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Como os programas de recompra influenciam os preços das ações?

29/07/2020 às 5:00

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Nesse texto, veremos como os programas de recompra de ações anunciados pelas empresas podem impactar os preços das ações:

  • Programa de recompra de ações: o que é e por que as empresas recompram suas próprias ações?
  • Recompras de ações no Brasil: as empresas aproveitaram o caos em março para recomprar suas ações
  • Anúncio da recompra e o efeito nos preços: como o anúncio de recompra impacta nos preços
  • Estratégia de investimento: qual seria o resultado de uma carteira de ações baseada em empresas que fazem recompras?

Boa leitura!

recompra de ações

Leia mais sobre o mercado de ações:

O que são os programas de recompra de ações?

As companhias de capital aberto ou fechado podem adquirir suas próprias ações no mercado, cancelando-as ou mantendo-as em tesouraria, que é uma conta redutora do patrimônio líquido da empresa. Na prática, a empresa está tirando de circulação uma parte de seu patrimônio líquido do mercado acionário. Para maiores detalhes, leia nosso texto sobre as ações em tesouraria.

Por que as empresas recompram suas próprias ações?

Diversos estudos em finanças buscaram entender os fatores determinantes que levam as companhias a adquirirem suas próprias ações, o quais destacam-se:

  • Ajuste na estrutura de capital
  • Níveis de caixa e conflitos de agência
  • Substituto ao dividendo
  • Sinalizar para o mercado que as ações estão subavaliadas

Esses fatores não são mutuamente exclusivos entre si, não sendo adequado focar em um ou em outro (DITTMAR 2002). Vejamos os detalhes de cada fator apresentado acima.

Ajuste na estrutura de capital

A companhia pode recomprar suas ações para ajustar os níveis de estrutura de capital (relação entre capitais de terceiros e próprios), na medida em que a recompra aumenta o grau de alavancagem, pois reduz o valor patrimônio líquido (GABRIELLI, SAITO 2004). Todavia essa estratégia pode alterar pouco o nível de alavancagem, visto que a quantidade de ações adquiridas nos programas de recompra é pequena (CASTRO, YOSHINAGA 2019).

Níveis de caixa disponíveis e conflitos de agência

Se a empresa não possui oportunidades de investimentos criadores de valor para aplicar seu caixa, ela pode distribuir o excesso de caixa para os acionistas na forma de recompra de ações. A literatura de finanças evidencia que isso é uma forma de atenuar os conflitos de agência existentes entre acionistas e gestores, pois as recompras de ações reduzem o capital que está sob controle dos gestores (JENSEN, 1986). Resultados de pesquisas empíricas mostram a associação entre os níveis de caixa e os programas de recompra de ações (ANDRIOSOPOULOS, HOQUE 2013).

Substituto ao dividendo

Além de tudo, as recompras de ações podem (pelo menos em parte) serem uma forma de remuneração substituta ao dividendo, visto que, ao contrário dos dividendos, os programas de recompra não são compromissos firmes (GRULLON, MICHAELY 2002), onde as empresas podem anunciar programas de recompra, mas posteriormente cancelar este programa.

Ações subavaliadas?

Por fim, as empresas podem adquirir ações próprias buscando sinalizar para o mercado que suas ações estão subavaliadas (DITTMAR, 2002). Nesse sentido, alguns estudos internacionais demonstram que os preços das ações aumentam após o anúncio dos programas de recompra (DITTMAR e FIELD 2015; ISHIKAWA e TAKAHASHI 2011; YOOK 2010). Comportamento observado inclusive no mercado acionário brasileiro, na pesquisa de Castro e Yoshinaga (2019).

Recompras de ações pelas empresas brasileiras

De acordo com dados da CVM, até o final de junho deste ano, 35 empresas anunciaram programas de recompras de ações no ano de 2020, totalizando 37 anúncios (Sinquia e Hering fizeram dois anúncios cada). As referidas recompras concentraram-se no mês de março (caos nos mercados devido ao pânico gerado pelo COVID-19). Ou seja, seguindo o que emana a literatura sobre o assunto, as empresas podem ter anunciado os programas de recompra com o intuito de sinalizar para o mercado que seus preços estavam subavaliados.

Vejamos esses números a partir do quadro abaixo:

recompra de ações

Fonte: CVM, adaptado

Podemos observar que metade dos anúncios de recompra ocorreu no mês de março, justamente quando os mercados sofreram as maiores quedas dos últimos anos. Além disso, vamos analisar essa informação através do gráfico abaixo:

recompra de ações

Fonte: CVM, adaptado

Para analisar datas de recompras em maiores períodos, você pode baixar uma base de dados do site do portal de pesquisas em finanças da USP, onde encontrará diversas informações sobre eventos corporativos, dentre eles, os programas de recompra de ações.

Desempenho do mercado e quantidade de anúncios de recompra

Analisando o comportamento do IBOVESPA e os anúncios de recompra, podemos ver que existe uma relação inversa entre a quantidade de anúncios de recompra x IBOVESPA (que pode ser uma proxy para o comportamento do mercado).

recompra de ações

Fonte: Portal de pesquisas em finanças e CVM, adaptado

Ao analisar o gráfico acima, podemos notar que a quantidade de recompras de ações era maior quando o IBOVESPA estava em patamares mais baixos (entre 2015 e final de 2018).

Podemos calcular essa relação inversa entre IBOV e quantidade de anúncio através do coeficiente de correlação. Para o nosso caso, considerando a natureza dos dados, a correlação de Spearman. Nesse sentido, o coeficiente de correlação calculado para essas duas variáveis foi de -0,44, significante estatisticamente. Isso significa que, considerando nossos dados, na medida em que o IBOV sobe, a quantidade de anúncios de recompra cai, o que indica uma preferência de recompra em momentos que o mercado está em baixa. obs: a correlação não indica causalidade, apenas mostra como duas variáveis estão associadas.

Anúncios de recompra e o efeito nos preços das ações

Na medida em que a força compradora aumenta (empresa recomprando suas ações), é esperado que os preços também subam (oferta x demanda). Mas vamos analisar se isso de fato ocorre, com base em evidências científicas. Para verificar o efeito do anúncio de recompra de ações nos retornos, os pesquisadores buscam verificar se existe diferenças significativas entre os retornos das ações após o anúncio da recompra. Essa análise pode ser feita a partir da janela de eventos (veja nosso texto sobre Spin-Offs, o qual expliquei essa técnica estatística).

Nesse sentido, ao analisar recompras no mercado americano, no período de 2004 a 2011, a pesquisa de Dittmar e Field (2015) observou que as companhias recompram ações por preços significativamente mais baixos do que o preço médio do mercado em todo o período analisado. Além disso, foram observados retornos mais altos no período pós-recompra de ações.

Já no mercado japonês, os achados do estudo de Ishikawa e Takahashi (2011) apontam que as empresas conduzem programas de recompras de ações quando os preços caíram no mês anterior ao anúncio, ao passo que o retorno das ações de empresas que realizam recompras supera o retorno de mercado nos meses subsequentes ao anúncio.

Por outro lado, utilizando como amostra as empresas listadas na NASDAQ e NYSE a pesquisa de Yook (2010) chama atenção para o fato de que as empresas podem anunciar um programa de recompra, mas não efetivar a aquisição das ações, ou seja, cancelar o programa de recompra. Além disso, os resultados do estudo indicam que as empresas que anunciam programas de recompra com pouca frequência, experimentam retornos anormais no longo prazo.

E no Brasil?

Aqui no Brasil, ao analisar o comportamento da variação dos preços das empresas brasileiras não financeiras em torno dos anúncios, o estudo de Souza Et. al. (2019) observou que os retornos crescem após o anúncio de recompra (t-0).

Fonte: Souza et. al. (2019)

Recompra de ações como estratégia de investimento

Ainda no mercado brasileiro, em linha com as pesquisas internacionais, os resultados da pesquisa de Castro e Yoshinaga mostram que uma carteira de ações baseada em empresas que fazem anúncios de recompra de ações, gerariam retornos anormais que variam de 5,4% a 7,9%.

Resumindo o que falamos até aqui, de acordo com os resultados apresentados pelas pesquisas em finanças, ficar atento nos anúncios de recompra pelas empresas pode ser um indicador de que aquela ação esteja subavaliada pelo mercado.

Referências

ANDRIOSOPOULOS, D.; HOQUE, H. The determinants of share repurchases in Europe. International Review of Financial Analysis, v. 27, p. 65–76, 2013.

CASTRO, F. H.; YOSHINAGA, C. A sub-reação a recompras de ações no mercado aberto. Revista Contabilidade & Finanças, v. 30, n. 80, p. 172–185, 2019.

DITTMAR, Amy; FIELD, Laura Casares. Can managers time the market? Evidence using repurchase price data. Journal of Financial Economics, v. 115, n. 2, p. 261-282, 2015.

DITTMAR, A. K. Why Do Firms Repurchase Stock? The Journal of Business, v. 73, 3, p. 331–355, 2002.

GABRIELLI, M. F.; SAITO, R. Recompra de ações: regulamentação e proteção dos minoritários. Revista de Administração de Empresas, v. 44, n. 4, p. 54–67, 2004.

GRULLON, G.; MICHAELY, R. Dividends, share repurchases, and the substitution hypothesis. The Journal of Finance, v. 57, n. 4, p. 1649–1684, 2002.

ISHIKAWA, Masaya; TAKAHASHI, Hidetomo. Testing the managerial timing ability: Evidence from stock repurchases in Japan. Finance Research Letters, v. 8, n. 1, p. 21-27, 2011.

JENSEN, M. C. Agency Costs of Free Cash Flow. The American Economic Review, 76, n. 2, p. 323–329, 1986.

SOUZA, A. N. M.; TAVARES, L. T.; MOTA, R., H., G.; MARTINS, V., G. Gerenciamento de resultados em torno dos anúncios de recompra de ações no mercado acionário brasileiro. Anais do SEMEAD USP 2019.

YOOK, Ken C. Long-run stock performance following stock repurchases. The Quarterly Review of Economics and Finance, v. 50, n. 3, p. 323-331, 2010.

 

Arlindo Souza
Arlindo Souza
Coordenador de conteúdo | Cursos no TradersClub
Contador, Mestre em Ciências Contábeis. Foi professor/pesquisador do departamento de contabilidade da UFRN e atuou em contabilidade de S.A. É investidor com base em análise fundamentalista.

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