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Vale a pena entrar em IPOs?

18/02/2021 às 9:00

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Quando você ouve até o seu vizinho falando de IPO no churrasco de final de semana é um indício de que investimento em renda variável ganha força no país. A Bolsa de Valores está presente em nosso dia a dia muito mais do que imaginamos, basta abrir o caderno de economia dos jornais, assistir o noticiário na televisão ou sapear as redes sociais.

Qual IPO 2021 vale a pena entrar? É o assunto do momento, afinal, no ano passado, tivemos um número recorde de abertura de capital de empresas na B3, algumas com valorização superior a 100%. Portanto, para ajudar nosso leitor a inteirar-se sobre o assunto, preparamos um material bacana, que será elencado nos seguintes tópicos:

  • O que é IPO
  • Por que as empresas realizam IPO
  • Regulação envolvendo a abertura de capital
  • Próximos IPOs na B3: encontrando os prospectos
  • O desempenho dos IPOs na B3 (2018 – 2021)
  • Vale a pena “flipar ” no IPO?

Boa leitura!

O que é IPO

IPO é a sigla para Initial Public Offering, ou seja, quando uma empresa faz uma oferta pública inicial de suas ações na Bolsa de Valores. No Brasil, esse processo marca a listagem da empresa na B3, fazendo com que a companhia passe a negociar suas ações nos pregões. A partir daí, qualquer cidadão poderá tornar-se acionista sem precisar de aprovação prévia de qualquer conselho.

Você pode estar pensando “ah, basta decidir ter ações na bolsa que no outro dia a companhia já terá”, mas não é bem assim. Existe todo um processo burocrático que acaba tornando a abertura de capital um processo demorado e nem sempre é concluído com sucesso.

Ao longo do processo para abertura do IPO na B3, a companhia passa por uma série de mudanças internas para atender as exigências de órgãos reguladores, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A operação exige investimento por parte das organizações, e muitas vezes, inviabiliza a abertura de capital de empresas de pequeno porte, visto que estas não são capazes de arcar com custos como auditoria, funcionários da área de relações com investidores, advogados e outros profissionais.

Por que as empresas realizam IPO

Afinal de contas, se o processo de IPO é tão custoso e burocrático, por que tantas empresas realizam o processo e a lista de IPO 2021 só aumenta? Para responder a esta pergunta, devemos antes entender os agentes que compõem o mercado financeiro.

Imagine que, de um lado existem os investidores indivíduos, que buscam a maximização de sua riqueza através dos investimentos; e do outro, temos as empresas, que buscam estes recursos para aplicar em suas atividades, expandindo assim os seus negócios. Podemos então separar estes indivíduos em dois:

  1. Agentes superavitários (investidores e poupadores); e
  2. Agentes deficitários (empresas que demandam recursos para expansão de suas atividades).

Nesse sentido, um mercado financeiro eficiente é aquele que consegue promover a transferência de recursos entre os ofertantes (superavitários, poupadores) e os demandantes (deficitários, devedores) de recursos. As empresas da Bolsa de Valores se enquadram no segundo grupo, demandando recursos para financiar os seus projetos.

Já vimos que as empresas de capital aberto são demandantes de capitais, mas de que forma essas organizações obtêm recursos? A teoria da Pecking Order afirma que as companhias seguem uma hierarquia para financiar os seus projetos:

  • Retenção de lucros;
  • Captação de Dívidas; e
  • Lançamento das Ações.

Ou seja, as companhias não escolhem ir para o mercado de capitais simplesmente porque elas querem. Podem existir outras razões por trás, mas a principal justificativa é o financiamento de projetos.

É possível notar também que a emissão de novas ações é a última alternativa de financiamento (segundo a teoria); é mais barato utilizar os lucros retidos do que tomar dívidas para financiar os projetos, sejam eles expansões, aquisições ou outros. Da mesma forma, é mais barato para a empresa se endividar do que emitir ações, tudo de acordo com a teoria citada.

Em suma, podemos ver que as companhias realizam o processo de IPO, apesar dos custos, para financiar seus projetos com o dinheiro que será arrecadado por meio das novas ações.

Entretanto, note que apenas existe entrada de recursos no caixa da companhia quando se trata de uma oferta primária. Quando a oferta é secundária, o dinheiro gasto na compra da ação não vai para o caixa da empresa e sim para o bolso do acionista vendedor (controlador, fundo de investimento).

Regulação envolvendo a abertura de capital

A Lei que disciplina o mercado de capitais (Lei 6385/76) diz que é necessário o registro perante a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) previamente, além de delegar a esse órgão a competência para disciplinar as emissões. Entretanto, existe uma prerrogativa para dispensar o registro em determinados casos.

Segundo a instrução CVM 400, de 29 de dezembro de 2003 estabelece as etapas do processo que deve ser feito para abertura de capital.

  1. Registro da operação na CVM (Instrução 400/03);
  2. Formação do consórcio de instituições que vão coordenar e distribuir a operação;
  3. Estabelecimento de garantia (se houver);
  4. Conteúdo da oferta, incluindo lote e forma de precificação;
  5. Distribuição do prospecto preliminar e definitivo (material publicitário);
  6. Coleta, junto aos investidores, de intenções e reserva (quantidade e preço máximo);
  7. Recebimento de reservas (quando contemplado no prospecto- e no anúncio de início de distribuição);
  8. Divulgação do período de distribuição;
  9. Resultado da oferta, incluindo o preço final da ação;

Note que colocamos o grifo no item 5 porque é no prospecto da empresa onde encontramos as informações necessárias para avaliar se a oferta é interessante ou não.

IPO 2021: encontrando os prospectos

Para encontrar os prospectos que estão cadastrados na CVM você deve acessar os sistemas da CVM no site oficial. O caminho é acessar a área de ofertas públicas e selecionar as ofertas de distribuição.

Em seguida, devemos selecionar as ofertas em análise.

Após selecionar as ofertas em análise, devemos selecionar as ofertas primárias de ações, clicando no espaço demonstrado na imagem abaixo. Em seguida, devemos clicar nos “valores” novamente.

Após seguir o procedimento detalhado, será possível encontrar os prospectos das empresas que protocolaram seu pedido de IPO e provavelmente irão estrear na bolsa logo mais.

Selecionei a Guararapes Painéis como exemplo para mostrar que logo após a tela onde constam várias ofertas em análise é possível encontrar o prospecto da empresa em questão.

Análise dos próximos IPOs no app do TC

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IPOs na Bolsa de Valores brasileira

O desempenho dos IPOs na B3 (2018 – 2021)

Em 2018 tivemos três empresas que estrearam na B3:

  1. Hapvida (HAPV3);
  2. Notredame Intermédica (GNDI3); e
  3. Banco Inter (BIDI4).

Já em 2019, cinco empresas tiveram suas ações listadas na bolsa pela primeira vez:

  1. Centauro (CNTO3);
  2. Banco BMG (BMGB4);
  3. Neoenergia (NEOE3);
  4. Vivara (VIVA3); e
  5. C&A Modas (CEAB3).

No último ano (2020) presenciamos o início de um verdadeiro ciclo de IPOs na B3. Apenas no ano passado, 28 ações estrearam na Bolsa de Valores brasileira, são elas:

  1. 3R (RRRP3);
  2. Aeris (AERI3);
  3. Alphaville (AVLL3);
  4. Ambipar (AMBP3);
  5. Boa Vista (BOAS3);
  6. Cury (CURY3);
  7. D1000 (DMVF3);
  8. Enjoei (ENJU3);
  9. Estapar (ALPK3);
  10. Grupo Mateus (GMAT3);
  11. Grupo Soma (SOMA3);
  12. Hidrovias (HBSA3);
  13. JSL (JSLG3);
  14. Lavvi (LAVV3);
  15. Locaweb (LWSA3);
  16. Méliuz (CASH3);
  17. Melnick (MELK3);
  18. Mitre Realty (MTRE3);
  19. Moura Dubeux (MDNE3);
  20. Neogrid (NGRD3);
  21. Pague Menos (PGMN3);
  22. Petz (PETZ3);
  23. Plano e Plano (PLPL3);
  24. Priner (PRNR3);
  25. Quero-Quero (LJQQ3);
  26. Rede D’or (RDOR3);
  27. Sequoia (SEQL3); e
  28. Track & Field (TFCO4).

Vamos agora analisar o desempenho dos IPOs a partir de 2018. Sugiro que você interaja com o gráfico abaixo Ao clicar no ticker da ação que está na parte superior do gráfico, é possível adicionar e remover a visualização, além de ver os valores de forma detalhada mês a mês. O gráfico mostra quanto o investidor teria hoje em dia caso tivesse investido R$ 100,00 no dia do IPO na empresa em questão.

Analisando os dados dos últimos IPOs na B3, vemos que da mesma forma que existem empresas que foram um excelente investimento, também temos alguns negócios que deixaram muito a desejar.

Os destaques ficam por conta das ações do Banco Inter, Locaweb, Méliuz e Sequoia. No caso do Banco Inter, quem colocou R$ 100 na empresa no dia do IPO (27/04/2018) e mantém a posição até hoje teria R$ 1451. Já quem entrou no IPO da Sequoia (06/10/2020), por exemplo, viu seu dinheiro investido duplicar em menos de 6 meses.

Entretanto, também existem aquelas empresas que não tiveram bom desempenho desde o IPO. Podemos citar exemplos como Banco BMG e C&A Modas. O acionista que participou dos IPOs dessas empresas e manteve as ações até hoje está com menos do que investiu, perdendo dinheiro até o momento. Por isso, a cautela deve prevalecer quando estamos analisando um IPO!

Vale a pena “flipar ” no IPO?

Primeiramente, você pode estar se perguntando “o que é Flipar?”. Na parte do glossário do TC School temos a explicação detalhada sobre o que é “flipar” em um IPO, explicando inclusive de onde surgiu o termo. Porém, para o presente texto basta saber que flipar é participar do IPO (ou seja, adquirir as ações antes delas entrarem na bolsa, no período de reserva) e vender as ações no dia de estreia do papel.

Apenas na primeira semana de fevereiro de 2021 já tivemos incríveis quatro IPOs:

  1. Espaçolaser (ESPA3);
  2. Intelbras (INTB3);
  3. Mosaico (MOSI3); e
  4. Mobly (MBLY3).

Na sua estreia, a Espaçolaser subiu 17,21%; Intelbras 25,3%; Mosaico 95,05% e a Mobly 28,29%. Tudo isso apenas no primeiro dia no mercado acionário. Será que isso indica que são ótimos investimentos?!

Bem, não é possível tirar essa conclusão de maneira tão simples, mas existem algumas pesquisas como a de Krigman e Shaw (1999) que apontam que os ativos que causam uma boa primeira impressão tendem a desempenhar bem durante o ano.

Apesar dos números surpreendentes dos últimos IPOs é preciso lembrar que nem sempre é assim. O intuito desse texto foi mostrar as oportunidades e os riscos envolvidos no processo de investimento em um IPO. Além desse texto, o TC School preparou para você um e-book completo contendo tudo que você precisa saber antes de investir em um IPO. Lá temos exemplos de como analisar uma oferta inicial, os resultados de pesquisas científicas envolvendo o tema e muito mais, tudo isso de forma gratuita!


Referências

GOVERNO FEDERAL. Investidor.gov, 2020. Disponível em: <https://www.investidor.gov.br/menu/Menu_Investidor/ofertas/ofertas_publicas.html>. Acesso em: 03 de set. de 2020
KRIGMAN, Laurie; SHAW, Wayne H.; WOMACK, Kent L. The persistence of IPO mispricing and the predictive power of flipping. The Journal of Finance, v. 54, n. 3, p. 1015-1044, 1999.

Lucas Costa
Lucas Costa, CGA
Analista TC Matrix. Graduando em Economia pela UFPB
Membro do Projeto Quantum e vencedor do Prêmio Calouro Destaque em 2018

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