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Entenda o Short Squeeze na Bolsa: caso GameStop e IRBR

29/01/2021 às 17:03

TC School

GameStop, efeito Reddit, Robinhood, Wall Street Bets, grupo Short Squeeze em IRBR no Telegram e CVM – Comissão de Valores Mobiliários. Entenda como tudo isso ganhou destaque nos principais meios de comunicação sobre o mercado financeiro na última semana.

Neste texto queremos debater o tema que ganhou relevância, especialmente porque envolve leis sobre manipulação de mercado, que estipulam que fomentar ou criar condições artificiais de negociação na Bolsa de Valores é crime.

Queremos trazer uma discussão crítica, elencando pontos importantes sobre estratégias de investimentos, especulação e manipulação de ações no mercado de capitais para que possamos avançar no certame e cada investidor, a partir dos pontos levantados, possa tirar as suas próprias conclusões. Para facilitar a compreensão do debate, dividimos o texto nos seguintes tópicos:

  • Short Squeeze: o que é?
  • Como ocorre o movimento Short Squeeze
  • Caso Gamestop na Bolsa americana
  • Caso IRBR na Bolsa brasileira
  • Efeitos e impactos no mercado
  • Os crimes contra o mercado de capitais

Boa leitura!

Short Squeeze: entenda o conceito

O Short Squeeze ocorre quando um grupo de investidores considera que a queda na cotação de um ativo está sendo influenciada pela ação de determinados fatores e agentes do mercado, geralmente com grandes fundos operando vendas à descoberto, apostando na queda das ações.

A partir daí, com estratégia de inverter a tendência de queda do preço da ação (por acreditar nos fundamentos da empresa), forçam com que o investidor “vendido” tenha que cobrir suas opções, pagando um prêmio ao invés de obter lucro.

Como ocorre o movimento Short Squeeze

Uma vez que surja a hipótese de prática de short sem fundamentos por grandes fundos, há a reação de investidores que acreditam que a empresa não deveria cair, seja por análise fundamentalista, seja por acreditar na reviravolta do mercado, ou por qualquer outro hunch (palpite) que tenham. Para tanto, a estratégia consiste em realizar grandes compras do ativo, diminuindo o volume disponível para negociação, o que eleva o preço da ação no curto prazo pela demanda contínua por determinadas ações.

Os compradores, após realizarem compras o suficiente para diminuir consideravelmente a liquidez da ação, procedem ao hold, não vendendo, nem tampouco permitindo que sejam alugadas de modo a aproveitar o momento de vencimento das opções do capital que estava em posição short.

Nesta outra ponta, o investidor “vendido” será obrigado a cobrir suas opções, pagando o preço que aqueles que estão de posse da ação estejam dispostos a receber. O evento tem como efeito uma explosão momentânea no valor da ação, revertida diretamente em ganhos para os holders e perda para quem vislumbrava praticar o short. Ou seja, quem confiou na ação e segurou, na suspeita de prática de short sem fundamento, vê sua estratégia dar certo, “espremendo” até o último centavo daqueles que estavam manipulando, ainda que de forma legal, o preço do ativo, daí a expressão “short squeeze”.

GameStop e o efeito Reddit

O caso envolvendo o short squeeze nas ações da GameStop (GME) vem ocorrendo desde meados de 2020. Usuários do fórum Reddit, em um subgrupo de discussão intitulado como Wall Street Bets, local de discussão completamente irreverente, onde as operações são discutidas sem a mínima seriedade ou fundamentos.

É comum nesta comunidade a promoção do termo conhecido como “YOLO“, onde o investidor arrisca todo o patrimônio de sua conta em um único papel por uma razão qualquer ou mesmo sem razão alguma, apenas com intuito de especular.

No fórum Reddit, um usuário conhecido como u/Deep***ingValue postou, em julho de 2020, o seu entendimento sobre o papel GameStop (GME) e postou a sua posição no ativo. Com o passar do tempo, o mesmo usuário passou a atualizar as postagens no grupo com pensamentos sobre a situação da empresa e uma iminente operação short nas ações GME.

O ativo tinha mais de 100% de suas ações “shorteadas” quando os investidores, de maneira organizada, começaram a comprar ações e opções da GME planejando o squeeze. Vale lembrar que as regras de negociação do mercado americano são diferentes das nossas, por isso lá é possível ter mais de 100% das ações com operação short.

A situação chegou ao ápice quando Andrew Left, da Citron Research, postou um vídeo sobre o case de short do papel, que estava valendo US $30, e que ele via como iminente a queda para US $20.

O fórum se revoltou e partiu para o “combate”, especialmente quando saíram nele análises sobre as posições de short do hedge fund Melvin Capital, e eles chegaram ao consenso de que a empresa estava sendo espoliada (ainda que muitos tenham entendido que a empresa não tem futuro mesmo, mas essa operação estava simplesmente querendo se aproveitar da ruína iminente da GameStop e prejudicar o investidor pessoa física que havia investido nela).

Nesse contexto, uma vez especulada a data de vencimento das opções, os mais de 2 milhões de usuários começaram a comprar ações GME desesperadamente, de forma a tentar impedir a queda do papel e os ganhos considerados como “injustos” da Melvin Capital e dos demais fundos de hedge que possui grande capital investido na operação short de GameStop.

Os compradores fizeram com que a cotação do ativo, que no dia 12 de janeiro estava cotada em US$ 19,95, subisse para US$ 347,5 em apenas 15 dias. Ou seja, uma valorização de 1.641,90%. Já os vendidos tiveram, em um único dia, um prejuízo de 1,6 bilhões de dólares. As ações da GameStop chegaram a ser suspensas 9 vezes em um único pregão e algumas corretoras, como a Robinhood, impediram que o ativo fosse negociado.

Vale citar que a GameStop (GME) é uma rede de lojas físicas que vende produtos de vídeo games, como consoles e jogos. Com o avanço das mídias virtuais e jogos streaming, somadas às medidas restritivas por conta do novo coronavírus, a empresa perdeu boa parte de sua receita e atravessa um mau momento.

Nas últimas semanas, o usuário u/Deep***ingValue chegou a retornos astronômicos da ordem de 163.257,12% em derivativos e 2.233,12% sobre as ações. Enquanto este artigo é escrito as ações da companhia são cotadas em US$ 333,00.

Short Squeeze em IRB

Grupo no Telegram tenta replicar o movimento

Figura 1: Print do grupo no Telegram.

No dia 28 de janeiro, poucos dias após a explosão do movimento em GameStop e a repercussão nas redes sociais, foi a vez da versão brasileira do Wall Street Bets entrar em ação. Com o objetivo de fazer um Short Squeeze na IRB (IRBR3), em poucas horas formou-se um grupo no Telegram com mais de 35 mil pessoas, ocasionando uma especulação em torno das ações IRBR3, que fechou o pregão do dia 27 com alta de 17,81% e e um volume de 1.4 bilhões de reais.

Vale ressaltar que a empresa de resseguros, líder no Brasil no segmento, sofreu a maior queda do Ibovespa em 2020, com desvalorização de aproximadamente 80% na cotação das ações.

Entretanto, o papel não possui uma grande posição de vendidos. A título de informação, no dia 27/01/2021 havia 112.110.369 ações alugadas, com o ativo cotado em R$ 6,51. A quantidade de ações da empresa hoje é de 1.267.890.000, ou seja, menos de 10% das ações estavam vendidas.

No caso da GME eram mais de 100% das ações shorteadas, em IRBR3 não são nem 10% dos ativos, e se há alavancagem na ponta vendida, também há na ponta comprada, através de termos. Os termos em IRBR3 estão próximo das máximas apresentadas no papel, embora em volume financeiro menor. Além disso, há quem aposte na alta do ativo também.

Figura 2: Fonte TC Matrix.

Figura 3: Fonte TC Matrix.

Esse fato gerou um grande debate por todo o mercado financeiro e a CVM está monitorando os movimentos. No gráfico abaixo é possível conferir o saldo das posições das corretoras ao final do pregão da B3.

Fonte: Tryd.

Fonte: Tryd.

Repare que as corretoras que finalizaram com os maiores saldos de compra são corretoras que teoricamente não são muito utilizadas por pessoas físicas, como: JP Morgan, Citigroup, Bradesco e Tullet. Nesse sentido, corretoras mais famosas e focadas em pessoas físicas, como Clear, XP, Modal, Rico e Guide não aparecem em posições muito relevantes no Book de Ofertas.

Em outra visão, quando analisamos o volume negociado no papel por corretora, percebemos que a XP foi a maior operadora do dia, mas ainda com a presença de várias corretoras que atendem tipicamente perfis institucionais operando de forma relevante, como UBS, JP Morgan e Credit Suisse.

Dessa forma, o fato é que as ações subiram bastante e aparentemente houve sim um movimento de pessoas físicas para dar suporte ao papel. Por outro lado, percebam o fluxo vindo da ponta institucional. A incógnita fica por conta de não sabermos se foi uma compra aproveitando o fluxo das pessoas físicas ou se foi uma zeragem de posições por receio do caso GameStop.

Por fim, a intenção de replicar o feito da GME em papeis brasileiros não passou de uma boa oportunidade para que renovássemos nosso estoque de memes sobre o mercado financeiro.

E claro, o evento prático de toda essa organização foi zero, e ainda acabamos recebendo notificação da CVM informando que movimento organizado de short squeeze é irregular e criminoso

Fonte: Bloomberg

Short Squeeze: os impactos no mercado financeiro

Os movimentos short squeeze e até mesmo especulativos são comuns no mercado. Contudo, operações desta magnitude são relativamente novas e certamente além de gerar maiores problemas de ineficiência de mercado, podem gerar reações legais das autoridades que podem passar a restringir certas atividades, grupos ou reuniões pelo receio que esse comportamento se torne comum.

Diante disso, levando em consideração o entendimento da CVM, pode haver punições por meio de processos administrativos de acordo com o art. 11 da Lei 6385/76. A instituição conta também com a instrução 8, de 1979, a qual trata como crime a manipulação de mercado, com condições artificiais de demanda.

No mais, tais operações podem gerar prejuízos em grandes fundos e levar a um efeito dominó que poderia fragilizar o mercado como um todo, sendo prejudicial a todos os investidores.

Os crimes contra o mercado de capitais

Lei 6.385/76, Capítulo VII –B

Esta é a lei que disciplina o mercado de capitais brasileiros e cria a CVM, porém neste artigo não temos a pretensão de detalhar todos os aspectos da lei, focaremos apenas no capítulo que trata dos crimes contra o mercado de capitais.

Temos 4 artigos nesse capítulo, sendo eles, o Arts. 27-C, 27-D, 27-E e 27-F, porém os crimes são descritos nos três primeiros artigos acima mencionados. Aqui são descritas condutas de manipulação de mercado, insider trader, front running, além do exercício irregular de cargo, profissão, atividade ou função.

Entendemos que a conduta praticada por integrantes desse tipo de movimento, poderia, em tese, ser enquadrada no artigo 27 –C, que narra a seguinte conduta:

Art. 27-C. Realizar operações simuladas ou executar outras manobras fraudulentas destinadas a elevar, manter ou baixar a cotação, o preço ou o volume negociado de um valor mobiliário, com o fim de obter vantagem indevida ou lucro, para si ou para outrem, ou causar dano a terceiros.

Pena – reclusão, de 1 (um) a 8 (oito) anos, e multa de até 3 (três) vezes o montante da vantagem ilícita obtida em decorrência do crime.

Reflexão para os investidores

Um dos importantes aspectos que o investidor deve conhecer são os aspectos legais, vale lembrar que em regra ninguém pode alegar desconhecimento da lei. Portanto, devemos nos atentar aos nossos atos. A mensagem é: sejamos inteligentes e lógicos ao fazer nossos investimentos.

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Felipe Sousa
Felipe Sousa
Analistsa CNPI-T 2455, Consultor CVM, Especialista em Investimentos – CEA/Anbima e colaborador no TradersClub.
Natanael Liberalino
Natanael Liberalino
Certificado de Especialista em Investimentos – CEA/ANBIMA
Estudante de Economia

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