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Clubes de futebol na Bolsa de valores

06/01/2021 às 15:00

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Você sabia que alguns clubes de futebol possuem ações listadas em bolsas mundiais, e é possível investir neles? No texto de hoje, exploramos esse universo de investimento em futebol por meio dos seguintes tópicos:

  • Esporte & negócios: uma relação nem sempre amistosa
  • Clubes de futebol na Bolsa de valores
  • Analisando um clube
  • Por que a ação de um clube se valoriza?
  • Esse é o caminho dos clubes brasileiros?

Boa leitura!

Clubes de futebol na bolsa de valores

Esporte & negócios: uma relação nem sempre amistosa

Os esportes estão inseridos em nossa sociedade desde os primórdios, Homero em 1200 A.C. mostra no Canto XXIII da Ilíada os Jogos Fúnebres (DUARTE, 2003). Desde então, os esportes se desenvolveram e deixaram de ser apenas uma diversão, tornando-se uma das grandes indústrias do mundo moderno. É possível enxergar esse fenômeno no crescimento de empresas cuja principal atividade está diretamente ligada ao esporte (no caso de clubes ou organizações esportivas) ou indiretamente, como é o caso da Nike e da Adidas, empresas que inicialmente vendiam apenas produtos para a prática esportiva.

Entretanto, nem sempre o dinheiro foi bem-vindo no meio esportivo. Foram travados diversos embates entre o grupo que desejava manter a “pureza” do esporte, coibindo veementemente o profissionalismo e a remuneração pela prática de esportes no geral, e as pessoas que defendiam a profissionalização e a remuneração dos atletas.

A profissionalização  dos esportes

A série “The English Game” (disponível na Netflix) retrata a história de Fergus Suter, primeiro jogador profissional de futebol no mundo a receber pagamentos escondidos. Isto porque até 1885 a Football Association (FA) não permitia profissionais na sua competição, a FA Cup, torneio que é disputado até hoje pelos maiores clubes ingleses.

A série evidencia claramente o debate entre a aristocracia que desejava proibir o profissionalismo visto que estes tinham um bom padrão de vida e poderiam se dar ao luxo de praticar o esporte ao invés de trabalhar, e o público em geral que não tinha opção a não ser competir com profissionalismo.

Contudo, para não nos restringirmos apenas ao futebol, vale lembrar que esse debate contra e a favor da profissionalização esteve presente em todos os esportes. No filme “Raça“, é contada a história de Jesse Owens, o corredor negro norte americano que venceu os 100 metros rasos nas olimpíadas de 1936 em Berlim na frente de Adolf Hitler, provocando um verdadeiro abalo na supremacia ariana defendida pelo regime nazista que estava no poder na época.

Jesse foi obrigado pelo presidente do Comitê Olímpico Americano, Avery Brundage, que viria a se tornar presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) a devolver o dinheiro recebido como ascensorista quando a notícia de que ele nunca tinha trabalhado no elevador se espalhou e que aquele dinheiro seria utilizado como um apoio financeiro para os treinamentos.

Valor de mercado dos clubes de futebol

Com o passar do tempo, tornou-se insustentável manter o caráter amador do esporte, o que permitiu o desenvolvimento da indústria esportiva como um todo. Abaixo, preparamos um gráfico colocando a evolução do valor de mercado dos dez clubes mais valiosos do mundo retirados a partir da lista da Forbes.

Podemos ver uma predominância dos clubes (ou melhor, franquias) dos Estados Unidos e das suas respectivas ligas nos mais diversos esportes: Basquete (NBA), Baseball (MLB) e Futebol Americano (NFL). Entretanto, não vamos nos aprofundar nessa discussão, essa primeira parte do texto foi uma contextualização geral do desenvolvimento da indústria do esporte.

Clubes de futebol na Bolsa de valores

Investimento em futebol

Você pode estar se perguntando: “Por que um clube de futebol optaria por se listar no mercado de capitais?”. A resposta é simples e a mesma de todas as outras companhias que optaram por esse caminho: captar recursos.

De acordo com Kesenne (2008), existem dois tipos de donos de clubes: os maximizadores de lucros e os maximizadores de vitórias. Saber em qual tipo se enquadra o dono do clube possibilitará uma ideia mais clara de onde os recursos que foram levantados serão aplicados.

Os maximizadores de lucros versus os maximizadores de vitórias

Os maximizadores de lucros (dirigem o clube para maximizar o retorno para o acionista) tendem a utilizar os recursos para promover uma reestruturação financeira do time. Por outro lado, os maximizadores de vitórias (dirigem o clube para maximizar o número de vitórias dado uma meta financeira pré-estabelecida) tendem a investir em ativos produtivos (centros de treinamento, estádios, jogadores). Sabemos que todos os torcedores preferem os maximizadores de vitórias, os Glazers, donos do Manchester United, são um dos exemplos que se encaixam no primeiro grupo e por isso são odiados por grande parte da torcida.

Existem estudos como o de Baur & McKeating (2011) que procuraram analisar o impacto da listagem dos clubes de futebol no desempenho dentro de campo e no valor de mercado dos clubes. Os resultados encontrados mostram que os efeitos nos dois âmbitos analisados são insignificantes, mas ressaltam os benefícios indiretos da listagem, como a disciplina financeira.

O primeiro clube de futebol a listar suas ações na bolsa foi o Tottenham Hotspur em 1982, mas em 2012 o clube optou por deslistar suas ações. Atualmente grandes clubes como Juventus, time do craque Cristiano Ronaldo, Manchester United, Borussia Dortmund e outros possuem ações listadas em bolsas mundiais.

Assim como existe um índice para medir a rentabilidade das empresas do setor financeiro no Brasil (IFNC), existe também um índice que acompanha as ações dos clubes de futebol europeus listados, o Stoxx Europe Football Index. Caso você queira analisar o comportamento geral das ações dos clubes de futebol como um todo, esse índice é uma alternativa interessante.

Analisando um clube de futebol

Como o foco desse texto é analisar os clubes de futebol publicamente listados, vamos trazer o exemplo do Manchester United (XNYS: MANU), tradicional clube de futebol inglês que possui ações listadas na New York Stock Exchange (NYSE).

Manchester United (NYSE)

Fonte: Google.

Primeiramente, quando estamos realizando uma análise fundamentalista, devemos buscar entender o modelo de negócio da empresa em questão; o site de relações com investidores é um ótimo lugar para encontrar essas informações.

Fontes de receitas do Manchester United

Analisando o Manchester United, podemos ver que a companhia divide sua atuação em três segmentos: Receitas de Transmissão, Receitas Comerciais e Receitas em Dias de Jogos.

  • Receitas de Transmissão (Broadcasting): É a receita obtida com os direitos de transmissão das competições que o clube participa (Premier League, Competições da UEFA). Além disso, também é contabilizada a receita obtida com canais de comunicação próprios do clube, como a MUTV e prêmios obtidos relativos a desempenhos em competições.
  • Receitas Comerciais (Commercial): Corresponde à receita obtida com patrocínios, venda de produtos e licenciamento da marca para terceiros. É o segmento que mais se expandiu nos últimos 10 anos.
  • Receitas em Dias de Jogos (Matchday): O nome é autoexplicativo, corresponde às receitas obtidas em dias de jogos, como venda de ingressos, tickets de estacionamento, comidas dentro e nos arredores do estádio.
Receitas do Manchester United

Fonte: Site de relações com investidores do Manchester United.

Analisando a composição da receita, vemos que a receita do clube em dias de jogos permaneceu praticamente a mesma de 10 anos atrás. Enquanto isso, as receitas comerciais deram um salto, tornando-se o segmento de maior importância da empresa.

Além da análise do modelo de negócio, é preciso conhecer detalhes mais profundos para tomar uma decisão de investir ou não em certa companhia, mesmo que essa empresa seja o seu time de coração! Já imaginou passar raiva duas vezes, uma com seu time perdendo todas no campo e outra com as ações dele despencando e você perdendo dinheiro porque deixou a emoção palpitar nos seus investimentos? Seria uma dor de cabeça daquelas.

Formulário 20-F

Como o Manchester United possui ações listadas na NYSE, indico a utilização do Formulário 20-F, semelhante ao Formulário de Referência que as empresas brasileiras são obrigadas a manter atualizado.

Formulário 20-F do Manchester United

Fonte: 20-F Manchester United.

Fãs e seguidores do Manchester United (MANU)

Analisando esse documento, você poderia saber a quantidade de fãs e seguidores que o Manchester United tem (ou pelo menos os dados que utilizaram indicam que tem). De acordo com a pesquisa, o Manchester possui 1,1 bilhões de fãs e seguidores e a grande maioria deles estão na APAC (região da Ásia e Pacífico). Ter uma presença forte em um mercado tão poderoso, como as bolsas asiáticas, certamente é uma vantagem competitiva do Manchester United.

Torcedores do Manchester United

Fonte: 20-F Manchester United.

Receitas do clube

No formulário também é possível encontrar detalhes sobre a obtenção de receita do clube. Trouxemos o exemplo das receitas obtidas com o patrocínio da camisas, que estão enquadradas no segmento comercial, o qual apresentou o maior crescimento na última década.

O excelente trabalho da equipe comercial do Manchester fez com que o clube conseguisse aumentar exponencialmente sua receita advinda desses contratos. Em 2006 o clube recebia £8 milhões da Vodafone por ano e desde 2014 recebe £58,6 milhões por ano da Chevrolet.

Receitas do Manchester United (MANU)

Fonte: 20-F Manchester United.

Por que a ação de um clube se valoriza?

Você pode estar com essa dúvida, porém a resposta é simples: gerando lucro! Vimos no TC School que o preço das ações segue o lucro das empresas em parte. Para aumentar a capacidade de geração de lucro, o clube precisa aumentar a sua receita, e como ele consegue isso?

Vimos no exemplo do Manchester United que existem três grandes fontes de renda para um clube de futebol: Receitas Comerciais, Receitas de Transmissão e Matchday Revenues (Receitas em Dias de Jogos).

Receitas dos clubes de futebol

Fonte: Deloitte Football Money League Report.

Claro que o desempenho das receitas do clube estará intrinsecamente relacionado com o desempenho da equipe dentro de campo, mas esse não é o único fator que deve ser levado em consideração. Basta lembrar do caso do homem que comprou várias puts (direito de venda, lucrando com a queda do preço da ação) e explodiu bombas no ônibus do Borussia Dortmund na expectativa de lucrar com a queda das ações.

Sendo assim, o desempenho do clube depende de vários fatores que estão ligados também à esfera administrativa como estrutura de formação de jogadores da base, poder de fogo para investir em contratações e outras coisas. Times que pagam caro demais por jogadores que não correspondem são semelhantes a empresas que fazem aquisições ou investimentos errados. Ou seja, estão desperdiçando o capital dos sócios acionistas.

O valor justo de um jogador ou clube de futebol

Recentemente uma polêmica foi trazida à tona por dois jornalistas do Follow The Money, portal investigativo holandês, a respeito dos métodos utilizados pelo Transfermarkt para avaliar o valor justo de um jogador ou clube. Quem acompanha futebol certamente já se deparou com alguma estatística de valor de mercado do seu time de coração, ou do jogador que o seu clube planeja contratar no site acima.

O que você não sabe é como eles encontraram tal “valor justo” para os clubes e os atletas e os impactos que tais números possuem na indústria do futebol. De acordo com a reportagem, os métodos do Transfermarkt estão respaldados na “sabedoria das multidões” e não possuem um método cientificamente comprovado, ou seja, é um método amador. Além disso, esses números são tomados como base por dirigentes dos maiores clubes europeus na hora de negociar, vítimas do viés de ancoragem de números os quais eles não têm ideia de como foram calculados.

Ou seja, mesmo sendo uma indústria bilionária, existem resquícios de amadorismo, o que torna investimentos em futebol e a indústria do esporte uma das mais interessantes para se observar ao longo dos próximos anos. Não só porque a dinâmica de consumo nesse setor está mudando drasticamente, mas também porque acompanhar um futebolzinho é bom demais!

Esse é o caminho dos clubes brasileiros?

Todos os exemplos trazidos neste texto foram de clubes de futebol europeus ou dos times que seguem os modelos de franquias dos Estados Unidos. No Brasil, os clubes em sua grande maioria são instituições sem fins lucrativos, apesar de existirem alguns clubes empresas, como é o caso do Botafogo-SP, que já ressaltou publicamente o desejo de ser uma empresa listada na Bovespa quando estiver estabilizado na primeira divisão. Existe também o exemplo do Red Bull Bragantino, administrado pela empesa de energéticos que administra ainda outros clubes de futebol tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.

Desta forma, para quem deseja atualizar-se sobre o assunto, é necessário acompanhar toda a movimentação jurídica que está acontecendo no Brasil. Atualmente existem dois Projetos de Lei (PL 5.082/16 e PL 5.516/2019) que movimentam a indústria do esporte com possibilidade de investimento em futebol.

O primeiro projeto já foi aprovado na Câmara e incentiva a transformação dos times brasileiros em clubes empresas. Por outro lado, o segundo, de autoria do senador Rodrigo Pacheco, propõe a criação da sociedade anônima do futebol.

Quem sabe nós não veremos no futuro ações de clubes de futebol negociadas na Bovespa? Já imaginou PALM3, FLAM3, SAOP3 nos tickers da B3? Sinceramente, acho que o Náutico já me causa preocupação demais só com o time de futebol. Espero que ele não abra ações no mercado financeiro porque certamente em algum momento de euforia vou cair na tentação de comprar o ativo. A partir deste momento vão poder dizer que eu realmente virei torcedor de uma ação e não vou poder reclamar (risos). Até a próxima!

Referências

BAUR, Dirk G.; MCKEATING, Conor. Do football clubs benefit from Initial Public Offerings?. International Journal of Sport Finance, v. 6, n. 1, 2011.

DA COSTA, Lamartine Pereira; DUARTE, Cátia Pereira. O debate epistemológico da educação física no âmbito dos cursos de pós-graduação stricto sensu reinterpretado por contribuições da teoria da complexidade de Morin. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 24, n. 2, 2003.

KESENNE, S. (2008), The Economic Theory of Professional Team Sports, Edwin Elgar Publishing

SMIT, Barbara. Invasão de campo: Adidas, Puma e os bastidores do esporte moderno. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2007.

Lucas Costa Santos
Lucas Costa Santos
Analista de conteúdo TC School. Graduando em Economia pela UFPB
Membro do Projeto Quantum e vencedor do Prêmio Calouro Destaque em 2018.

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