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Guidance de curto prazo é bom ou ruim?

03/11/2021 às 17:00

Iris Sousa

Guidance é um documento/publicação de caráter voluntário que as empresas podem optar por informar aos seus investidores. Esse informativo normalmente traz projeções futuras e expectativas positivas sobre o desempenho da companhia.

Esse tipo de informativo gera uma discussão pelo seu caráter não obrigatório e por trazer, em sua maioria, informações sobre o desempenho geral e/ou os retornos agregados da empresa (em termos de crescimento de lucro, por exemplo) num horizonte de curto prazo.

Essa visão do Guidance de curto prazo vem sendo discutida por analistas, investidores e pesquisadores. Ao passo que há alguns apontamentos positivos sobre essa divulgação, outros defendem que a priorização do curto prazo pode trazer consequências negativas para o longo prazo. 

Sendo assim, no texto de hoje vamos discutir sobre o Guidance e alguns desses apontamentos. O texto se divide da seguinte forma:

  • Guidance e divulgação
  • Discussões sobre o uso do Guidance 
  • O que as pesquisas falam?
  • Conclusões

Boa leitura!

Guidance e divulgação

O Guidance é um documento/informativo não obrigatório, mas caso as empresas optem por divulgá-lo, deverá seguir a regulamentação dada pela instrução CVM 480/09.

Dentre as exigências, podemos mencionar que caso a empresa opte por divulgá-lo, deve incluir no Formulário de Referência, mais especificamente no item 11, sobre projeções.

Além disso, a instrução reforça que as informações devem ser identificadas como dados hipotéticos que não constituem promessa de desempenho, razoáveis e vir acompanhadas das premissas relevantes, parâmetros e metodologia adotados.

Com base no disposto da instrução da CVM, o Comitê de Orientação para a Divulgação ao Mercado (CODIM) deliberou como o mesmo deve ser divulgado, por meio do Pronunciamento de Orientação n.º 04, de 17 de abril de 2008 que trata das melhores práticas de divulgação de informações sobre orientação do desempenho futuro da companhia.

O Guidance deve ser divulgado ao mesmo tempo das demonstrações da empresa, ou seja, anualmente ou trimestralmente.

Deve-se destacar ainda a responsabilidade legal da administração e da área de relação com investidores, previstas na legislação, e ainda das possíveis perdas em relação à imagem, reputação e credibilidade da empresa.

Discussões sobre o uso do Guidance

Em publicação, o FT Moral Money informa que em 2020 o CFA Institute (Associação de Profissionais de Gestão de Investimentos) estimou o custo de visão de curto prazo para as empresas do S&P 500 em US $79 bilhões por ano em lucros perdidos.

Ainda no artigo da revista FT Moral Money, há outro dado interessante de uma pesquisa realizada pelo McKinsey Global Institute em 2017. Relatando sobre preocupações excessivas sobre o lucro no curto prazo, 70% dos executivos entrevistados na pesquisa acreditavam que seus CEO’s sacrificavam o crescimento de longo prazo por objetivos financeiros de curto prazo. 

Você pode estar se perguntando em como isso se relaciona com o guidance. Bom, alguns pesquisadores, analistas e investidores também começaram a despertar sobre essa relação. 

Assimetria Informacional

Para entendermos a situação, é interessante a gente falar de um conceito no mundo das teorias das finanças: a assimetria informacional.

Em linhas gerais, essa assimetria explica que em duas posições hierarquicamente distintas, haverão também informações distintas.

Nesse sentido, os administradores da empresa certamente possuem mais informações da empresa que os investidores, criando então a assimetria informacional.

Por consequência, esse desbalanceamento de informações poderá influenciar as decisões de ambas as partes com relação à mesma empresa. 

É nesse contexto que adentram as questões regulatórias das empresas, como a obrigatoriedade de informações e demonstrativos. Essas determinações visam criar uma rede de confiança entre as partes envolvidas na situação. 

Justamente pela questão relativa à assimetria informacional, o Guidance se tornou uma ferramenta usada pelas empresas para divulgar suas expectativas aos investidores, reavendo o elo de confiança entre as partes.

Sobretudo, pela sua natureza não obrigatória e em certo caráter subjetiva, emerge vertentes de prós e contras, em especial a recorrente necessidade de demonstrar bons resultados aos investidores.

Guidance: o que as pesquisas apontam

Dado o contexto anterior, é importante frisar que essa assimetria informacional não necessariamente informa uma atitude oportunista por parte daqueles que detenham mais informações. Entretanto, num aspecto de estabelecer confiança com os investidores, pode haver pressões para divulgações que gerem expectativas positivas da empresa no curto prazo.

Alguns pesquisadores começaram a averiguar incentivos, situações e ocorrência do Guidance nas empresas.

Estudos (Anhalt, 2007; Han, 2013; Hirst, Koonce, & Venkataraman, 2008, Souza e Sanches et al, 2018) revelam uma vertente positiva na divulgação do Guidance, tais como:

  • Afirmação de que as projeções são associadas a menor volatilidade das ações;
  • Maior confiança e aproximação com os profissionais do mercado;
  • Aumento da cobertura da empresa;
  • Ação mais próxima do preço justo;
  • Redução do custo de capital; e
  • Alinhamento de projeções entre as partes.

Entretanto, numa vertente mais negativa, pesquisadores constatam que aquelas empresas que divulgam Guidance investem menos em pesquisa e desenvolvimento.

Dessa forma, as taxas de crescimento de longo prazo são menores e, em geral, as empresas que evidenciam Guidance têm perspectiva de curto prazo para os lucros (Cheng, Subramanyam, & Zhang, 2005; Mahoney, 2008). Assim, as previsões de lucros contida no Guidance aumentam a volatilidade das ações a curto prazo, (Agapova & Madura, 2016).

Além disso, a pesquisa de Anilowskia et al (2007) detectou que a orientação de ganhos das empresas contida no Guidance é associada aos retornos do mercado em janelas curtas, reafirmando as perspectivas de curto prazo. 

Nesse contexto, vemos que há duas perspectivas sobre os efeitos positivos e negativos do Guidance. Sobretudo, é evidente que há uma observação muito aguçada para questões relativas à divulgação que prospectam resultados no curto prazo. Isso é um fator preocupante quando observamos pela lente do investidor.

Se a administração da empresa estiver muito otimista e quiser reforçar isso, ela poderá divulgar no guidance essas informações. Entretanto, lembre-se da assimetria informacional e da necessidade de estabelecer confiança com seus investidores. A empresa pode querer reforçar as positividades para a empresa num curto espaço de tempo, e acabar influenciando visões de lucro apenas no curto prazo. 

Perceba que falamos aqui de uma situação de dois lados: ao passo que a empresa pode estar otimista, ela também pode apenas querer suprir as pressões de atender as expectativas positivas dos investidores na companhia, tomando decisões internas que supram a expectativa no curto prazo. 

O dilema concebido na divulgação do Guidance se dá nessa perspectiva tratada anteriormente, pois a necessidade de maximizar lucro no curto prazo não é garantia de empresa sólida e rentável no longo prazo. Na verdade, empresas que busquem apenas resultados imediatistas, podem sofrer consequências no longo prazo.

O lucro por si só não é sinônimo de boa empresa e a perspectiva de curto prazo dele, também não. Numa análise mais acurada, deve-se observar diversas questões além dos números e resultados numa janela temporal curta. O planejamento estratégico, a gestão, o histórico, o ciclo, objetivos e etc., fazem parte da análise, por exemplo.

Por fim, ainda é possível afirmar a partir da pesquisa de Hsieh et al (2007) que empresas costumam divulgar o Guidance com uma variedade de projeções e a maioria não se concretiza.

Conclusão

Como vimos, o Guidance é uma forma das empresas divulgarem suas expectativas, sendo um normativo não obrigatório, mas, caso seja divulgado, deve obedecer a normativos da CVM.

Apesar de sua regulação, não se exclui o caráter subjetivo dessa divulgação, podendo englobar predisposições embasadas numa tentativa de mostrar resultados num curto prazo.

Sendo assim, essas informações devem ser observadas com cautela e com uma lente crítica, pois apesar dos resultados de curto prazo serem importantes, os de longo prazo são ainda mais, pois é a partir deles que há crescimento e consolidação da empresa. 

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Referências

Agapova, A., & Madura, J. Market uncertainty and earnings guidance. Quarterly Review of Eco-nomics and Finance, v. 61, n. 1, p. 97–111. 2016. Disponível em: doi:10.1016/j.qref.2015.12.001

Anhalt, A. Guidance: Entre o risco e a segurança. Revista Relações Com Investidores – RI, n. 110, p. 31–33. 2007. Disponível em: http://www.ibri.com.br/Upload/Arquivos/contribuicoes_associados/137939867_entre_o_risco_e_a_seguranca.pdf

Anilowski, C., Feng, M., & Skinner, D. J. Does Earnings Guidance Affect Market Returns? The Nature And Information Content Of Aggregate Earnings Guidance. Journal of Accounting and Economics, v. 44, n. 1-2, p. 36–63. 2007. Disponível em: doi:10.1016/j.jacceco.2006.09.

Cheng, Mei & Subramanyam, K.R. & Zhang, Yuan. Earnings Guidance and Managerial Myopia. 2005. SSRN Electronic Journal. Disponível em: 10.2139/ssrn.851545. 

Han, J. A literature synthesis of experimental studies on management earnings guidance. Journal of Accounting Literature, v. 31, n. 1, p. 49–70. 2013. Disponível em: doi: 10.1016/j.acclit.2013.06.003

Hirst, D. E., Koonce, L., & Venkataraman, S. Management earnings forecasts: A review and fra-mework. Accounting Horizons, v. 22, n. 3, p. 315–338. 2008. Disponível em: doi: 10.2308/acch.2008.22.3.315

Hsieh, P., Koller, T., & Rajan, S. R. Guidance: A desorientada prática de orientação de lucros. Revista Relações Com Investidores – RI, v. 110,  10–12. 2007.

Mahoney, W. F. Guidance: O bom, o ruim e o desagradável. Revista Relações Com Investidores – RI, n. 121, p. 26–29. 2008. Disponível em: http://www.revistari.com.br/121/1778

Souza, J. L.; Sanches, S. L. R.; Sbardellati, E. C. De A.; Neumann, M. Influência Da Divulgação Do Guidance Nas Escolhas Contábeis E Gerenciamento De Resultados: Um Estudo De Dados Em Painel Com Companhias Do Ibovespa. Advances in Scientific and Applied Accounting, [S. l.], v. 11, n. 3, p. 430–447, 2019. Disponível em: https://asaa.anpcont.org.br/index.php/asaa/article/view/425. Acesso em: 22 out. 2021.

Iris Sousa

Estagiária do TC | TC School.

Graduanda em Ciências Contábeis pela UFPB e membro do projeto Educação Financeira Para Toda a Vida.

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