.

Mesmo após ter trabalho na instituição por 19 anos, Eric é mandado embora às pressas, tendo que deixar seu escritório imediatamente.

Pouco antes de deixar o prédio, Eric pede para que seu assistente, Peter Sullivan (Zachary Quinto), dê uma olhada no material que ele estava analisando, pois, apesar de sua análise não estar completa, aquilo valia a pena dar uma “olhada”. Assim, Eric entrega um pendrive a Peter, o qual vai analisar tarde da noite daquele dia.

Como dito anteriormente, o filme é pouco explicativo em quesitos técnicos sobre o que está acontecendo, apenas é “jogado” ao espectador que os modelos de risco do banco subestimaram a probabilidade de volatilidade no mercado, o que aumentaria consequentemente o VaR (“vetor de autoregressão”, em tradução livre) do banco – uma forma de mensurar o mínimo de risco possível, dado uma certa probabilidade, de perda. 

Após Peter comunicar seus superiores a respeito do seu achado, ele e seu amigo, Seth Bregman (Penn Badgley), são chamados a uma reunião com superiores, inclusive com o Conselho do banco. É a partir desse momento que a crítica a respeito da ética e do “moral hazard” é introduzida ao filme.

“The music, so to speak, it’s just slowing…”

Durante o período de topo dos índices de ações (ex: S&P500), o “combustível” do mercado era a pura especulação e confiança de que as mortgage-backed securities (MBS), ou títulos lastreados em hipotecas, nunca se desvalorizaram ou sofreriam de amplo risco de inadimplência, pois afinal, quem deixaria de pagar o aluguel?

Todos, desde investidores pessoa física até investidores institucionais, estavam “empelotados” desses ativos em carteira.

Exemplo disso é a alta alavancagem dos bancos Lehman Brothers e Merrill Lynch, os quais tiveram uma relação de ativos sobre capital próprio de cerca de 30 vezes (para fins de comparação, atualmente, o Itaú (ITUB4) tem esse ratio de ~13 vezes), sendo a maioria investido em MBS.

A verdade é que o mercado desconfiava, porém, que esses ativos já tinham rendido milhões de dólares de lucros e os bancos eram gananciosos demais para deixar a “roda gigante parar”, ou, “a música parar”.

“Be first, be smarter or cheat”

Quando questionado ao presidente do Conselho, John Tuld (Jeremy Irons), sobre o que seria feito a respeito dos ativos “tóxicos” – também conhecidos como “mortgage backed securities” (MBS) – ele não pensou duas vezes, e mandou que seu time de Sales&Trading vendesse toda a posição de MBS em apenas um dia (vale destacar que o ativo total do banco era de aproximadamente US$ 8 trilhões). 

Quando questionado pelo head de Sales&Trading, Tuld diz que só há três formas de sobreviver em Wall Street: (i) seja o primeiro; (ii) seja mais esperto; ou (iii) trapaceie.

Nesse momento, a estratégia do banco era vender antes de todo mundo, as MBS, sem importar a quem, apenas se livrar delas. Tuld foi questionado pelo head do Sales&Trading, Sam Rogers (Kevin Spacey), de que se ele vendesse esses ativos para outras pessoas, destruiria seu nome em Wall Street e nunca mais conseguiria vender nada.

Mesmo sabendo que aquilo era um ativo tóxico, sem valor, o banco começa a “despejar” os ativos no mercado (definição de moral hazard).

Percebe-se a diferença  ética e dos valores de cada personagem. Todos têm noção da magnitude e das consequências de suas atitudes, porém, ao final, todos tomaram a decisão que mais o convém financeiramente.

Margin Call

Para quem é esse filme?

Como dito anteriormente, na minha visão, o filme “Margin Call” não pretende explorar o conceito, o funcionamento, nem os impactos dos derivativos – como é o caso de Inside Job e The big short.

Portanto, se você estiver procurando por um filme para se aprofundar no assunto da Crise Financeira de 2008, esse não é o filme (na minha opinião). Por outro lado, se você já tem uma ideia do que foi e como se desenrolou essa crise, recomendo fortemente que assiste, pois assim, na visão do espectador, as decisões tomadas pelos personagens terão mais “peso”.

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Daniel Santos
Assistente do TradersClub
Bacharel em Ciências Contábeis pela UFRN. Ex-membro da Liga de Finanças e vencedor do 1º Campeonato de Análise Fundamentalista do TC.

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