Empresas de tecnologia na bolsa de valores: análise do setor - TC

TC School / Mercado de ações

Empresas de tecnologia na bolsa de valores: análise do setor

22/06/2021 às 12:37

TC School

Desde os anos 2000, com o crescimento e popularização do setor de tecnologia (“tech stocks”), e a presença de empresas de tecnologia nas bolsas de valores vem ofuscando, cada vez mais, outros setores da economia. Naquela época, diversos discursos foram criados para justificar os valuations “esticados” que as ações no setor de tecnologia possuíam em relação às companhias da “economia comum” (financeiro, varejo, saúde, indústria, etc.).

Desde então, foram criadas métricas específicas de avaliação para os diversos setores – afinal de contas, precisamos comparar maçãs com maçãs e bananas com bananas. Nesse sentido, o objetivo deste texto é expor as principais características das indústrias de tecnologia, assim como suas especificidades em relação às demais, para fins de avaliação.

Para facilitar a leitura, separamos o texto nos seguintes tópicos:

  • Panorama do setor
  • Indústrias do setor de tecnologia
  • Métricas de criação de valor do setor de tecnologia
  • Dinâmica macroeconômica
  • Desempenho do setor na B3 vs Estados Unidos
  • Considerações finais

Boa leitura!

ações de tecnologia na bolsa

Panorama do setor

O setor de tecnologia é altamente concentrado em apenas dois países – Estados Unidos e China, concentrando cerca de ~70% do market cap (~US$ 21,1 trilhões) das companhias listadas em bolsa do setor. Por outro lado, o Brasil ocupa a 26º posição no ranking, em termos de market cap, com cerca de US$ 58,2 bilhões.

Uma das explicações para o setor de tecnologia da informação ter crescido tanto nos últimos 20 anos, é a transformação completa de modelos de negócios disruptivos, como os segmentos de varejo, financeiro e até serviços, os quais estão sofrendo por uma grande mudança, sendo possível observar isso pela presença da tecnologia em algum ponto da cadeia vertical desses segmentos.

Atualmente, é possível observar uma das seguintes opções:

  • Empresas mais antigas que estão sendo “obrigadas” a adotar a tecnologia no seu modelo de negócios; ou
  • Empresas que já nascem com esses modelos “instalados”, como o caso do Nubank e Banco Inter, no segmento financeiro e da Enjoei e Méliuz, no e-commerce.

Figura 1: Market Cap por País, do setor de tecnologia

tecnologia da informação

Fonte: Elaborado pelo autor. Dados Refinitiv (18/06/2021).

Indústrias do setor de tecnologia

O setor de tecnologia da informação é um dos maiores em termos de segmentos distintos. Isso é explicado devido ao fato citado no parágrafo anterior, em que cada vez mais, novos modelos de negócios estão sendo criados devido ao avanço da tecnologia.

Apesar de às vezes ser difícil dizer se uma companhia é “tech” ou não, pois, como muitas estão em transformação, quando de fato, ela deixaria de ser “não tech” e passaria a ser “tech”? Assim, antes de começarmos a entrar em pontos mais subjetivos, podemos classificar em quatro grandes indústrias:

  1. Software (serviços de TI): Caracterizado por companhias que são mais conhecidas por seus softwares/plataformas, as quais abrangem tanto empresas de tecnologia que vendem seus softwares (“software as a service” – SaaS) como produto final, quanto os que utilizam o software como forma de monetização principal (propaganda e taxas);
  2. Fintechs (serviços financeiros): Um dos segmentos emergentes mais recentes, constitui-se por companhias que possuem como produto final o produto financeiro (empréstimos, pagamentos, investimentos, etc.), porém, diferentemente de instituições financeiras comuns, suas operações ocorrem através de softwares;
  3. Telecomunicações (serviços de telecomunicação): É constituído por companhias que atuam com serviços de banda larga, internet, telecomunicações e infraestrutura, os quais o produto final da companhia é o serviço de telecomunicação, geralmente vendido em modelos “pré-pagos” ou “pós-pagos”; e
  4. Hardware (equipamentos tecnológicos): Companhias fabricantes de aparelhos tecnológicos (ex: computadores, celulares, componentes eletrônicos, etc).

Apesar das quatro indústrias pertencerem ao setor de tecnologia, elas possuem características específicas – muito diferentes, até. Normalmente, a terminologia “tech” é sinônimo de uma companhia que:

  • Possui alto crescimento com margens muito pequenas;
  • É conhecida por ser “asset light”, ou seja, possui um balanço “leve”, com poucos ativos, pois a maioria é intangível ou nem está reconhecido nele (exemplo: capacidade intelectual dos colaboradores);
  • Necessita de um alto investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (“P&D”), haja vista que o setor, como um todo, está em constante evolução; e
  • Possui expansão inorgânica muito presente (fusões e aquisições).

Indústrias de software e fintechs

Nesse sentido, indústrias como a de software e fintechs costumam ter características similares, como alto crescimento, explicado pela concentração de despesas fixas (overhead), conhecido como “make one, sell many” (“faça um, venda vários”, na tradução livre), fazendo analogia a construção do software em si e as despesas com capacidade intelectual (empregados).

Assim, seu crescimento é altamente orgânico, haja visto que não há nenhuma barreira física para a captação de novos clientes. Por outro lado, uma característica marcante das empresas é a presença das operações de fusões e aquisições (“M&A”), com o objetivo principal de captação de sinergias, como o cross-selling.

Indústrias de telecomunicações e hardware

Por outro lado, indústrias de telecomunicações e hardware se assemelham mais com a seguinte característica: companhias que, apesar de desenvolverem softwares e possuírem alto crescimento – dependendo da empresa – seu produto principal é o equipamento tecnológico. Assim, essas empresas de tecnologia dependem de fábricas e manutenção de estoque, como qualquer outra companhia da economia.

Como podemos ver no gráfico abaixo, as indústrias de Telecomunicação e Hardware (equipamentos tecnológicos) apresentam um P/L mais “comportados”, com 24 e 14, respectivamente, seguido por varejo, com 79. Por outro lado, Fintechs, Software e Serviços online apresentam um P/L de 4.790, 1.040 e 0, respectivamente.

Além disso, na visão do P/VPA, temos informações parecidas, haja vista que ambos capturam a variável lucro, porém, com o P/VPA temos uma noção da proporção do market cap em relação ao patrimônio líquido – novamente, números na faixa dos 30. Apesar do segmento de varejo apresentar companhias que fizeram IPO recentemente (Méliuz e Enjoei), seu indicador de P/VPA já se encontra na faixa dos 18.

Figura 2: P/VPA e P/L médios das indústrias

ações de tecnologia na bolsa

Fonte: Elaborado pelo autor. Dados Refinitiv (21/06/2021).

Setor de tecnologia da [B³] por segmento de atuação

Olhando na visão do mercado de companhias abertas brasileiro, o setor como um todo é constituído por 24 empresas e 7 sub segmentos (vale destacar que existem diversas classificações de sub segmentos, podendo haver diferenças nas denominações), sendo eles:

  • Fintechs;
  • Equipamentos tecnológicos;
  • Serviços de TI;
  • Cloud Service (servidores);
  • Varejo;
  • Software; e
  • Telecomunicações.

Ao todo, as 24 companhias somam um market cap de ~R$ 58 bilhões, sendo as cinco maiores indústrias compostas por:

  • Telecomunicações (41,1%);
  • Fintech (18,9%);
  • Varejo/E-commerce (16,9%);
  • Software (13,7%); e
  • Cloud Service (5,4%).

Figura 3: Setor de tecnologia da [B³] por segmento de atuação

Segmentos do setor

Fonte: Elaborado pelo autor. Dados Refinitiv (21/06/2021).

Muitos desses setores seguem o modelo SaaS, em que o software em si é o serviço – seja ele o produto final ou não. Vamos citar alguns exemplos: Sinqia (SQIA3), Totvs (TOTS3), Linx (LINX3) e Locaweb (LWSA3).

Todas as empresas de tecnologia citadas acima são companhias com modelo SaaS, as quais seu produto é o próprio software. Ou seja, os clientes são outros negócios (B2B) que utilizam os softwares para diversas finalidades (as três são focadas em softwares de gestão – ERP).

Dessa forma, para essas empresas, o modelo de negócios funciona a partir de subscrições mensais (planos), atribuindo um crescimento mais “comportado”, porém estável, em geral, da receita das companhias.

Por outro lado, existem companhias – maioria – em que seu software não é o produto final, porém, uma ferramenta de monetização, ou algo similar. São companhias como B2w (BTOW3), Enjoei (ENJU3), GetNinja (NINJ3), Mosaico (MOSI3), Méliuz (CASH3), entre outras.

Essas companhias citadas, surgem em praticamente todos os sub segmentos de tecnologia na bolsa de valores. Na [B³], sua participação é focada no segmento do varejo com modelos em que os serviços/produtos são prestados entre os próprios consumidores (C2C) ou quando o software é apenas um “facilitador”, encurtando o caminho do produtos até o consumidor, como no caso da WestWing (WEST3) com o modelo direct to consumer (D2C).

Métricas de criação de valor do setor de tecnologia

Claramente, a forma de medir valor das companhias de tecnologia difere dos demais setores. Isso pode ser facilmente observado quando comparamos a geração de lucro das empresas “tech” com sua capitalização de mercado (ver figura 2).

Dessa forma, a análise qualitativa carregará um peso maior na hora da avaliação das ações de empresas de tecnologia da informação na bolsa de valores. Pontos como:

  1. Análise da governança corporativa . Às vezes, o fundador da empresa ainda está presente, porém, é comum a mudança do comando, haja vista que as companhias tendem a sofrer diversas reestruturações antes de abrir capital; e
  2. A comparação do modelo de negócios da companhia com outras já atuantes no setor – seja do mesmo país ou internacionais, fazendo-se válida a busca por peers.

Além disso, devido a difícil aplicação de KPIs, com o objetivo de buscar medir o desempenho das ações de empresas de tecnologia da informação, muitas métricas foram criadas nos últimos anos buscando facilitar a análise dessas companhias, sendo as principais:

Volume bruto de mercadoria (“GMV”)

Bastante utilizado nas companhias do segmento de varejo (“retail sales”) como métrica do valor total vendido das mercadorias, haja vista que muitas dessas empresas não vendem o produto em si mas fazem a conexão entre vendedor e comprador.

Valor do usuário dividido pelo seu custo (“LTV/CAC ratio”)

Principalmente utilizado em companhias com modelo de subscrição (SaaS), com o objetivo de comparar o valor gerado por cliente, em comparação com a despesa gerada para sua aquisição. Assim, o LTV/CAC é um dos indicadores mais completos de análise. Segue a fórmula:

analise de empresas

Mercado Total Endereçável (“TAM”)

É uma das primeiras medidas a serem analisadas, sendo bastante utilizada com a finalidade de traçar cenários mais amplos de crescimento. O TAM é calculado a partir da receita total de um determinado produto ou serviço (exemplo: cupons de cashback e similares), servindo de parâmetro para saber quantos % de market share aquele produto pode crescer.

Além do TAM, existem indicadores como o SAM e o SOM, os quais possuem o objetivo de especificar mais ainda, o mercado daquele produto/serviço.

Nível de Perdas de Clientes (“Churn rate”)

Também bastante utilizado em indústrias modelos característicos de SaaS, esse indicador tem o objetivo de calcular quantos usuários deixaram de assinar o produto/serviço, em comparação com o período anterior. Ou seja, é o inverso da taxa de retenção. Segue a fórmula:

churn

Custo de Aquisição de Cliente (CAC)

Com a análise da estrutura de custos – seja de um novo ou de um já assinante – é possível analisar a capacidade de economia de escala e seu potencial de crescimento. Além disso, companhias com um alto CAC tendem a crescer bastante mas gerar pouco valor. Segue a fórmula:

cac

Usuários Ativos Diários (DAU)

Surge como forma de resumir os diversos KPIs relacionados à satisfação de clientes. Quanto maior o número de usuários ativos na plataforma, melhor, pois a companhia não precisa (ou precisa de menos) despender de novos recursos (CAC), aumentando a chance dessa receita gerada pelo usuário, ir direto para a última linha da DRE, consequentemente, impactando diretamente a capacidade de crescimento da companhia.

Geralmente, companhias com mais usuários ativos tendem a ter economia de escala maior, porém, é um indicador bastante subjetivo, pois cada empresa possui suas próprias métricas de cálculo; e

Receita média por usuário (ARPU)

Calculado como uma espécie de ticket médio, geralmente utilizado em segmentos com receita variável, como contas telefônicas, o que facilita o cálculo do indicador, pois considera a receita total e todos os usuários (sejam de assinatura ou não). Segue a fórmula:

arpu

Dinâmica macroeconômica

Uma característica em comum de muitas empresas do setor de tecnologia, é o fato de apresentarem margens líquidas bastante comprimidas. Esse fato se dá, principalmente, pela necessidade de reinvestimento da companhia em seu período de crescimento (principalmente), seja no desenvolvimento de novos produtos, expansão da sua base de clientes, ou até na aquisição de outras companhias.

Como consequência, apesar de crescerem bastante, essa necessidade de reinvestimento faz com que seu fluxo de caixa livre seja próximo a zero (ou até negativo, em alguns casos). Como consequência disso, a companhia apenas passa a gerar valor significativo para o acionista, no período de sua perpetuidade, concentrando maior parte do seu valor no longo prazo.

Por sua vez, as companhias do setor tendem a sofrer uma maior influência das taxas de juros, utilizando principalmente como ativos livres de risco, no cálculo da taxa de desconto. Assim, quando a taxa de juros aumenta, seu valor tende a cair.

No gráfico abaixo, foram utilizados quatro ETFs que são compostos, de forma igual (“equal weighted”), por companhias do setor de tecnologia da informação. Para fins de teste, comparamos os yield do título do tesouro americano de 10 anos com o desempenho dos quatro ETFs. O teste estatístico resultou numa correlação negativa de 0,40 em média.

Figura 4: Setor de tecnologia vs Treasury de 10 anos

setor de tecnologia

Fonte: Elaborado pelo autor. Dados Refinitiv (18/06/2021).

Desempenho do setor no Brasil vs Estados Unidos

Para fins de comparação, foram construídas duas carteiras hipotéticas: uma com a média dos quatro ETFs de tecnologia, usados no gráfico anterior, a fim de representar o setor americano; e uma carteira composta por 24 ativos brasileiros do setor de tecnologia na B3. Ambas carteiras são igualmente ponderadas (cada ativo possui peso igual).

Partindo do mês de junho de 2016, com ambas carteiras normalizadas na base 100 e, em dólares, podemos perceber que ambas possuem uma correlação razoável (0,60). O período de maior “descorrelação” aconteceu após o início da pandemia do COVID-19, quando tanto o risco país quanto a taxa de câmbio subiram muito, fazendo com que os ativos brasileiros ficassem para trás. Assim, levando em consideração esses cinco anos (2016-2021), a rentabilidade acumulada da carteira americana somou 241% contra 117% da brasileira.

Figura 5: Setor de tecnologia: USA vs Brasil

empresas americanas de tecnologia

Fonte: Elaborado pelo autor. Dados Refinitiv (18/06/2021).

Considerações finais

Esperamos que o texto tenha conseguido explorar e esclarecer o setor de tecnologia da informação, assim como suas indústrias na bolsa de valores [B³], de forma a esclarecer os diversos modelos de negócios para os investidores. Além disso, com as métricas de análise discutidas no texto, espera-se que os investidores analisem as companhias de tecnologia com uma visão diferente, em comparação com as demais companhias, entretanto, de forma a sempre buscar o valor potencial do ativo.

Daniel Santos
Daniel Santos
Assistente do TradersClub
Bacharel em Ciências Contábeis pela UFRN. Ex-membro da Liga de Finanças e vencedor do 1º Campeonato de Análise Fundamentalista do TC.

TC School

A sua escola como investidor.

Disclaimer: Este material é produzido e distribuído somente com os propósitos de informar e educar, e representa o estado do mercado na data da publicação, sendo que as informações estão sujeitas a mudanças sem aviso prévio. Este material não constitui declaração de fato ou recomendação de investimento ou para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários. O usuário não deve utilizar as informações disponibilizadas como substitutas de suas habilidades, julgamento e experiência ao tomar decisões de investimento ou negócio. Essas informações não devem ser interpretadas como análise ou recomendação de investimentos e não há garantia de que o conteúdo apresentado será uma estratégia efetiva para os seus investimentos e, tampouco, que as informações poderão ser aplicadas em quaisquer condições de mercados. Investidores não devem substituir esses materiais por serviços de aconselhamento, acompanhamento ou recomendação de profissionais certificados e habilitados para tal função. Antes de investir, por favor considere cuidadosamente a sua tolerância ou a sua habilidade para riscos. A administradora não conduz auditoria nem assume qualquer responsabilidade de diligência (due diligence) ou de verificação independente de qualquer informação disponibilizada neste espaço. Administradora: TradersNews Informação & Educação Ltda. Todos os direitos reservados.

TradersClub

O app essencial para investidores do mercado financeiro brasileiro.

Uma comunidade com milhares de investidores, ferramentas e serviços que vão ajudar você a investir melhor!

TradersClub